O oásis de dom Oscar Romero

Data de publicação: 12/12/2017

Por  Karla Maria, de San Salvador, El Salvador


Dom Oscar Romero gostava de frijoles volteados, de música, de estar em família com os amigos, e foi em Santa Tecla que encontrou seu oásis

El Salvador é um dos países mais pobres da América Latina, e quem aterrissa por lá, em especial em sua capital, San Salvador, pode observar a simplicidade de seu povo e, sobretudo, sentir sua acolhida carinhosa. O país conta com uma democracia recente, depois de uma guerra civil que durou 12 anos e deixou entre 60 e 80 mil mortos, inclusive dom Oscar Arnulfo Romero (1917-1980).
Em 24 de março de 1980, o arcebispo salvadorenho foi assassinado em uma capela do Hospital da Divina Providência, em San Salvador. Os bancos de madeira simples permanecem ali e são testemunhas do sangue derramado. “Em este altar Mons. Oscar A. Romero ofrendo sua vida a Dios por su pueblo”, registra a placa fincada no presbitério, lembrando que ali o arcebispo levou um tiro no peito.
Dom Oscar Romero, chamado carinhosamente pelo povo de monsenhor, foi proclamado mártir e beato pelo papa Francisco, em 24 de maio de 2015. “Dom Romero, que construiu a paz com o poder do amor, deu testemunho da fé com sua vida entregue ao extremo”, disse o papa Francisco, em carta enviada ao arcebispo de Sam Salvador e presidente da Conferência Episcopal de El Salvador, dom José Luis Escobar, por ocasião da beatificação de dom Oscar Arnulfo Romero Galdámez.
Quem caminha por San Salvador sente sua presença ainda viva: nas paredes do aeroporto, nos livros de história recente do país, na fé do povo, no carinho que por ele sentiam e ainda nutrem. “Este era o oásis espiritual de dom Oscar Romero”, diz o guia turístico Mário Enrique Dominguez, referindo-se a Las Delicias de Las Chacón, um local muito visitado pelo arcebispo, localizado em Santa Tecla, cidade da região metropolitana. Trata-se de uma casa que se transformou em uma espécie de café ou doceria, com pratos típicos salvadorenhos, um dos locais mais tradicionais da culinária do país, mas não só.
Leonor del Carmen Chacón, 77 anos e sua irmã Elvira Chacón, 88, são as responsáveis pelo Las Delicias de Las Chacon, que fica em uma região pobre, de ruas tortas e cheias de cachorros. O espaço é repleto de plantas e vida, rústico e muito simples. Colorido por sua variedade de sabores de pastelitos à disposição de quem chega e pela cor da bebida preferida de dom Oscar Romero, o refresco de cevada: uma mistura de água, canela, pimenta-gorda, vanila fresca, farinha de mandioca, cravo e sal, feito artesanalmente por Leonor.
Passadas as cores, as mesas pesadas de madeira e o balcão repleto de frascos transparentes com seus doces, há o espaço dedicado exclusivamente aos objetos pessoais do monsenhor. Ali, fotos revelam sua amizade e intimidade com a família, porta-retratos, recortes de jornais, camisas que ele usava no dia a dia, a cadeira em que costumava se sentar para a ceia em família. “Os que vêm aqui dizem que sentem a presença do monsenhor e, de fato, porque aqui se sentia tão à vontade que dizia que nem precisava tirar os sapatos”, recorda Elvira, com a fala prejudicada pela sua idade.
“O que ele mais gostava de comer eram os frijoles volteados. Gostava muito do meu pai, da minha mãe. Minha irmã era como uma secretária para ele. Gostava que nós lhe contássemos piadas. Gostava de música, então a colocávamos, dançávamos e ríamos. Era uma alegria”, diz emocionada Leonor.
Ela conheceu o bispo no dia de seu casamento, em 27 de novembro de 1963, quando ele ainda era padre e testemunhou o casamento de Leonor, já que seu noivo, Raul Romero – que tem o sobrenome igual ao do arcebispo por coincidência e não por parentesco era acólito do padre Romero.
Depois da cerimônia de casamento, padre Romero os levou para a viagem de lua de mel em San Miguel. Era o presente do amigo, que também pagou a conta do hotel. “Era nosso amigo e pastor, ele gostava da nossa comida, tomava a cevada. Aqui ele não falava de política. Contávamos piadas. Falávamos da vida, porque ele dizia que vinha para comer e se distrair, esquecer um pouco o que acontecia”, conta Leonor. Sentia-se tão à vontade que gostava de lá, de se sentar no sofá e assistir à novela. “Ele dizia que não era pecado assistir à novela, que apenas não deveríamos aprender o mal delas, só o bem”, diz sorridente Leonor, lembrando-se do amigo.
No dia da morte de dom Oscar Romero, naquele 24 de março de 1980, a família o aguardara para a refeição. A comida fora preparada e servida na mesa: os frijoles volteados de que ele tanto gostava. Tudo estava pronto para recebê-lo. Mas monsenhor Romero nunca mais voltou. Às 18
horas, a família Chacón recebeu a notícia: o monsenhor estava morto. “Foi um golpe muito duro para todos nós. Começamos a receber ligações de pessoas dando-nos os pêsames, já que nos consideravam também sua família. Foi uma coisa terrível”, lamenta Leonor.
A loja Las Delicias de Las Chacon começou com uma mesinha pequena, para as pessoas que passavam pela então Colônia de Santa Tecla, há 55 anos, e de repente elas apareciam cada vez mais para comer os pastelitos de piña e tomar a agora famosa cevada. Hoje, o espaço que guarda o “Santuário Monsenhor” faz parte do city tour Monsenhor, que está à disposição de peregrinas e turistas na capital salvadorenha.
O city tour também inclui visita ao Centro de Monsenhor Romero e ao Museu dos Mártires, da Universidade Centro-americana (UCA), e visita à Capela dos Mártires e ao Jardim de Rosas. A Catedral San Salvador também é visitada, lá estão enterrados os restos mortais de dom Romero, na cripta.  Outros locais também podem ser visitados: o Museu da Palavra e Imagem, que oferece uma exposição de fotos pessoais de dom Romero; a casa em que o arcebispo viveu em seus últimos anos, que se tornou o Centro Histórico Monsenhor Romero; além da capela onde ele foi assassinado.




Fonte: FC edição 956- agosto 2015
Postado por: Família Cristã




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