Um grito pela vida da mulher

Data de publicação: 19/03/2018


 Um grito pela vida das mulheres


Joyce Elayne (ao centro),no 12° Encontro Nacional da Pastoral da Juventude, o lançamento da  Campanha Nacional de Enfrentamento aos Ciclos de Violência contra a mulher

Um dia memorável para a história do protagonismo feminino e um dia que vai muito além de uma memória ou de um mandar flores, 8 de março. Um dia de conquista de direitos. Nem todo mundo sabe, mas esse dia foi escolhido para homenagear 129 operárias em Nova York (EUA), assassinadas por patrões após uma greve, onde reivindicavam melhores condições de trabalho. Uma data que repercute todos os anos, mas que muitas vezes tem o sentido de luta por direitos abafados pela obrigação de movimentar o mercado.
Agosto de 2006. Há quase 12 anos e há 149 anos depois de as 129 operárias serem queimadas numa fábrica de têxtil, no Brasil é assinada a Lei 11.340. Trata-se da lei popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, que torna crime todo tipo de violência doméstica, física, psicológica, moral e patrimonial. Quando pensamos em violência contra a mulher, naturalmente vem à mente um único aspecto, a violência física, mais precisamente a violência doméstica. Esse pensamento é tão comum que nem ao menos a palavra ciclo caberia dentro de uma reflexão mais simples ou superficial. Muitas vezes nem lembramos que a violência também é psicológica, sexual, moral e patrimonial, e mais arraigada ao que podemos chamar de “natural”, que nem nos damos conta. Mais do que nunca, fazem-se necessárias reflexões e iniciativas que impulsionem um novo olhar sobre a realidade e a vida da mulher brasileira.
Foi justamente a partir dessa necessidade que a Pastoral da Juventude, fundada na década de 1970, lançou no seu 12° Encontro Nacional, realizado em Rio Branco (AC), a Campanha Nacional de Enfrentamento aos Ciclos de Violência contra a Mulher. Em uma mesa composta impreterivelmente por mulheres jovens, a Pastoral da Juventude abria um novo horizonte na Igreja no Brasil, que este ano traz como reflexão quaresmal a Campanha da Fraternidade com o tema do combate à violência.
Foi assim que as jovens mulheres da pastoral se colocaram na linha de frente de um projeto nascido não somente do coração, mas das experiências femininas vividas e compartilhadas nos grupos de base e nas próprias realidades familiares. A jovem Joyce Elayne, estudante de psicologia e membro da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Fortaleza (CE), presente ao encontro em Rio Branco e tendo participado de uma roda de conversa que trazia para o debate justamente questões como empoderamento, fé e articulação feminina dentro de movimentos sociais e eclesiais, nos ajuda a entender e perceber de que forma esta Campanha pode transformar a realidade das mulheres.

FC – Como surgiu a ideia da campanha?
Joyce Elayne –
Nasceu dos debates realizados dentro da própria pastoral. Esses debates vão dos grupos de base que encontramos em inúmeras paróquias do Brasil aos encontros e assembleias nacionais realizados periodicamente com a presença de representantes de todas as regiões. A Pastoral da Juventude, que já realizou uma Campanha Nacional contra o Extermínio de Jovens, ao discutir suas prioridades na Ampliada Nacional, realizada na cidade de Crato (CE) em janeiro de 2017, sentiu cair sobre si o peso de um grito que vinha de seus próprios membros: precisamos falar de violência contra a mulher! O objetivo é realizar uma campanha profética, de abrangência nacional, em torno da discussão e do enfrentamento dos ciclos de violência contra as mulheres, que envolvem diversas dimensões: gênero, doméstica, familiar, física, institucional, intrafamiliar, moral, patrimonial, psicológica, sexual e midiática.

