O Santuário da Santa Cruz

Data de publicação: 02/02/2018


O Mosteiro de Santo Toribio de Liébana, na Espanha,  abriga obras do Beato de Liébana e, segundo os cristãos católicos, um pedaço da Cruz e onde Jesus Cristo foi crucificado




O mosteiro de Santo Toríbio de Liébana é, juntamente com Jerusalém, Roma, Santiago de Compostela e Caravaca de La Cruz um dos enclaves santos do cristianismo.  Situado entre bosques e montanhas do norte da Espanha, região da Cantábria,  o santuário quase milenário recebe anualmente milhares de peregrinos que ficam extasiados com a beleza e a tranquilidade, de onde divisam os célebres Picos de Europa.
A sua história remonta ao século V, de acordo com alguns historiadores, quando então vivia um anacoreta chamado Toríbio que vivia em plena abstinência e disciplina de um autêntico ermitão. Durante suas orações em uma caverna denominada “Cueva Santa” ele recebia a visita de um ou mais anjos, com os quais mantinha longas conversas. Foram eles que aconselharam ao futuro santo a iniciar a construção de um mosteiro naquele lugar tão distante das demais regiões povoadas.
A REVISTA FAMÍLIA CRISTA visitou esta região da Espanha e entrevistou o seu principal cronista, o escritor Pedro Álvares, que nos contou a lenda da origem daquele enclave santo: “Durante a construção, Toríbio usou um par de bois que puxavam um carro com pedras e outros materiais de construção. Um dia, repentinamente, surgiu do meio do bosque um urso enorme que matou um dos bois. O monge, injuriado, recriminou o animal selvagem e lhe ordenou que substituísse o boi morto para continuar ajudando na edificação do mosteiro”, conta o cronista.
Esta lenda está materializada em dois capitéis da parte alta da atual igreja contigua ao mosteiro. Em um deles aparece o rosto estilizado de um urso e, no outro, o de um boi, símbolos do ermitão-santo.
Historicamente, o mosteiro original é do final do século VIII. Estava sob a adjudicação de São Martinho de Turieno, um famoso santo francês da época. Vários monges, cuja ordem se desconhece, se estabeleceram naquela região, renunciando a seus bens materiais e prometendo viver de forma austera e piedosa.
“Naquela época governava o rei Alfonso I, que enviou vários cristãos fugidos dos mouros para povoar a comarca de Liébana. O lugar, graças ao seu isolamento, era um refúgio seguro para pequenos grupos de povoadores e de religiosos. Por isso era perfeito para albergar os monges”, conta o cronista Álvarez.

De acordo com frei Eliseo Bengoa, de 97 anos, da Ordem dos Franciscanos que atualmente ocupam o mosteiro-santuário, no século V o bispo da cidade de Astorga, também chamado Toríbio, viajou até Terra Santa por ordem do Papa Leão Magno para custodiar as “Santas Relíquias” do Sepulcro de Jerusalém.
Como Jerusalém tinha o risco, ao longo dos séculos, de cair em poder dos então chamados “infiéis”, Toríbio obteve do Papa a autorização para trazer da Cidade Santa para a catedral de Astorga várias relíquias, entre elas, a Cruz onde Cristo morreu, conta o venerável ancião, cuja memória se mantém intacta depois de quase um século de existência. Os pedaços das madeiras sagradas estiveram durante quase três séculos na catedral de Astorga, até a chegada dos muçulmanos.
O frei Bengoa escuta, atentamente, as confissões dos fiéis na igreja do mosteiro, especialmente dos jovens, que são atraídos pelo seu enorme carinho, como nos provou durante toda a entrevista. De origem vasca, esteve entre 1940 e 1962 em Cuba, logo na Colômbia, para depois regressar à Espanha.

