Quando chega a rebeldia

Data de publicação: 13/04/2018



Por, Rosângela Barboza

Adolescentes buscam afirmar sua identidade e passam a discordar de tudo e todos, o que gera muitos atritos com a família. Aos pais cabe a missão de compreender e acolher, deixando sempre aberta a porta do diálogo

“Você não manda em mim”, “saio a hora que quiser”, “se não me deixar ir, eu fujo”, ou “não pedi para nascer.”  Frases assim, ditas por filhos adolescentes, alfinetam os ouvidos e os corações de muitas mães e pais.  Afinal, até pouco tempo atrás, eram crianças, e de repente, crescem e, do nada, começam os atritos com toda a família, as oscilações de humor e a revolta contra as regras de casa e da escola.
É a rebeldia que chega junto com a adolescência, um período já marcado por muitas transformações hormonais e psicológicas, quando os jovens acham que podem fazer o que querem, mesmo que na maioria das vezes esse querer seja contra a opinião de pais e responsáveis, que só querem o seu bem. Começam aí os confrontos, uma maneira que os adolescentes encontram para expressar sua rebeldia e descontentamento. “A rebeldia é um traço de personalidade, portanto pode ser uma característica para toda a vida, embora seja mais perceptível na adolescência e na juventude, quando o adolescente descobre formas diferentes de encarar situações, que antes passavam despercebidas”, explica a psicóloga e psicopedagoga clínica Cynthia Wood. “O adolescente busca criar e fortalecer sua identidade individual e tem a necessidade de se impor para garantir isso.”
A rebeldia no jovem pode ser interpretada de forma positiva ou não. “A rebeldia é sempre um mecanismo de defesa contra algo que o adolescente desaprove, uma reação a valores sociais ou familiares Se ela é expressada de forma adequada ou não, ou se sua motivação é justificável ou não, vai depender da percepção externa, influenciada pelos valores de quem a observa”, explica Cynthia. “Assim, ela pode ser vista como algo positivo, quando o adolescente se rebela contra injustiças e preconceitos, por exemplo, ou de forma negativa, quando ele vai contra os valores de quem faz essa avaliação”, ressalta ela.
A infância que o jovem teve pode contribuir positivamente, ou não, para essa fase da vida, pois todas as vivências e experiências ajudam na formação da personalidade do adolescente. “Relações mais acolhedoras contribuem para que essa rebeldia seja expressada de forma mais amena e adequada.”

Em casa – A paulista Sônia Barboza Formigon vivencia pela segunda vez a experiência de conviver com a rebeldia na adolescência, com a filha Pamela, de 19 anos. A primeira experiência foi com a filha mais velha, Natacha, de 27, hoje casada e residente nos Estados Unidos.Com a prática que já tem, ela tenta compreender as ações da caçula e sempre abrir diálogo, porém, mesmo sabendo que vai enfrentar os inevitáveis atritos, nunca deixa de ressaltar à filha que há limites que devem ser respeitados.
Pamela, que cursa Psicologia, é uma jovem dinâmica, gosta de estar na companhia dos amigos.  A mãe conta que a filha tem uma certa liberdade para sair, porém, na hora em que julga necessário, puxa as rédeas da situação. “Na cabeça deles, tudo é normal, não existe a noção de perigo.” As divergências não são poucas. “Ela acha que sou pessimista, mas o que quero é orientá-la sobre o que é certo e errado”, conta Sônia.  Pamela, como todo jovem, defende seu espaço. “Eu me considero obediente, mas eu não deixo de me opor às coisas que a família pensa de uma forma diferente meu modo de pensar”, afirma.
Já Natacha, a filha mais velha, raramente dava satisfações à mãe. Começou a trabalhar aos 15 anos, anunciando que iria morar fora do país. E conseguiu. Pagou o intercâmbio com suas economias. Aos 19 anos, foi para os Estados Unidos e logo começou a trabalhar como babá. Hoje, a fase rebelde de Natacha passou. Ela se casou, ganhou cidadania americana e, recentemente, se formou em Administração. Fala diariamente com a família e, sempre que possível, vem visita-la. “A viagem para fora do País foi uma situação muito marcante. Vivia ansiosa, com o coração apertado, sem saber o que estava acontecendo com ela”, lembra Sônia. “Eu creio que entendo as minhas filhas. Fomos jovens e tivemos a fase de rebeldia. Uma hora essa fase passa, e os jovens percebem que nem sempre acertaram na maneira de falar e expor seus sentimentos.” 
Os limites, dos quais tanto pais e mães, como Sônia, não abrem mão, são realmente muito importantes, mas precisam vir acompanhados de compreensão. Segundo a psicopedagoga Cynthia Wood, a educação precisa ser firme e deixar claro os valores e limites. “Punições servem para ensinar que atos têm consequências, mas é importante se mostrar aberto para ouvir a posição do adolescente, conversar sempre e sobre todos os temas, inclusive tabus, não ser intransigente e transmitir sempre uma sensação e amor, respeito e acolhimento”, orienta ela, acrescentando que tudo isso ajuda muito a diminuir o impacto dessa rebeldia.