FC – Qual a importância de uma campanha desse porte para a Igreja no Brasil?
Joyce Elayne – A Pastoral da Juventude é uma organização que inspira e tem uma capacidade de articulação de bases muito importante. A Campanha Nacional de Enfretamento aos Ciclos de Violência, contra a Mulher, bem como a Campanha Nacional contra o Extermínio de Jovens, que deixou seu recado, vem salientar a capacidade de alcance que nosso serviço pastoral tem. Não se trata de uma capacidade de alcance por conta de números, mas pelo compromisso de um trabalho sistemático e refletido. Nós somos Igreja e com a Igreja propondo essa campanha é a Igreja que também reflete sobre o desafio da promoção da vida plena para as mulheres. Sabemos também o quanto os espaços religiosos são desafiadores nesse sentido, por vezes serem reprodutores de violências, para nós é muito claro e muito caro. É compromisso profético e evangélico defender a vida das mulheres, e a Igreja não pode silenciar para isso. É preciso despertar dentro da própria Pastoral e da Igreja a sensibilidade para a urgência dessa temática, visando ao empoderamento feminino e à construção de novas masculinidades. Bem como compreender o que e como se dá a violência contra a mulher e, com isso, produzir cada vez mais reflexões e uma nova linguagem entre os jovens que serão os interlocutores da campanha. O projeto inclui também homens, mulheres e, principalmente, os que estão em situação de vulnerabilidade e exposição direta à violência. Organizações Não Governamentais (ONG’s), pastorais eclesiais, movimentos sociais e órgãos sociais também somam na esperança de que a causa seja abraçada por todos.

FC – Quais os frutos que se espera dessa campanha?
Joyce Elayne – O caminho percorrido por quem caminha conosco na Pastoral da Juventude é o de propor uma nova sociedade. Acredito que essa campanha desperta em nós o sentimento de que essa nova sociedade rompa com o egoísmo, com o capitalismo, mas também nos propõe, desde já, que esta nova sociedade de que falamos seja uma sociedade que rompa barreiras, como por exemplo o patriarcado, que é um sistema social que tem diversas expressões, inclusive o machismo e a violência que oprime a vida de muitas mulheres. Por isso destacamos nessa campanha uma palavra muito importante: protagonismo. Com isso, a repercussão que ela terá na vida das mulheres da Pastoral da Juventude é a compreensão de que nós também somos mulheres e estamos sujeitas a essas violências cotidianas. Além da clara percepção de que essa é uma luta pelas nossas vidas. Essa campanha nos dá a oportunidade de protagonizar e fazer brotar os frutos que vão surgir para além dela. Tudo isso não para nós exclusivamente, mas para as mulheres à nossa volta, as companheiras que convivem conosco e estão cotidianamente ao nosso redor. Se assumirmos juntas, todas elas serão alcançadas por esse compromisso. Outra coisa importante é deixar claro a necessidade do pacto, entre as próprias mulheres, juntamente com a proposta de articulação que deve existir entre as mulheres nesse ambiente eclesial.
 
FC – Como você se sente por fazer parte dessa geração jovem, que, pertencente à Igreja Católica, coloca a causa da mulher como prioridade em uma campanha de nível nacional?
Joyce Elayne – Os sentimentos são muitos. O primeiro é de alegria por, como Pastoral da Juventude, conseguirmos manifestar nossos pensamentos e nossas inquietações sistematizando uma campanha. O segundo sentimento é de desafio, justamente porque sabemos que este é só o começo de um debate ainda pequeno dentro da Igreja, e precisamos avançar muito. Por isso é que nos sentimos desafiadas, enquanto mulheres jovens que pensaram esta campanha e que se sentem cotidianamente desafiadas a fazer com que ela realmente tenha corpo, que seja profética e transformadora e que inspire outros espaços da Igreja.    Ser Igreja, ser mulher na sociedade e na Igreja, ser protagonista de uma história que mata, agride e desvaloriza o papel da mulher deve ser objeto de reflexão não somente em campanhas nacionais, mas nas escolas, nos lares, no trabalho e na vida cotidiana.  Sabemos que esta é a alvorada de um processo que começa com a formação e com a conscientização. Só assim o Dia Internacional da Mulher e a Lei Maria da Penha terão o sentido de suas existências conhecido e exposto. Só assim os casos comuns que colocam o Brasil como o terceiro país que mais mata mulheres no mundo serão diminuídos e compreendidos como algo que precisa parar. Pois estes são gritos que continuam a ecoar na sociedade atual e exigem de nós uma atenção urgente, para que a violência saia da normalidade para dar lugar ao respeito e ao amor.
Foi assim que as jovens mulheres da pastoral se colocaram na linha de frente de um projeto nascido não somente do coração, mas das experiências femininas vividas e compartilhadas nos grupos de base e nas próprias realidades familiares. A jovem Joyce Elayne, estudante de psicologia e membro da Pastoral da Juventude da Arquidiocese de Fortaleza (CE), presente ao encontro em Rio Branco e tendo participado de uma roda de conversa que trazia para o debate justamente questões como empoderamento, fé e articulação feminina dentro de movimentos sociais e eclesiais, nos ajuda a entender e perceber de que forma esta Campanha pode transformar a realidade das mulheres.





Fonte: FC edição 987, Março de 2018
Postado por: Família Cristã




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