Caridade heroica

Data de publicação: 12/12/2017

Por André Bernardo


O dominicano Giuseppe Girotti, o franciscano Maximiliano Kolbe e a carmelita Teresa Benedita da Cruz conheceram de perto os horrores dos campos de extermínio da Segunda Guerra

O campo de concentração de Dachau, a 20 quilômetros de Munique (Alemanha), entrou para a História como o primeiro a ser erguido pelo regime nazista. Desde a data de sua abertura, em 22 de março de 1933, até o dia de sua libertação, em 29 de abril de 1945, cerca de 200 mil pessoas foram confinadas e 41.500 mil mortas lá. Para o escritor francês Guillaume Zeller, o campo de Dachau merece ser lembrado também como o “maior cemitério de sacerdotes católicos do mundo”. Segundo o autor do recém-lançado La Baraque des Prêtres (A Barraca dos Padres, inédito no Brasil), 2.579 padres, monges e seminaristas foram encarcerados em Dachau, entre 1938 e 1945. Desses, 1.034 não conseguiram sobreviver. “Enquanto uns foram vítimas de cruéis experiências médicas, outros foram mandados para a câmara de gás no Castelo Hartheim, na Áustria”, relata Zeller, por e-mail, para a Revista Família Cristã.
Para escrever La Baraque des Prêtres (Éditions Tallandier), Zeller chegou a entrevistar dois sobreviventes: os jesuítas Gérard Pierre e Pierre Metzger. Eles relataram que os alemães proibiam toda e qualquer prática religiosa, desde confessar os pecados dos detentos até prestar assistência aos moribundos. Na barraca de nº 26, os padres católicos montaram uma capela. As hóstias consagradas eram distribuídas, às escondidas, entre os demais presos. Foi nesta capela que, no dia 18 de dezembro de 1944, o seminarista alemão Karl Leisner foi ordenado padre pelo bispo francês Gabriel Piguet. “No inverno de 1945, uma epidemia de tifo castigou Dachau. Muitos presos foram confinados em barracas e esquecidos lá pelos guardas, que tinham medo de contrair a doença. Partiu dos padres a iniciativa de cuidar dos agonizantes e aliviar o sofrimento deles”, afirma o autor.
No ano passado, dia 26 de abril de 2014, o papa Francisco beatificou o sacerdote italiano Giuseppe Girotti. Ordenado dominicano em 1930, Giuseppe foi um dos 1.034 padres católicos que morreram em Dachau. No dia 29 de agosto de 1944, ele foi preso após cair numa sórdida armadilha. Um oficial nazista telefonou para o convento onde ele morava e, se fazendo passar pelo vizinho de um amigo, o médico judeu Giuseppe Diena disse que um dos filhos dele havia se ferido gravemente. Na mesma hora, Giuseppe partiu para o local. Chegando lá, recebeu voz de prisão. Seu crime? Prestar socorro a um judeu. “Girotti se prontificou a ajudar os judeus perseguidos pelo regime fascista de Benito Mussolini. Dava dinheiro, roupa e comida e os ajudava a se esconder ou a fugir da Itália. Sabia o quanto era perigoso o que fazia e pagou com a própria vida por isso”, detalha o frei Mariano Foralosso (op).  
 
“Justo entre as nações” − Girotti chegou a Dachau no dia 9 de outubro de 1944. Logo, fez amizade com um luterano, a quem pediu emprestada uma Bíblia. Todos os dias, organizava círculos bíblicos e convidava membros de outras religiões, como protestantes e ortodoxos, para meditar a Palavra de Deus. A pouca comida que recebia doava aos mais jovens, como o seminarista Angelo Dalmasso. “Coma, menino, você precisa se alimentar”, repetia, com um sorriso largo. “Em pouco tempo, chegou a pesar 37 quilos”, afirma Renato Vai, presidente da Associação Beato Giuseppe Girotti, sediada em Alba, a 600 quilômetros de Roma. Não demorou a cair doente. No dia 20 de março de 1945, Girotti foi levado às pressas para a enfermaria e não voltou mais. Lá, aplicaram nele uma injeção de benzina. Morreu no dia 1º de abril de 1945, Domingo de Páscoa. Suas últimas palavras foram “Maranathá”, que quer dizer “Vem, Senhor Jesus!”.
O gesto de Giuseppe Girotti jamais foi esquecido. Nem por cristãos, nem por judeus. Em 1995, por ocasião do 50º aniversário de seu martírio, Girotti teve seu nome gravado numa pedra do Yad Vashem, em Jerusalém. Cerca de 20 mil árvores enfeitam os jardins do Museu do Holocausto. Cada uma delas presta homenagem a um “não judeu” que deu sua vida para salvar os filhos de Israel. Mártires como o dominicano italiano Giuseppe Girotti, que conheceram de perto os horrores dos campos de concentração, a Igreja Católica tem muitos. Os mais famosos talvez sejam o franciscano polonês Maximiliano Maria Kolbe e a carmelita alemã Teresa Benedita da Cruz. Os dois foram mortos em Auschwitz (Polônia), o maior campo de extermínio nazista, em 14 de agosto de 1941 e em 9 de agosto de 1942, respectivamente. Estima-se que cerca de 1,1 milhão de pessoas perderam a vida em Auschwitz.

