Fugindo da Alcoolândia

Data de publicação: 15/12/2017

Por Antônio Edson

Crack, maconha, heroína, cocaína ou êxtase? Nenhuma delas. A droga que mais mata no Brasil é o álcool e os jovens são as principais vítimas, muitas vezes com a conivência da mídia, das famílias e das autoridades.

Um dos primeiros conjuntos de leis produzidos a partir da Constituição Federal de 1988, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) foi elaborado em 1990 com objetivo de proteger os menores de 18 anos. Um exemplo é seu artigo 243, que proíbe vender e fornecer, ainda que gratuitamente, ou mesmo entregar, de qualquer forma, a crianças e adolescentes, produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica. A proibição vale para todos, incluindo proprietários e empregados de estabelecimentos comerciais. E, apesar de clara, precisa sempre ser lembrada, pois a sociedade tem o hábito de esquecer o que não lhe é cobrado. A prova é um estudo realizado em 1996 pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Segundo ele, em dez estados do País, 19% dos jovens entre 10 e 18 anos tomaram bebida alcoólica mais de seis vezes por mês. Outras pesquisas, do Instituto Ibope, apontaram que 39% dos jovens dessa mesma faixa etária já compraram pessoalmente, alguma vez, bebidas alcoólicas.
Algo precisa ser feito. Afinal o consumo abusivo de álcool não é uma fonte de prazer como exibem as propagandas veiculadas na mídia, mas um problema de saúde pública. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o alcoolismo é a segunda maior causa de morte evitável do planeta – 2,5 milhões de óbitos anuais. No Brasil, nem se fala. Aqui, as maiores causas de morte, segundo o Ministério da Saúde, são duas doenças relacionadas ao alcoolismo (câncer e problemas cardiovasculares), o que explica o R$ 1 bilhão gastos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) em tratamentos e internações. Tudo resultado de uma verdadeira epidemia: temos 19 milhões (9,7% da população) de dependentes de álcool, conforme a Abead (Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas). Ainda de acordo com OMS, os brasileiros com mais de 15 anos – muitos dos quais, portanto, adolescentes – bebem cerca de 10 litros de álcool por ano, contra uma média mundial de 6,1 litros. Queremos essa Alcoolândia para nossas crianças e jovens?

População aliada – Conscientemente, não. Porém, por omissão ou ignorância, permitimos. Um levantamento feito em 2004 pela Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) junto a estudantes de 12 a 17 anos do Ensino Fundamental e Médio apontou que o consumo de álcool por esse público já atinge 54% dos entrevistados. 7% deles afirmam apresentar dependência, o que não está longe do real, pois oito entre dez alcoólatras deram seu primeiro gole antes dos 18 anos. Dispensável dizer que, em uma fase vulnerável da vida como a adolescência, o alcoolismo aumenta as chances de o jovem adotar comportamentos de risco, contrair alguma doença sexualmente transmissível, envolver-se em acidentes de trânsito e atos de violência, sujeitar-se a uma gravidez precoce, sofrer de problemas neurológicos, transtornos mentais e doenças hepáticas. E por tabela abandonar a escola. Sem falar que o uso abusivo de álcool é uma porta de entrada para as drogas ilícitas, como maconha, crack ou cocaína.
“Tanto na fiscalização quanto na garantia de programas para prevenção e tratamento dos problemas decorrentes do uso de álcool, estamos aquém do necessário para os jovens serem respeitados. Cabe ao Ministério Público acionar o Estado para ele exercer suas funções definidas pela lei” – confirma Laila Shukair, promotora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça da Infância e da Juventude do estado de São Paulo, que em outubro de 2011 contra-atacou com a Lei 14.592 para proibir a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos. Entre novembro e dezembro, agentes do Departamento de Vigilância Sanitária Estadual, das Vigilâncias Municipais e do Procon (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) aplicaram 251 multas a comerciantes que infringiram a lei. Pode ser pouco para um estado de 645 municípios e em que só sua capital tem mais de 50 mil estabelecimentos comercializando bebida alcoólica, mas é um sinal. "O trabalho será intensificado nos desfiles de carnaval, shows de rock e viradas culturais. Contamos com o apoio da população, que precisa ser nossa aliada" – afirma a médica Maria Cristina Megid, diretora do Centro de Vigilância Sanitária do estado.

