Paz e esperança para a América

Data de publicação: 02/04/2018


Por, Moisés Sbardelotto

“É preciso escutar os desempregados, que não podem sustentar o presente, muito menos o futuro de suas famílias” (papa Francisco, no Chile)

Chile e Peru: foi a essas duas nações que Francisco dedicou a sua 22ª viagem internacional, entre os dias 15e 22 de janeiro. Dois países de grande tradição católica, mas, ao mesmo tempo, marcados nos últimos anos por grandes escândalos na Igreja Católica, envolvendo casos de abuso sexual. Portanto, lugares em que a Igreja se encontra em crise e dividida. Não é por menos que, no Chile, o lema da visita foi “Minha paz vos dou” e, no Peru, “Unidos pela esperança”. Mas, em meio a tudo isso, duas nações que, segundo Francisco, também expressam a “riqueza da polifonia cultural” latino-americana e de seus “ecossistemas naturais”.
Antes da viagem, Francisco enviou uma videomensagem, na qual se apresentava como “peregrino da alegria do Evangelho” e enfatizava seu desejo de “compartilhar com todos a paz do Senhor e confirmá-los em uma mesma esperança. Paz e esperança, compartilhadas entre todos. (...) Com vocês, desejo experimentar a paz que vem de Deus, tão necessária. Só Ele no-la pode dar”. Esse desejo para ambos os países nasce não apenas da situação política, econômica ou social do Chile ou do Peru, mas também e principalmente dos pecados públicos cometidos pela própria Igreja nas duas nações.

Perdão e reconciliação – No Chile, as acusações de abuso sexual de menores envolvem quase 80 clérigos desde os anos 2000. O caso mais polêmico é o do sacerdote Fernando Karadima, hoje com 87 anos, condenado em 2011 pela Santa Sé por ter cometido abusos sexuais violentos de crianças nos anos 1980. Ele foi sentenciado pelo Vaticano a uma vida de retiro em oração e penitência. Em 2015, as feridas do caso foram reabertas, após a nomeação, por parte de Francisco, do bispo chileno Juan Barros, acusado de acobertar os abusos sexuais atribuídos justamente a Karadima. Houve uma grande mobilização eclesial no país, pró e contra a decisão do papa.
No Peru, o principal escândalo envolve o leigo Luis Fernando Figari, fundador do Sodalício de Vida Cristã, uma sociedade de vida apostólica integrada por leigos e sacerdotes. Em 2016, Figari foi reconhecido publicamente como culpado e persona non grata pelo próprio Sodalício, por ter cometido abusos sexuais, físicos e psicológicos de seus membros em formação entre 1975 e 2009. No dia 10 de janeiro passado, a Santa Sé enviou um comissário apostólico ao Sodalício, dom Noel Antonio Londoño Buitrago, bispo de Jericó (Colômbia), com poder de intervir diretamente no governo da comunidade.
Foi essa conjuntura que marcou a viagem de Francisco. Em seu primeiro discurso no Chile, o papa já deixava claros os objetivos da sua viagem. No Palácio de La Moneda, em Santiago, falando às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático, o papa ressaltou o desafio de “escutar as crianças, que se assomam ao mundo com seus olhos cheios de assombro e inocência e esperam de nós respostas reais para um futuro de dignidade”.
Logo em seguida, disse algo que foi acolhido com muitos aplausos: “Não posso deixar de manifestar a dor e a vergonha, vergonha que sinto perante o dano irreparável causado às crianças por parte de ministros da Igreja. Quero me unir a meus irmãos no episcopado, pois é justo pedir perdão e apoiar as vítimas com todas as forças, ao mesmo tempo em que temos que nos empenhar para que isso não volte a se repetir”.

Encontro libertador – No primeiro dia de agenda pública da viagem, Francisco já se encontrou com um grupo de vítimas de abusos sexuais cometidos por padres. De acordo com uma nota da Sala de Imprensa da Santa Sé, o encontro foi estritamente reservado, somente entre o papa e as vítimas. A nota afirmava que as vítimas puderam contar seus sofrimentos ao pontífice, “que as escutou, rezou e chorou com elas”.
Além disso, no primeiro discurso da viagem, o Francisco enfatizou a importância de escutar os diversos sujeitos sociais, para valorizar a “pluralidade étnica, cultural e histórica” de países como o Chile e o Peru, e para construir o bem comum, “que, se não tiver um caráter comunitário, nunca será um bem”, frisou.
Em primeiro lugar, disse Francisco, “é preciso escutar os desempregados, que não podem sustentar o presente, muito menos o futuro de suas famílias”. Também salientou a necessidade de escutar os migrantes, que batem nas portas dos países em busca de uma vida melhor e “com a força e a esperança de querer construir um futuro melhor para todos”. Lembrou a importância de escutar, por um lado, os jovens, “no seu anseio de ter mais oportunidades, especialmente no plano educacional e, assim, sentir-se protagonistas (...) protegendo-os ativamente do flagelo da droga que lhes cobra o melhor de suas vidas”. E, por outro lado, os idosos, “com sua sabedoria tão necessária e sua fragilidade sobre as costas. Não podemos abandoná-los”.
E também lembrou os povos originários da América Latina, “frequentemente esquecidos e cujos direitos precisam ser atendidos e sua cultura cuidada, para que não se perca parte da identidade e riqueza desta nação”. Junto deles, Francisco afirmou que essa capacidade de escuta nos convida, hoje de maneira especial, “a dar uma atenção preferencial à nossa casa comum”, ou seja, “fomentar uma cultura que saiba cuidar da terra e, para isso, não nos conformarmos somente a oferecer respostas pontuais aos graves problemas ecológicos e ambientais que se apresentam”. Segundo o papa, citando trechos de sua encíclica Laudato Si’ sobre o cuidado da casa comum, isso requer a audácia de oferecer “um estilo de vida e uma espiritualidade que formem uma resistência perante o avanço do paradigma tecnocrático que privilegia a irrupção do poder econômico contra os ecossistemas naturais e, portanto, do bem comum dos nossos povos”.

Sínodo Pan-Amazônico – Francisco colocou isso em prática no Chile, ao se encontrar com membros do povo Mapuche, que reivindicam um maior reconhecimento de sua cultura, de suas terras e de seus direitos. E também no Peru, país com 60% de seu território coberto por selva amazônica, onde o papa teve dois encontros com representantes dos indígenas peruanos e outro encontro com sacerdotes, religiosos, religiosas e seminaristas das circunscrições do norte do Peru, a região mais amazônica do país.
Além da atenção ambiental, está em jogo também a preocupação de Francisco com o cuidado pastoral e a evangelização da região pan-amazônica, especialmente dos indígenas, “frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno”, como afirmou ao convocar um Sínodo Extraordinário sobre essa temática, a ser realizado em 2019. Com os povos originários, afirmou o papa em seu primeiro discurso no Chile, “podemos aprender que não há verdadeiro desenvolvimento em um povo que dá as costas à terra e a tudo e a todos que a rodeiam”.




Fonte: FC edição 986 Fevereiro 2018
Postado por: Família Cristã




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