Sorteio da morte − Maximiliano Maria Kolbe chegou a Auschwitz no dia 28 de maio de 1941. Antes, já havia passado por outro campo de concentração: o de Amtitz (Polônia). “Os alemães observavam, desconcertados, aquele religioso que oferecia a eles medalhinhas de Nossa Senhora”, registra frei Diogo Luís Fuitem (ofm), autor de Vida de São Maximiliano Maria Kolbe (Loyola). Sob o nº 16.670, Kolbe foi submetido a trabalhos forçados, como construir um muro ao redor do forno crematório ou carregar pesadas toras de madeira por quatro quilômetros. “A Virgem Maria vai me ajudar. Vou conseguir cumprir com a minha parte!”, dizia àqueles que tentavam ajudá-lo. Um dia, um dos detentos do bloco 13 conseguiu escapar. Enfurecido, o chefe dos guardas decretou: “Se ele não for capturado até amanhã, dez de vocês morrerão!”. No dia seguinte, dez prisioneiros foram “sorteados” para morrer de fome.
Quando soube que tinha sido um dos escolhidos, o polonês Francisco Gajowniczek caiu no choro: “Adeus, minha esposa! Adeus, meus filhos!”. Compadecido, Maximiliano Kolbe dirigiu-se ao chefe dos guardas e, para espanto de todos, se ofereceu para tomar o lugar daquele pai de família. Encarcerados no Bunker (um subterrâneo com celas individuais), os dez condenados não tinham mais direito a comer ou a beber. Mesmo assim, Kolbe resistiu heroicamente. “Durante as três semanas em que esteve preso, não deixou de recitar o rosário ou de entoar cânticos em louvor a Maria. Devido ao silêncio do lugar, sua voz ecoava pelas outras celas. Ele começava as orações e os demais o acompanhavam”, relata Lourdes Crespan, autora de Maximiliano Kolbe – Pureza e Martírio (Loyola). No dia 14 de agosto de 1941, os guardas cansaram de esperar por sua morte e decidiram apressá-la com uma injeção de ácido muriático.

“Anjo de bondade” − A exemplo de São Maximiliano Kolbe, a história de Santa Teresa Benedita da Cruz, nascida Edith Stein, também impressiona pela caridade heroica. De origem judaica, converteu-se ao cristianismo aos 30 anos, tornou-se carmelita descalça aos 43 e foi mandada para a câmara de gás aos 51. Presa no Carmelo de Echt, na Holanda, chegou a Auschwitz no dia 2 de agosto de 1942, onde permaneceu por apenas sete dias. Neste curto intervalo de tempo, a prisioneira de nº 44.070 dedicou-se a cuidar das crianças órfãs. Não por acaso, muitos orfanatos da Europa levam seu nome. “Em nenhum momento se deixou abater. Pelo contrário. Animada pela fé, procurava consolar os demais prisioneiros. Foi um anjo de bondade”, derrama-se frei Patrício Sciadini (ocd), autor de Edith Stein (Loyola). Santa Teresa Benedita da Cruz foi beatificada no dia 1 de maio de 1987 e canonizada em 11 de outubro de 1998.
Já São Maximiliano Kolbe foi beatificado em 17 de outubro de 1971 e canonizado em 10 de outubro de 1982. Na ocasião, o papa João Paulo II chamou o mártir de Auschwitz de Padroeiro do Nosso Difícil Século XX. No dia de sua canonização, a cerimônia recebeu um convidado especialíssimo: o ex-sargento do exército polonês Francisco Gajowniczek. Aos 81 anos, Francisco deu testemunho do heroísmo daquele homem que se ofereceu para morrer em seu lugar: “Só pude agradecê-lo com os olhos. Estava aturdido e mal entendia o que se passava. Eu, o condenado, devo viver e outra pessoa, um estranho, de bom grado e voluntariamente, oferece sua vida por mim? Isto é sonho ou realidade?”, indagou, na ocasião. Giuseppe Girotti, Maximiliano Kolbe e Teresa Benedita da Cruz apenas fizeram o que Jesus lhes havia recomendado: “Não há maior amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).




Fonte: FC edição 955- julho 2015
Postado por: Família Cristã




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