Fora dos limites – Quando a rebeldia vai além do aceitável, a situação se complica. A psicóloga explica que a aceitação da rebeldia envolve duas questões: uma é a forma (se essa rebeldia é expressada de forma adequada ou não) e a outra é o conteúdo (ou seja, contra o que essa rebeldia é direcionada). “Quando a forma é inadequada, podendo ser violenta, displicente ou negligente, ou quando é direcionada contra algo inaceitável aos valores da sua família ou escola, vemos problemas”, ressalta.
Selma e Pedro, pais adotivos de Ana Júlia (nomes fictícios), sabem bem o que é isso. Ana Júlia, 17 anos, é filha de uma prima de Selma e foi adotada oficialmente com meses de vida, pois viviam em situação de abandono.  Foi criada junto a dois irmãos e sempre recebeu carinho e cuidados. Até os 15 anos, se mostrou afetuosa e obediente. Foi nessa época que tudo mudou, quando começou a sair com uma turma de amigos, mesmo sem autorização. “No exato dia em que completou 16 anos, em agosto de 2016, ela acordou decidida a fazer o que queria”, conta a mãe. E assim foi. Sem permissão para sair à noite, a menina resolveu morar com a mãe biológica e não teve quem a fizesse mudar de ideia. “Hoje, sei que ela tinha uma certa curiosidade para saber como era viver com a mãe biológica, mas o principal motivo foi que, lá, ela podia sair e voltar a hora que quisesse”, diz Selma. O confronto foi duro com o pai, irmãos e a própria Selma.
Nessa temporada, de quase dois meses, a menina mudou de aparência. Tranças longas e postiças, roupas apertadas, camisetas masculinas, faziam parte da nova versão de Ana Júlia.  No final de 2016, ela voltou para casa, mas sem abrir mão de continuar a impor suas vontades, o que gerou mais atritos e novamente se refugiou na casa da outra mãe.  O caso foi parar no Conselho Tutelar. “Precisava informar que ela era menor e que não estava mais sob nossa responsabilidade”, lembra Selma. Sob orientação de conselheiros, a menina decidiu voltar. A família novamente a acolheu, com boa vontade e carinho, mas isso não diminuiu a sua rebeldia. Chegava a noite, se arrumava e saía. “Ninguém a segurava mais”, diz a mãe, que optou por aceitar a situação para tê-la por perto.
Há cerca de seis meses, conheceu um rapaz de 19 anos, responsável e trabalhador. Foi aí que ela cedeu e passou a sair bem menos, somente na companhia do namorado. Aos fins de semana, dorme na casa do rapaz.  “As coisas melhoraram um pouco. Mas sinto que muita coisa ainda vai acontecer. Ela só está mais sossegada por causa do namorado, não porque me obedece”, lamenta a mãe. “Se errei em algo, não sei aonde foi. Sempre fiz o melhor para ela, até mais do que fiz para meus filhos.”

Por, Rosângela Barboza




Fonte: FC edição 986 Fevereiro 2018
Postado por: Família Cristã




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