Médicos pedem misericórdia

Data de publicação: 09/04/2018

Por, Karla Maria


Rejeição das famílias em doar órgãos de pessoas falecidas chega a 43% dos casos no Brasil, impede crescimento de transplantes e a esperança de salvar vidas

Morte encefálica é a definição legal de morte. Receber esse diagnóstico sobre o estado de uma pessoa querida é certamente uma das notícias mais complexas de compreensão e reação. O diagnóstico traz uma certeza: naquele cérebro há uma completa e irreversível parada de todas as funções neurológicas.
É comum e até confuso para parentes da pessoa com morte encefálica observar no leito do hospital o monitor do coração indicar que ele ainda está batendo. É também confuso e perturbador tocar o ente querido, sentir sua temperatura, ver sua cor e ter de tomar decisões importantes naquele momento, como a doação de órgãos.
Ali, o paciente não tem mais vida, mas pode, com o auxílio artificial dos médicos, propiciar vida a terceiros por meio do transplante de seus órgãos. Seu coração, por exemplo, que enquanto tem oxigênio continua a bater, pode continuar a pulsar em outro peito e são muitos os que esperam pela chance.
Em 2016, entre esses pacientes, 1.636 pessoas estavam à espera de um coração, mas apenas 357 o receberam. A grande maioria (126) estava em São Paulo, seguida por Distrito Federal (43), Pernambuco (38) e Minas Gerais (35). Os dados são do Ministério da Saúde e da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) e revelam mais, que cerca de 41 mil pessoas estão na fila para receber um órgão.
“Para que haja mais transplantes, nós precisamos de fato de mais doadores falecidos para atender à necessidade que existe. Colocando o Brasil em um contexto mundial, nós somos um país intermediário em efetivação das doações. Estamos na metade do caminho”, avalia Roberto Manfro, presidente da ABTO.


Ato de heroísmo – Os números revelam que a taxa de não autorização familiar para doação de órgãos se mantém elevada. Cerca de 43% dos casos de morte encefálica em que os familiares poderiam realizar a doação dos órgãos para transplantes foram negados. O menor índice foi no Paraná, onde a negativa foi de 33%, enquanto alguns estados da Região Norte, como Rondônia e Acre, apresentaram taxa superior a 75%.
Para Manfro, essa recusa é muito mais uma questão de falta de esclarecimento, de educação das pessoas e das famílias do que de um tabu. “As famílias, diante de uma situação muito trágica, se confrontam com essa situação com a qual ela não pensou antes, elas não foram educadas para isso”, diz o médico, ressaltando a importância de os familiares conversarem sobre o tema.
O médico destaca que nenhuma religião se posiciona contrária à doação de órgãos e que a Igreja Católica tem favorecido a reflexão das famílias para esse gesto de solidariedade, tanto que, recentemente representando a Sociedade Brasileira de Transplante de Órgãos, José Medina Pestana, professor titular e chefe do setor de transplante renal da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante encontro internacional sobre “Tráfico de Órgãos e Turismo dos Transplantes”, promovido pela Pontifícia Academia das Ciências, pediu mais ajuda à Igreja em relação ao tema.
“Nós podemos ter um suporte um pouco maior se a Igreja Católica colocar entre os Atos de Misericórdia, que são medievais e vêm desde o início do cristianismo, um ato contemporâneo como o de doar órgãos. Isso é gratificante para o doador e a família, aumentando a chance da autorização de doação”, diz o médico em entrevista à Rádio Vaticano.
O papa São João Paulo II, na encíclica Evangelium Vitae, de 1995, já estabelecia a doação de órgãos como um ato de heroísmo cotidiano, merecendo particular apreço. Em 2008, o papa Bento XVI definiu a doação como “peculiar forma de testemunho da caridade. Para uma correta concepção da vida, é determinante entrar na lógica da gratuidade”, recorda durante o Congresso Internacional sobre a Doação de Órgãos, promovido pela Pontifícia Academia para a Vida.
“Há centenas de milhares de pessoas esperando por isso (um órgão). E o resultado dos transplantes é muito bom, muda a vida das pessoas, salva a vida delas. Se nós conseguirmos passar isso para as famílias, da necessidade de ajudar o próximo, a recusa familiar alta que nós temos no Brasil deverá melhorar muito”, acredita Manfro.

Crianças – Em 2016, 705 crianças ingressaram em lista para realizar transplantes de órgãos sólidos no Brasil. Foram transplantadas 527 (75%), número que se mantém nos últimos anos. Faleceram na lista de espera 78 crianças. Atualmente, segundo o mesmo levantamento, 916 crianças estão na fila de espera, sendo 340 por um rim, fígado (53), coração (37), pulmão (12) e córnea (474).
A maioria dos transplantes pediátricos e entre adultos é feita a partir de doadores falecidos, contudo, há também a possibilidade de se receber um órgão através de um doador vivo. Wilson Gomes de Oliveira, 47 anos, foi uma dessas pessoas.
Nasceu com estenose de uretra, refluxo urinário e devido a isso teve várias infecções. Aos 12 anos perdeu o rim direito, mas viveu bem com apenas um rim por algum tempo, até que a doença renal, que é silenciosa, reapareceu e aos 26 anos perdeu toda a função renal do outro rim.
“Foram dias e dias no hospital. Era muito difícil, eu dependia da diálise, da hemodiálise e de muita medicação”, conta Oliveira. Em 2001, ficou doente e começou a fazer hemodiálise, depois diálise peritonal (um processo que filtra o sangue e remove fluidos excedentes usando um dos filtros naturais de seu próprio corpo, a membrana peritoneal) e hemodiálise novamente
Os especialistas explicam que, quando os rins deixam de funcionar, a hemodiálise surge como uma opção de tratamento que permite remover as toxinas e o excesso de água do seu organismo. Nesta técnica, uma membrana artificial é o elemento principal de um dispositivo designado dialisador, comumente conhecido por “rim artificial”.
“Nesse período foi muito difícil, pois o Wilson não conseguia trabalhar, passava muito mal. Não conseguia ter uma vida sociável, ele ficava refém de uma máquina (da hemodiálise)”, conta a esposa, Patrícia Limeira de Oliveira, 42 anos, técnica de enfermagem que trabalha no Hospital do Rim, na capital paulista.
E não foi por acaso que Patrícia acabou enveredando para essa profissão. Quando seu marido estava muito doente, Patrícia sentia necessidade de ajudar mais no tratamento. “Eu trabalhava como vendedora, não tinha nenhum conhecimento da área e, quando vi, já estava envolvida com a enfermagem. Então precisava de conhecimento técnico e fui estudar”, conta Patrícia, que hoje auxilia não apenas seu marido transplatado como as centenas de pessoas que passam pelo Hospital do Rim.

O transplante – No Brasil, atualmente 24.914 pessoas esperam por um rim. Wilson Oliveira recebeu um de sua irmã viva e por isso escapou da fila, mas ainda assim teve de esperar. “Foram quatro anos de espera até que eu pudesse receber o rim da minha irmã. Foram realizados vários exames e, quando o médico marcou a cirurgia, descobrimos que ela estava grávida”, conta Oliveira.
A doadora é Elaine Gomes Oliveira Giusti, 40 anos. “Graças a Deus eu era compatível e pude doar meu rim para ele”, revela Elaine, que nunca sentiu nenhuma diferença em sua saúde após a cirurgia de retirada do órgão, inclusive engravidando depois de seu segundo filho.
 “Meu irmão tinha o doador vivo e não precisou ficar na fila. Acho que devíamos divulgar mais a necessidade de doarmos nossos órgãos quando estamos vivos ou as famílias decidirem por doarem os órgãos de seus entes falecidos. Eu olho para a vida do meu irmão e vejo o bem que uma doação fez na vida dele”, diz a irmã.
Hoje a vida de Oliveira segue normal. Trabalha no Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) da cidade de Guarulhos (SP) e com sua esposa viaja bastante, como se quisesse recuperar o tempo em que esteve ligado à máquina de hemodiálise. Toma sua medicação, realiza exames periódicos e procura ter uma vida saudável.
O transplante de órgãos e tecidos é um dos avanços mais audaciosos e revolucionários da medicina. No Brasil, em 1968, o médico Euryclides Zerbini realizou o primeiro transplante da América Latina, e o paciente, o lavrador mato-grossense João Ferreira da Cunha, conhecido como João Boiadeiro, recebeu um coração novo, embora tenha falecido de infecção 28 dias após a operação.
O transplante de João Boiadeiro aconteceu apenas seis meses após o primeiro realizado no mundo, por uma equipe da África do Sul. Os desafios, portanto, continuam em busca dos avanços e a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos aponta alguns para que os números de transplantes no Brasil cresça. Aí está um bom motivo para que as famílias discutam em casa sobre a doação de órgãos. Outras vidas podem precisar deste sim, deste gesto de solidariedade, de misericórdia.




Fonte: Fc edição 976, Abril de 2017
Postado por: Família Cristã




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