Um golinho só?– Ostensiva, a Lei 14.592 dá as caras em cartazes que devem ser afixados em locais visíveis em todos os estabelecimentos comerciais que vendem bebidas – bares, restaurantes, casas noturnas, supermercados, hotéis etc. A lei pode levar um mau comerciante, em caso de reincidência, a ser multado em até 87 mil reais e perder a licença de funcionamento. O que é uma punição até branda para o prejuízo social que causado à sociedade. É injusto, porém, ele responder sozinho. Dói dizer, mas as famílias também têm sua cota de culpa. “38% dos menores que começaram a beber deram o primeiro gole em casa. Muitas vezes por ignorar as consequências, as famílias são condescendentes e procuram minimizar seus efeitos. O que é perigoso. Pensam que só um golinho não faz mal, quando pode e muito” – alerta a sanitarista Maria Cristina.
A ciência ainda não descobriu o motivo porque algumas pessoas, de fato, são levadas à compulsão de beber sem parar logo a partir do primeiro trago. Mas a essa doença deu o nome de alcoolismo. Quem sofre do mal, os alcoólatra ou alcoolista, precisa evitar o primeiro gole, tenha 12 ou 70 anos. “Estou há quase 40 anos em sobriedade, nem por isso deixo de ser alcoólatra. Terei problemas se morder um simples bombom com licor” – admite o padre Bernardo Frade, o Fradão, 67 anos, fundador da CCEV (Casa Comunidade Esperança e Vida), que há 32 anos se dedica a restaurar a qualidade de vida e as famílias de alcoólatras e dependentes químicos. Atualmente existem 65 núcleos denominados Nata (Núcleo de Apoio a Toxicômanos e Alcoólatras) do CCEV em São Paulo, Santa Catarina, Ceará e Minas Gerais que atendem mais de sete mil pessoas. O trabalho ainda se estende às famílias e os filhos dos dependentes. “O alcoolismo compromete a família, por isso não podemos só remediar o problema, mas preveni-lo” – justifica Fradão.

O melhor dessa vida – A CCEV trabalha para os jovens evitarem o primeiro gole e isso é tão importante como uma lei que imponha punições. “Mostramos aos adolescentes, através da espiritualidade, que eles podem ser mais felizes sem álcool ou drogas” – explica o monge André da Esperança, 26 anos, guia espiritual dos Navi (Núcleos de Apoio à Vida), grupos do CCEV de prevenção ao uso de drogas que atuam junto a crianças e jovens. A proposta não tem segredo, mas nem por isso é de fácil execução. Afinal, do outro lado, está a mídia com todo seu poder de aliciamento. “A propaganda prega o prazer de beber. Seja por estar em uma praia, na saída do trabalho ou no intervalo de um jogo de futebol, o melhor, segundo ela, é abrir uma cerveja. Como se essa não fosse uma bebida alcoólica. Precisamos de um maior controle sobre essa publicidade. E, claro, de famílias vigilantes” – avalia Fradão.
“O mais importante é sabermos dizer não” – ensina Mariana Monteiro, 16 anos, aluna do 3º ano do Ensino Médio e integrante do Navi da cidade de Campo Limpo Paulista (SP). “Nosso grupo, que está em torno de 30 pessoas, tem gente de 14 a 26 anos e, claro, dispensa qualquer bebida alcoólica em nossos encontros. Mas isso, infelizmente, não é regra. Muitos adolescentes convivem com a bebida” – afirma ela, que aos finais de semana trabalha em um supermercado e já precisou intervir para um erro não se consumar. “Para facilitar o controle, separamos as cervejas dos refrigerantes. Mesmo assim, alguns adolescentes tentam comprar. Dizem que são maiores de idade, que esqueceram a identidade em casa ou mesmo que estão comprando para levar para os pais. Não vendemos em nenhuma hipótese” – testemunha a jovem.
Outros jovens do Navi sabem, por experiência de vida, o quanto é importante deixar o álcool de lado. “Minha família, no passado, sofreu por causa da bebida. O problema, felizmente, foi superado, mas eu não quero o mesmo para mim. Parece que o trauma ficou” – afirma Pedro Libertini, 17 anos, também aluno do 3º ano do Ensino Médio. “Se eu sei que posso ter a compulsão de beber após experimentar o primeiro gole, por que vou correr um risco desnecessário? O melhor mesmo é dizer não. E procurar viver o melhor dessa vida, não o pior” – reafirma o garoto.





Fonte: fc edição 912- fevereiro 2012
Postado por: Família Cristã




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