Hospedar os peregrinos

Data de publicação: 15/03/2018

Hospedar os peregrinos

Na tradição cristã, a acolhida aos peregrinos sempre foi uma preocupação decorrente do compromisso da fé


Dar ou não dar hospedagem aos peregrinos responde a um dos critérios para nosso juízo final. “Então o Rei dirá aos da sua direita: ‘Venham benditos de meu Pai! (...) Pois era estrangeiro e me acolheram!” Aos que estiverem à esquerda dirá: “Afastem-se de mim! (...) Pois eu era estrangeiro e vocês não me acolheram” (Mt 25,34-35; 41-43). Na experiência histórica do povo de Israel, o peregrinar e o sentir-se estrangeiro faz parte de uma realidade vivida, marcada por escravidões, inseguranças, amarguras e exílio. O Deus da Aliança é sempre acolhedor e misericordioso. Nós, humanos, nem sempre! Nossas contradições também tramam exclusões, exílios e abandonos.
   
Povo peregrino – Nas prescrições morais, culturais e éticas registradas no livro do Levítico, confirmando a santidade de Javé que suscita o amor solidário entre as pessoas, pede-se: “Se um estrangeiro habita convosco na vossa terra, não o molestareis. O estrangeiro que habita convosco será para vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito. Eu sou Javé o vosso Deus” (Lv 19,33-34).
Não só a própria experiência angustiante da brevidade da vida e seus sofrimentos, mas também por lembrar suas raízes e sua história, o Salmista lança a Deus um grande desafio: “Ouve a minha prece. Javé, dá ouvido aos meus gritos, não fiques surdo ao meu pranto! Pois eu sou um forasteiro junto a ti, um inquilino como todos os meus pais. Afasta de mim o teu olhar, e eu me alegrarei, antes que eu me vá e não exista mais” (Sl 39,13).
Ser peregrino ou ser migrante é uma situação humana que estremece todas as seguranças da pessoa e a coloca suspensa e sem chão, sem terra e sem aconchego. Uma vida assim é uma vida exposta a todo tipo de indigência que clama por misericórdia. Se, para uma pessoa, essa experiência causa uma dramática sensação de estar perdida, imaginemos o que significa para uma família, onde não só adultos, mas também crianças se sentem no mesmo abandono.
O papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, assim se expressa: “Os migrantes representam um desafio especial para mim, por ser Pastor de uma Igreja sem fronteiras que se sente mãe de todos. Por isso, exorto os países a uma abertura generosa, que, em vez de temer a destruição da identidade local, seja capaz de criar novas sínteses culturais. Como são belas as cidades que superam a desconfiança doentia e integram os que são diferentes, fazendo desta integração um novo fator de progresso! Como são encantadoras as cidades que, já no seu projeto arquitetônico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro” (EG 210b).
Na tradição cristã, a acolhida aos peregrinos sempre foi uma preocupação decorrente do compromisso da fé. Por ser Cristo o fundamento de nossa fé e a razão de nossa esperança, Ele também é o argumento de nossas obras de misericórdia. O Cristo do Evangelho, da Eucaristia e da comunidade reunida é também o Cristo que se apresenta a nós como forasteiro, peregrino e tantas vezes andarilho e morador de rua.
   
Peregrinos de nosso tempo - Se há um fenômeno reconhecido de nosso tempo é a globalização. Constata-se que todos os segmentos por onde se movimentam a vida da humanidade e a convivência são atingidos positiva ou negativamente pela globalização. Não se trata aqui de analisar os componentes causadores deste processo rápido e profundo de mudanças, mas acima de tudo acenar para algumas consequências que mais preocupam a humanidade de hoje.
Por bem ou por mal, estamos vivendo e convivendo num mundo sem fronteiras. Como a água que corre e sempre encontra modos e momentos para ir se acomodando, assim são as multidões humanas que peregrinam pelo mundo, procurando viver e conviver. Ora movidas por intercâmbios culturais; ora atraídas por grandes promoções esportivas e até religiosas, por turismo e até por perseguições, pela fome e por agressões da natureza, as multidões peregrinam, migram ou buscam refúgio e compaixão.
Desde a Segunda Guerra Mundial, vive-se hoje a pior crise migratória da humanidade. Uma onda agitada pelo desespero força o fenômeno das migrações no mundo, especialmente onde a pobreza e a violência se tornam sempre mais ameaçadoras. Aqui no Brasil, especialmente no Sul, convivem haitianos e senegaleses que já fazem parte de nosso corpo social, mesmo com os desafios que esta realidade provoca. A Igreja, pelas famílias religiosas devotadas ao cuidado dos migrantes, acolhe e incentiva a prática desta obra de misericórdia.
A União Europeia, especialmente a Itália, Grécia e Hungria, vem sendo atingida por essa onda que vem do Oriente Médio e da África. Se em 2014 foram 280 mil os que migraram, em 2015 foram 350 mil. Os conflitos na Síria e no Afeganistão e a violência na Eritreia são as principais causas da migração. Em pouco tempo, mais de 2.600 migrantes se afogaram no Mediterrâneo, tentando chegar à Grécia e à Itália.
O papa Francisco, como um profeta da misericórdia, no início de seu pontificado foi até a Ilha de Lampedusa, no sul da Itália, sem protocolos, mas unicamente como pastor. Ao chegar ao mar laça coroas de flores em homenagem aos refugiados mortos. Nesse cenário dramático, lembra as perguntas que Deus faz a Adão e a Caim: “Adão, onde estás?”. É a primeira pergunta após o pecado. “Caim, onde está o teu irmão?”. “Estamos desorientados, já não estamos atentos ao mundo em que vivemos (...). Já não somos capazes sequer de nos guardar uns com os outros (...). Reaparece a figura do ‘inominado’ de Alexandre Manzoni. A globalização da indiferença torna-nos a todos ‘inominados’, responsáveis sem nome, nem rosto” (Papa Francisco, em Lampedusa).
O mesmo drama, senão pior, Francisco viu e sentiu na ilha grega de Lesbos, no dia 16 de abril de 2016. Ali viu cenas de desespero de crianças, jovens órfãos porque perderam os pais na guerra, idosos abandonados na velhice. Foi dali que Francisco levou três famílias, com 12 pessoas para o Vaticano, como um sinal de acolhimento concreto aos novos peregrinos que perambulam pelo mundo.







Fonte: FC edição 974, fevereiro de 2017
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Evangelização, sim!
Para Francisco, a evangelização não pode confundir-se com o clericalismo nem com o proselitismo.
O Anjo Bom do Brasil
Irmã Dulce,a religiosa que conquistou o coração do povo brasileiro será canonizada.
Mesa da Palavra
13º. Domingo do Tempo Comum - Ano C • 30 de junho de 2019 - Solenidade de São Pedro e São Paulo
Mesa da Palavra
A fé cristã professada pela Igreja Católica é de tal forma complicada, que só pode ser verdadeira.
Mesa da Palavra
Solenidade de Pentecostes.Quando ele vier, conduzirá os discípulos à plena verdade.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados