“Estive na cadeia e me visitas

Data de publicação: 06/04/2018


Quando o evangelista Mateus no capítulo 25 vai declarando os critérios do julgamento das nações, tudo nos parece claro e razoável. Porém, quando chega ao versículo 36b e 43b, ficamos perplexos e questionamos o Cristo: “Quando foi que te vimos preso e te visitamos, ou não te visitamos?”. Não cabe, no imaginário que temos de Cristo, pensá-lo como merecedor de tal punição. Então, Ele mesmo nos recorda que todas as vezes que fizemos, ou não fizemos isto a um nosso irmão, ou irmã, foi a Ele que visitamos ou não visitamos.
Diante de tal apelo que nos é feito por esta obra de misericórdia, a questão que nos inquieta não é a visita, em si, mas o que vem antes e depois, a causa e o efeito de uma condenação prisional. Que tipo de humano é preso? Qual é o motivo de sua prisão? A sociedade quer de volta alguém que foi preso? É possível recuperar alguém na prisão? E o potencial de uma liberdade consciente e responsável, como reage dentro de uma prisão? E, mesmo na visita a um prisioneiro, que sentimento vai conosco? Qual remédio vamos oferecer? Quais palavras ou gestos vamos comunicar?

Dificuldades de reintegração – Diariamente ficamos estremecidos com notícias que nos inquietam. Além de aumentarem os crimes e delitos, comprova-se que o modo como isto acontece está ficando cada vez mais recrudescido, repugnante e grotesco. Além disso, confirma-se que os autores desses desmandos são pessoas de carne e osso, e, cujas vítimas, igualmente o são. Não é difícil ouvirmos de responsáveis pela segurança da sociedade proclamarem em alto e bom som que precisamos construir mais presídios de segurança máxima. No meio de tudo isso, parece aumentar sempre mais a torcida dos que acham que a única solução é a pena de morte.
Ficamos chocados com as denúncias sobre superlotação de cadeias e prisões, maus-tratos infligidos aos presos, torturas, massacres, fugas, chacinas, excessos de guardiões da ordem, revoltas nas prisões, dificuldades de reintegração no convívio social e reprovação dos gastos públicos na manutenção da cada condenado etc. Não é difícil ouvimos julgamentos com dois pesos e duas medidas. Enfim, a misericórdia humana sente-se muito enredada neste campo de relações com o mundo da criminalidade, da corrupção e do delito.
Os fatos violentos mexem com os sentimentos profundos do ser humano, tanto em nível pessoal quanto coletivo. Despontam as mais controvertidas reações, desde a indiferença, a rejeição, o medo, o desejo de vingança, até a misericórdia e a compaixão. É muito fácil ceder ao medo ou deixar-se levar pelo primeiro impulso do preconceito.
Os meios de comunicação social, com sua força de convencimento e de formação da cultura, servem-se, com frequência e de forma ampla, do sensacionalismo da violência para temas de filmes, novelas, reportagens e comentários. Tanta divulgação, mais do que formar deforma a relação humana, generalizando a desconfiança, dificultando a serenidade necessária para refletir e perdoar e desmotivando a obra de misericórdia relacionada à visita dos encarcerados
Não faltam aqueles que perguntam com ironia: O que a Igreja tem a ver com os presos?  Por que a Igreja entra nesse assunto? Por que se compadecer deles, se eles não tiveram compaixão pelos outros? Por que se interessar pelos seus direitos, se eles não respeitaram os direitos dos outros? Por que há tanta impunidade? São essas as únicas pessoas que merecem estar na cadeia?

Porta de esperança – Questiona-se sobre a realidade dramática dos presos e das prisões, parece uma reação natural. Porém, condenar não faz parte do pensamento e, menos ainda, da prática cristã. A Igreja tem a ver com os presos, porque, em primeiro lugar, Cristo se preocupou e veio para nos libertar de todas as prisões. Quando Ele publicou seu programa de vida e missão, retomou o que disse o profeta Isaías. Um dos compromissos confirmados foi: “Enviou-me para anunciar a libertação aos presos...” (Lc 4,18b).
Cristo, que veio para nos libertar de todas as prisões, também experimentou na carne a dramática prisão, como inocente. Mas, foi passando por ela, ao extremo do aprisionamento da cruz, que Ele nos libertou e inaugurou, pela ressurreição, a possível redenção para todos. Em Cristo, o Crucificado Ressuscitado, “Não há uma pessoa irrecuperável. Ninguém é irrecuperável!” (Papa Francisco).
A Igreja, corpo de Cristo no tempo e no espaço, é chamada por natureza a se colocar a serviço da sociedade, ajudando a aprimorar e redimir a convivência humana. A compaixão da Igreja com os presos encontra também uma razão humana. Não existe ser humano que esteja isento de erro. Somos todos capazes do ótimo e do péssimo. Em cada um de nós está escondido um anjo ou um demônio.
Quando nos referimos aos presos, somos chamados a pensar que toda a pessoa é maior que a sua culpa e que todos são recuperáveis. Pensar assim parece uma ingenuidade, mas o problema é não se permitir pensar dessa forma e não investir na recuperação. Quando se criam confianças em torno da pessoa, por mais ferida que esteja, sempre se abre uma porta de esperança para a sua recuperação. Paciência, confiança e perseverança são remédios caros, mas que possibilitam a cura.
O senso de humanidade e a força da fé cristã nos mostram, com evidência, que não se corrige a violência com outra violência; não se apaga o fogo com o fogo. Cremos, também, que detestar o pecado não significa desenganar o pecador. Cremos que seja possível superar a violência com o amor, a bondade e o perdão.
O amor perdoa sempre e, mesmo diante de situações-limite, mantém vivo o sonho de uma sociedade reconciliada e fraterna. O que constrói a fraternidade é o perdão. “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem!” (Jesus). Nesse assunto, é bom lembrar que a história da Igreja começou com perseguições e cadeias. Os presos não são estranhos para nós. Foram nossos companheiros de “prisão” em muitas situações históricas que ainda hoje continuam.





Fonte: Fc edição 976, Abril de 2017
Postado por: Família Cristã




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