Na ceia com o Menino

Data de publicação: 13/12/2017

Por Sérgio Esteves

Por que não tentar reproduzir o que poderia ter sido, de fato, a primeira ceia da Sagrada Família?

Peru, leitão, perna de carneiro, tênder ou chester. Para acompanhar: arroz branco, saladas, farofa, frutas secas – nozes e castanhas, de preferência – champanhe, ou algum outro espumante gelado, e trufas. No final, o indispensável panetone. Isto posto, com uma ou outra variação regional, como a rabanada ou o bolinho de bacalhau em alguns pontos do Brasil, devido à influência da colonização portuguesa, e está pronto o cenário de uma ceia natalina da classe média de algum país ocidental – americano ou europeu. Esse cardápio farto remonta a uma origem incerta e que nada tem a ver com a pobreza de uma gruta da velha Palestina. Segundo algumas tradições eurocêntricas, esse tipo de ceia originou-se em costumes do velhíssimo continente de deixar as portas abertas na noite em que se comemora o nascimento do Salvador, para acolher viajantes, e estes, ao lado dos anfitriões, celebrarem um dos eventos mais caros da cristandade. Para tanto, toda comida e bebida era pouca.
Mas, em um tempo no qual, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), 805 milhões de pessoas no mundo ainda padecem de fome crônica, celebrar o nascimento do filho de Deus, que veio ao mundo pregar o amor e um pouco mais de justiça, em meio a comilanças pode não ser o mais adequado. Mesmo porque a insegurança alimentar mundial não é resultado da insuficiência da produção de alimentos – o mundo produz mais do que o bastante para alimentar seus 7 bilhões de habitantes –, mas de sua má distribuição ou do desequilíbrio social. Calcula-se que 30% a 40% dos alimentos produzidos no planeta sejam desperdiçados e nos países ricos e em desenvolvimento a obesidade já mate mais do que a fome. Foram 3 milhões de vítimas em 2010 conforme um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), sem contar os outros milhões que adoecem por não controlarem o apetite.

Moderação – Assim, mesmo que seja um mero exercício de arqueologia ou humildade, por que não tentar ao menos uma vez reproduzir o que poderia ter sido, de fato, a primeira ceia de Maria, José e o Menino, ainda na manjedoura de Belém? Não seria preciso muito... Segundo o jornalista especialista em gastronomia José Antônio Dias Lopes, que assina a coluna Paladar no jornal O Estado de S.Paulo e autor de três livros que abordam a culinária por uma visão histórica, a primeira refeição da Sagrada Família teria sido entre frugal e moderada. “O que se poderia imaginar seria uma refeição simples, como uma salada de salsão com azeitona e passas; ou um peixe seco e frito, temperado com cominho. Claro, e também um pão, feito com farinha integral”, escreve o autor, tendo como base estudos dos pesquisadores Naomi Goodman, Robert Marcus e Susan Woolhandler, que reconstituíram os costumes culinários praticados no Oriente Médio de 2mil anos atrás e os publicaram no livro The Good Book Cookbook, ainda sem tradução para o português.
Não é novidade, segundo os relatos bíblicos, que o Salvador veio ao mundo em uma situação de pobreza, mas que o pai terreno do menino exercia uma profissão de prestígio e, portanto, a família não passava fome. José era um tekton, palavra do grego secular interpretada como construtor em madeira, ou carpinteiro, e derivada de architeckton, que significava “empreiteiro”. Logo, acreditava-se que ele era um profissional capaz de projetar e construir edifícios, profissão que, por algum tempo, pode ter sido seguida por Jesus, a julgar pelo conhecimento contido em pelo menos um de seus ensinamentos. “De fato, se algum de vós quer construir uma torre, não se senta primeiro para calcular os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, ele vai pôr o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a zombar” (Lucas 14,28-29).

Saudável – Nos primeiros dias do cristianismo, existia na Galileia uma forte indústria da pesca, tendo como base a profissão de alguns discípulos de Jesus (Pedro, André, Tiago, João e Zebedeu). Logo, o peixe, como fonte de proteína, seria uma das bases da culinária local. “Sendo a carne vermelha reservada para as ocasiões mais especiais”, descreve Dias Lopes, para quem a população da Palestina histórica tinha uma cozinha saudável influenciada por vários povos. “Comia-se agrião, aspargo, alcachofra, alho-poró, beterraba, brócolis, cebola, couve, erva-doce, espinafre, gengibre, pepino, repolho e salsão. Os pratos eram temperados com sal, alho, cominho, alecrim, gergelim e aneto. Comia-se também trigo e cevada. As frutas frescas e secas, ou seja, ameixa, maçã, figo, tâmara e noz, serviam de base para molhos e sobremesas; apreciavam-se o leite e derivados, mel e azeitona.” Com base nesses ingredientes, pode-se não conseguir reproduzir exatamente uma refeição realizada pela Sagrada Família, mas, certamente, aproximar-se de uma realidade mais serena e reflexiva, que tanto falta faz nas noites de Natais que se vivem hoje em dia.




Fonte: FC edição 948- dezembro 2014
Postado por: Família Cristã




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