Missão inculturada

Data de publicação: 16/04/2018


Por, Karla Maria, Fotos: Arquivo pessoal

Missionária do Pime percorreu os rios da região do Alto Solimões para evangelizar, fez do povo Ticuna sua família e da demarcação de terras a sua luta
Ela não conhecia o idioma ticuna, um tipo de idioma isolado e complexo presente em aldeias indígenas no Peru, Colômbia e Brasil. Aqui, falado em vários municípios do estado do Amazonas, dentre eles Tabatinga, nas proximidades do Rio Solimões, onde a irmã Izabel Pezzuto, de 55 anos de idade, fez morada ao longo de três anos.
A missionária já sabia que a vida ali seria simples e de desafios. O primeiro era estar em uma cultura tão diferente da sua, a de uma menina que nasceu no interior do Paraná, na cidade de Ivatuba, de pouco mais de 3 mil habitantes, a 475 quilômetros de distância de Curitiba, a capital.
Lá, no novo endereço, na única paróquia essencialmente indígena da Diocese de Alto Solimões, São Francisco de Assis, em Belém dos Solimões, a religiosa do Pontifício Instituto das Missões Exteriores no Brasil (Pime) – enviada em missão pelo Regional Sul 1 (SP) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – fez da região do Alto Solimões sua grande Catedral. Aprendeu a se locomover em embarcações simples, feitas de madeira pelos indígenas. Trocou as ruas pelos rios, em viagens de canoa de até 12 horas entre uma comunidade e outra.
“Era escassez em todos os sentidos. Experimentamos por dez meses morar em uma casa de uma família indígena que gentilmente nos emprestou um lugar para ficar”, conta a irmã, que, junto às demais missionárias, não contava com água tratada e dependia da água da chuva para o consumo.
“Vivíamos em isolamento, pois estávamos a muitas horas distante de Tabatinga, sede da diocese e da paróquia São Francisco de Assis, em Belém dos Solimões, do Amazonas” conta a irmã. Ela não tinha acesso à internet ou telefone, e o trabalho pastoral contava com os mínimos recursos.
Foi assim ao longo de três anos em uma comunidade intercongregacional, a única comunidade religiosa vivendo em uma aldeia indígena. “Foi desafiante porque não nos conhecíamos, então tivemos um período de adaptação, de troca de opiniões. No início tivemos dificuldades normais, no sentido que cada uma trazia a bagagem espiritual e pastoral de sua congregação no que se refere a como iniciar uma missão em uma realidade nova e desconhecida. Superamos os impasses por amor a Jesus Cristo e a este povo que aprendemos a amar”, conta irmã Izabel.
No início da missão, ela e as demais irmãs observavam a realidade, conheciam a língua e os costumes, a geografia e a realidade do povo e da Igreja daquele local. E se depararam com uma realidade já conhecida. “Faltam missionários e recursos para manter o trabalho”, conta a irmã.
Ela lembra que 1 litro de gasolina numa aldeia indígena custa em média 9 reais, enquanto que em São Paulo a média é de 3 reais e 50, o que dificulta e encarece ainda mais o deslocamento entre aldeias e comunidades. “O combustível chega de longe e de canoa trazido por poucas pessoas que o comercializam”, explica.
Qualquer produto que chega à aldeia, por exemplo, mesmo a alimentação, tem o acréscimo do lucro de todo transporte fluvial de Manaus a Tabatinga e de Tabatinga às aldeias, o que encarece toda a manutenção da presença missionária.
Uma das preocupações da missão junto aos indígenas era a inculturação e o respeito pelas tradições culturais. “O povo Ticuna, com quem convivi nesses três anos, vive profundamente os valores de partilha, fraternidade, hospitalidade samaritana e respeito à natureza como algo sagrado, dom de Deus.”
Realidade pastoral – Irmã Izabel destaca que na maioria das comunidades indígenas católicas o povo é batizado, mas com pouco acompanhamento pastoral. “Nossa inserção no meio teve então como um dos principais objetivos acompanhar pastoralmente um núcleo de mais ou menos dez comunidades próximas de Vendaval, onde moramos.”
   
Depois de alguns meses começaram a organizar a catequese para as crianças, trabalhando junto com os catequistas e preparando-os para uma atividade que nunca haviam realizado na comunidade. “Foi uma das tentativas de sair de uma pastoral de desobriga para uma organização com as pastorais básicas de uma comunidade cristã”, afirma a missionária.
Nas comunidades indígenas, segundo a missionária, a maior força evangelizadora são os próprios indígenas. “É a força do laicato, sobretudo, porque na etnia Ticuna praticamente não se fala o português. Nosso trabalho missionário depende dos leigos, porque são eles que nos levam às comunidades com suas canoas, são nossos tradutores e nos ajudam em tudo.”
Antes das irmãs, a maioria das comunidades indígenas católicas contava com as raras presenças dos freis capuchinhos, isso dado as longas distâncias e a falta de missionários.  A Eucaristia e o Batismo eram oferecidos uma vez por ano, e às vezes menos nas comunidades menores.
Ao longo de três anos, as irmãs tentaram introduzir a catequese de iniciação e preparação para ministros da Palavra. “A formação bíblico-catequética foi um trabalho a que nos dedicamos muito, atendendo um núcleo de dez comunidades indígenas”, esclarece.
Além das atividades pastorais, irmã Izabel e as irmãs apoiavam as lutas pelos direitos indígenas, especialmente na demarcação da terra, tendo como parceiro o Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Lutavam por melhorias no campo da saúde e da educação. “Os indígenas sempre são os últimos a serem atendidos em seus direitos como cidadãos”, denuncia a missionária.
Para ela, ainda há muito a fazer no que diz respeito à conquista dos direitos dos povos indígenas. “Nossa Constituição avança e às vezes retrocede no reconhecimento dos povos indígenas pelos seus direitos, e nosso trabalho pastoral só tem credibilidade para os cristãos indígenas se formos solidários em suas lutas pela vida e terra”, lembra.
De seus três anos em missão junto ao povo Ticuna, irmã Izabel destaca o grande senso de fraternidade que aprendeu com o convívio. “Na sociedade indígena, não existe divisão de classes sociais. Somos todos irmãos, e a maior diferença que há é indígena e não indígena.”
Lembra que o cuidado, o amor e a convivência serena com a natureza, de que tanto o papa Francisco fala na Encíclica Laudato Si’, ela viu na prática dos Ticuna, que retiram da natureza apenas o que precisam para sua subsistência, sem destruírem ou acumularem.
Irmã Izabel ofereceu sua vida em missão e afirma que voltou com a mala cheia de aprendizado e boas experiências. “A resistência de preservar sua cultura, seu modo de celebrar a vida, suas comidas e bebidas típicas, sua maneira de se vestir, sua pintura corporal com um significado particular de pertença a seu povo são um belo exemplo de que com pouco conseguimos viver bem”, conta.
Para ela, a Igreja precisa continuar a enviar missionários para a região, porque aquele “é um povo sedento de assistência pastoral por ter a consciência que também são católicos e têm o direito ao mesmo acompanhamento pastoral de comunidades urbanas”. Para irmã Izabel, os povos indígenas têm plena consciência do que é ser abandonado pastoralmente por se encontrarem nessa realidade geográfica.
“O desafio é como sair de uma pastoral de desobriga para uma pastoral missionária evangelizadora numa realidade de escassez, onde falta até o instrumento básico pastoral: a Bíblia”, desabafa a missionária.




Fonte: Fc edição 976, Abril de 2017
Postado por: Família Cristã




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