Automedicação

Data de publicação: 26/01/2018

Quando o remédio faz mal
O hábito de consumir remédios por conta própria ou por indicação de terceiros pode ter sérias consequências sobre a saúde de usuários, sendo a principal causa de intoxicações.


As prateleiras das farmácias estão repletas de remédios que aliviam quase imediatamente os sintomas de quem sente algum tipo de dor. Mas medicamentos como anti-inflamatórios, analgésicos, antitérmicos, que parecem ser tão “inofensivos”, se tomados sem orientação médica, podem trazer consequências desagradáveis. De acordo com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), essas drogas representam as classes de medicamentos que mais intoxicam, e um dos motivos é a chamada automedicação: as pessoas os tomam por conta própria ou por indicações de terceiros. Os medicamentos são a principal causa de intoxicação no Brasil, segundo dados do Sinitox (Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas), da Fundação Oswaldo Cruz, ficando à frente de produtos de limpeza, agrotóxicos e alimentos estragados.
Essas drogas apresentam maior prevalência de intoxicação justamente por serem muito acessíveis e trazerem a percepção de que não vão fazer mal nenhum. Mas podem sim prejudicar a saúde, principalmente de crianças e idosos e de quem tem doenças renais ou hepáticas.
O Ceatox (Centro de Assistência Toxicológica), ligado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, tem unidades espalhadas no estado de São Paulo e é um dos 35 centros de notificações compulsórias de eventos toxicológicos do país. “Promovemos o apoio com informações e complementação do tratamento de casos de intoxicações medicamentosas’, lembra Alaor Aparecido Almeida, farmacêutico, bioquímico e responsável técnico pelo Ceatox do Instituto de Biociências da UNESP (Universidade Estadual Paulista), em Botucatu, interior paulista, onde chegam inúmeros casos de intoxicação medicamentosa. AAS (ácido acetilsalicílico), cetoprofeno, ibuprofeno e o diclofenaco são bem comuns nos casos de intoxicação medicamentosa. Segundo Alaor, o efeito tóxico dessas medicações é multifatorial, pois depende, por exemplo, de como são administrados e da idade de quem os toma. “E também vai depender da suscetibilidade genética. Na população brasileira, há uma grande diferença genética entre as pessoas, portanto elas podem ou não apresentar reação intoxicante”, afirma. A posologia, ou seja, o tempo entre uma dose e outra, quando não é estabelecida pelo médico, também pode levar a um quadro de intoxicação: tomar uma dose de 5h em 5h, por exemplo, ao invés de 8h em 8h, causa um acúmulo da substância no organismo, causando intoxicação.

Consequências - Os sintomas mais comuns de intoxicação, devido ao uso indiscriminado deste tipo de medicação, são: dor de estômago, náuseas, vômito. E a lista continua: diarreia, constipação intestinal, reações de hipersensibilidade (alergia), ambliopia (redução da capacidade de visualização), lesões hepáticas, retenção de líquidos, alterações no sangue, hemorragia, tontura, depressão, insônia e insuficiência renal em pacientes desidratados. E para quem usa esse tipo de medicação por um longo tempo, há riscos de uma doença renal crônica ou insuficiência renal aguda. O farmacêutico ainda lembra que o uso de anti-inflamatório pode mascarar a evolução de uma doença e prejudicar o seu tratamento. Já os antibióticos apresentam menos riscos de intoxicação, porém, podem ocasionar efeitos colaterais. Desde o final de 2010, os antibióticos são vendidos somente com receita. “Realmente as pessoas banalizavam o uso de antibióticos, tomando de forma errada ou desnecessária e ainda com erro do autodiagnóstico”, destaca Alaor. Isso leva a um aumento da resistência bacteriana. “A pessoa fica então à mercê de uma infecção resistente, com sérias consequências, e até o óbito, pela falta de um antibiótico eficaz”, ressalta o farmacêutico.

Motivos - As pessoas veem essas drogas como um tratamento “caseiro atóxico”, e por isso são muito utilizadas. Há também, muitas vezes, a dificuldade de se chegar a um médico: as consultas particulares são podem ser custeadas pela maior parte da população e o atendimento no sistema público é demorado. Aí a alternativa é a farmácia, como um meio mais rápido e sem restrição de venda desses medicamentos. “O próprio sistema de saúde facilita a automedicação devido à venda livre de medicamentos, que teoricamente não causam efeitos tóxicos relevantes”, lembra o farmacêutico. E ainda existem os interesses dos laboratórios farmacêuticos e das redes de farmácias e drogarias.  “Talvez se houvesse vontade política para desenvolver trabalho preventivo de esclarecimento da população, associado às entidades de classe de farmacêuticos, médicos, enfermeiros e dentistas, e de forma mais agressiva, assim como fazem para vender os medicamentos, poderíamos aos poucos construir uma sociedade mais esclarecida”, ressalta o farmacêutico.
Importante é a conscientização com ações mais efetivas de entidades ligadas ao sistema de saúde, sejam públicas ou particulares. “As recomendações passam pelo esclarecimento realizado pelos farmacêuticos, responsáveis legais pelas farmácias ou drogarias, aos consumidores”, destaca Alaor. Na prática, reconhece ele, isso é difícil, já que se trata de estabelecimentos comerciais, com o objetivo de vender. Do lado da população, também há obstáculos: “Ainda há resistência em aceitar os conselhos desses profissionais, e as pessoas acabam levando os medicamentos”. Para ele, tais medicamentos deveriam ter atenção especial e políticas públicas de esclarecimento dos riscos do seu uso de forma inadequada.

Por Rosangela Barboza




Fonte: 975 - FC Março 2017
Postado por: Família Cristã




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