Mosteiro Santo Toríbio − A meados do século IX os restos sagrados daquele que fora bispo da cidade de Astorga, o futuro Santo Toríbio, foram levados até o mosteiro que acabou recebendo o seu nome. Estavam acompanhados de uma arca com as relíquias sagradas que o religioso havia trazido de Jerusalém. Lá, no mosteiro, estariam salvaguardados dos possíveis ataques dos muçulmanos. 
De fato, alguns anos depois, em 868, Mohamed I cercou a cidade de Astorga, onde se havia refugiado o rei Alfonso III, o Magno. Embora não tenha conseguido avançar, o ataque mouro demonstrou que os cristãos estavam sob perigo iminente naquela região da Espanha.
Foi naquela época que começou o culto ao santo e já a principio do século X os documentos indicam que o mosteiro já trocara de nome: ou seja, de São Martinho de Turieno passou a ser o de Santo Toríbio, não o ermitão, senão o que fora bispo de Astorga. No ano 915 habitavam as frias paredes de pedra dezoito monges cujos nomes eram de origem latina e visigoda, a exemplo de Cautio, Vicente, Froila, Abodino ou Materno.
Um manuscrito do ano 925 revela que um conde, Dom Alfonso, mandou construir a igreja de Santa Maria de Lebeña para albergar o corpo de Santo Toríbio. Mas, quando começaram a escavar para exumar os restos mortais da sua sepultura, “por altos juízos de Deus, fui castigado, ficando cego”, segundo um manuscrito da época.
O infeliz acontecimento obrigou o conde a suspender a construção da igreja. Não obstante, desesperado, o nobre invocou a ajuda divina de Santo Toríbio e de São Martinho de Turieno e, de acordo com o seu depoimento escrito, graças à intervenção divina recuperou a visão de forma milagrosa. Ao falecer, Alfonso doou muitas de suas possessões aos monges de Liébana o que, evidentemente, ampliaria seu espaço e ação religiosa.
O mosteiro também é sede de uma das confrarias mais antigas do mundo cristão, a da Vera Cruz ou Santíssima Cruz, criada a partir do ano 1183. Dois anos antes, o mosteiro se converteu em um santuário regional que acolhia peregrinos de todas as classes.

O milagre do Prior − Um dos antigos livros conservados no mosteiro revela que, no começo do século XIV, um outro Toribio, “um homem de La Serna, perto de Carrión, que não podia ter filhos, veio em romaria até Santo Toríbio de Liébana para rogar que pudesse ter herdeiros. As preces e rogativas ao santo deram resultado, dando-lhe Deus um descendente que recebeu o nome também de Toríbio. Mas um dia, quando o pequeno tinha sete anos, enquanto tentava atravessar, juntamente com outras crianças, o rio Carrión, caiu na água e se afogou”. Narra a história que, as súplicas de sua mãe a Deus, fizeram que o menino ressuscitasse.
Já de adulto, este Toríbio professou tornou-se beneditino e conseguiu, como prior, que o mosteiro alcançasse o esplendor de antanho.  O tempo passou com altos e baixos na atividade monacal até que, em 1512, uma bula ditada em Roma pelo Papa Julio II, completada por outras de Leão X no ano seguinte, concederam o privilegio ao monastério de Santo Toríbio de comemorar seu próprio Jubileu. Este se realiza quando o dia 16 de abril coincide com um domingo. O último foi em 2006 e neste ano, de 2012, foram comemorados os 500 anos do Jubileu.
Em 1835 o governo espanhol pôs em prática o processo de “desamortición de Mendizábal”, ou seja, se apoderou de todos os bens da Igreja. Leiloes públicos foram realizados e muitos objetos valiosos se perderam para sempre. O mosteiro acabou sendo abandonado até que um dia, em 1957, a ordem dos Franciscanos começou a reabilitar o lugar e reativar as tradições outrora existentes.

Capela do Lignum Crucis − Um dos maiores tesouros espirituais de Santo Toríbio de Liébana é o seu famoso “Lignum Crucis”, ou seja, dois grandes fragmentos de madeira que teriam sido parte da cruz onde Jesus Cristo foi martirizado. É considerada a maior relíquia deste gênero do cristianismo, seguida de outra inventariada por Roualt de Fleury, no Vaticano. Na atualidade as duas madeiras tem aproximadamente 60 centímetros de comprimento.
A relíquia está salvaguardada em uma capela construída no começo do século XVIII em estilo barroco. Uma régia grade de ferro separa esta capela da igreja, e suas portas são abertas solenemente, cada manhã, por um dos franciscanos. Lá acodem muitos peregrinos vindos de todas as partes do mundo com uma intenção: beijar um pedaço do Lignum Crucis contido dentro de um precioso relicário.
Ao centro da capela ergue-se um pequeno templo ou tabernáculo de madeira – recoberto por uma fina camada de ouro, que o arcebispo de Bogotá a princípios do século XVIII (Cossío y Otero) mandou construir. Tem forma octogonal e colunas barrocas. No interior é guardado o Lignum Crucis que está protegido por grades.
A origem ao culto desta cruz remonta, a finais do século IX ou princípios do século X, ao mesmo tempo em que chegaram ao mosteiro os restos mortais de Santo Toríbio, quem fora bispo de Astorga.
Porém, o documento mais antigo onde aparece o nome da relíquia é do ano de 1316. Um religioso chamado Sandoval, que visitou o mosteiro no final do século XVI, descreve da seguinte forma o objeto de devoção: “grande parte da Cruz na qual Cristo morreu para nossa Salvação tem três palmos e meio de comprimento, e o outro fragmento tem dois palmos; é o braço esquerdo da Santa Cruz que a rainha Helena depositou em Jerusalém quando descobriu as cruzes de Cristo e dos ladrões”. Helena era a mãe do imperador de Bizâncio, do século IV.
Em 1958 o Instituto Florestal de Pesquisas e Experiências de Madri realizou um estudo de um pedacinho de madeira da Cruz a pedido do capelão do mosteiro. O resultado foi o seguinte: “se deduz que a espécie botânica da madeira do Lignum Crucis é a Cupressus Sempervivens, tratando-se de uma madeira extraordinariamente antiga e que nada impede dizer que alcance a idade pretendida”, ou seja, de quase 2000 anos.
O fragmento analisado pertenceu a uma árvore conífera com estrutura lenhosa, ou seja, uma espécie de cipreste que também existe na Palestina. Infelizmente não foi possível, na época, o uso do método do Carbono 14 para datação, pois se queria evitar a destruição do fragmento durante o processo de análise.

A igreja − A atual igreja,  de estilo gótico,  foi construída a partir de 1256 sobre outra mais antiga, de estilo românico. Na abside esquerda uma tradição assegura que está enterrado o corpo de Santo Toríbio onde se encontra uma estátua de madeira de proporções reais que representa o venerado religioso. “Está vendo estas pequenas e múltiplas incisões na imagem?” apontou frei Bengoa,  “Pois são resultado da devoção dos peregrinos, que antes vinham aqui e levavam um pedacinho desta madeira como se fosse um amuleto ou uma relíquia para guardar em suas casas. Os braços desapareceram completamente” sorri o simpático franciscano de 97 anos.
Do lado de fora da igreja, no portão principal, estão esculpidos ramos de uvas, simbolizando os Sacramentos. O segundo portão somente é aberto durante os anos dos Jubileus é tem estilo românico, isto é, de plena Idade Média.
O claustro, um pátio interior aberto, é simples e reflete a austeridade do resto do mosteiro. Na entrada do pátio, no átrio, existe uma grande escultura onde aparece, em alto-relevo, o chamado Beato de Liébana escrevendo o seu célebre “Comentários ao Apocalipse”, uma obra que revolucionou a cultura visual e espiritual da Idade Média.

Beato de Liébana − O chamado “beato de Liébana” viveu no mosteiro no século VIII. Juntamente com o bispo Hetério, redigiu uma apologia em que defendiam que Cristo era filho “adotivo e nominal de Deus”, ou seja, que se procurava “adorar a Cristo, Filho de Deus e Deus Verdadeiro”.
Na verdade, procuraram combater a heresia vigente na sua época, que afirmava que Cristo somente era filho “adotivo” de Deus. Nesse processo esteve implicado até mesmo o imperador Carlos Magno que convocou um Concílio durante o qual se ratificaram as posturas do beato e de Hetério frente aos supostos hereges, explica frei Bengoa. A ortodoxia do beato também combateu outros movimentos considerados heréticos, como o Priscilianismo e o Arrianismo, ambos desenvolvidos e praticados na antiga Espanha.
Porém, o mais célebre de seus trabalhos é, sem dúvida, o mencionado “Comentários ao Apocalipse”, uma série de doze livros que dedicou ao seu amigo Hetério a partir do ano de 776. As belíssimas ilustrações multicoloridas e fantásticas, repleta de seres sobrenaturais e angelicais - se tornaram famosas em toda a Europa. Os livros foram uma tentativa de explicar o texto de São João, baseando-se em outros livros religiosos dos chamados cristãos orientais e romanos.

Texto e fotos Pablo Villarrubia Mauso




Fonte: FC - Fevereiro 2013
Postado por: Família Cristã




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