Juventude nada cega

Data de publicação: 08/05/2018



Por, Karla Maria

Dois jovens deficientes visuais defendem seus direitos apostando na informação e na solidariedade como ferramentas de acesso a uma “vida normal”

No balcão de atendimento da Fundação Dorina Nowill para cegos, entidade que há mais de 70 anos procura facilitar a inclusão social de pessoas com deficiência visual, localizada em São Paulo (SP), Beatriz Menezes dos Santos, de 20 anos, falava animada do sucesso que tinha obtido nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Naquele mesmo balcão, um ano atrás, sua avó, Ivete Bispo, buscara ajuda para tirar a neta deficiente visual de uma depressão. Beatriz perdeu parcialmente a visão aos oito meses, devido ao glaucoma e à catarata. Depois de muitas cirurgias para tentar manter e recuperar o sentido, ela ficou sem enxergar de um olho e possui 10% de visão do outro.
No Brasil 6,5 milhões de pessoas possuem algum grau de deficiência visual, e Bia, como Beatriz é chamada, é uma delas. A cegueira até impõe alguns limites diários, mas não a impede de sonhar, tanto que pretende estudar Matemática no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) ou Publicidade na Universidade de São Paulo (USP). A jovem vive na zona sul da capital, e percorre sozinha cerca de 15 quilômetros, de seu bairro até chegar à fundação. Prefere trem e metrô, já que tem dificuldade de pegar ônibus, e por isso o percurso leva cerca de uma hora e meia.
Com os aplicativos do celular adaptados para deficientes visuais, ela mantém a avó informada e tranquila quanto ao seu deslocamento. Bia atravessa a cidade três vezes por semana para continuar combatendo a depressão, o preconceito e ampliar seus acessos àquilo que a sociedade mal lhe oferece. “Entrei em depressão porque sofria muito bullying na escola. Estava em um período difícil, tinha muita coisa na minha cabeça. Sempre me chamavam de quatro-olhos e eu ficava muito sozinha”, desabafa a jovem, que na fundação conta também com apoio psicológico.

Vencendo limites –
Edson Luiz Defendi, psicólogo e assessor de apoio à inclusão na Fundação Dorina, é um dos profissionais que atendem na entidade. Para ele, é natural que jovens portadores de uma perda visual fiquem tristes e angustiados com essa realidade, mas é preciso avaliar de uma forma global como acontece a vivência desse processo.
“A avaliação psicológica precisa levar em conta a intensidade desses sentimentos, a rede de apoio do jovem e todo o seu processo de enfrentamento e resiliência frente à situação. Ao percebermos que esse processo se prolonga, é necessário um encaminhamento especializado para detectar se existe o diagnóstico de depressão e realizar os atendimentos necessários”, explica o psicólogo.
Naquela entidade repleta de pisos táteis e corredores silenciosos, Bia aprendeu a fazer batata frita, passar roupa e arrumar sua cama, mas não só, aprendeu também a fazer amizades, a se relacionar e a lutar por seus direitos através do teatro. “O teatro foi bom, me ajudou muito com minha timidez, com tantas coisas... E o grupo de teatro Descobrindo Talentos que me deu forças para continuar a fazer outras coisas”, confidencia a jovem.
Segundo o psicólogo, o objetivo do teatro não é formar atores ou intérpretes e sim se utilizar de todos os recursos para potencializar e facilitar o processo de desenvolvimento dos jovens com deficiência visual. “O teatro vem sendo utilizado em diversos projetos como forma de despertar talentos e habilidades desses jovens, para que identifiquem seus recursos pessoais e os utilizem em suas vidas”, pontua.
O paulistano Michel de Oliveira, de 27 anos, também encontrou no teatro recursos pessoais para levar sua vida, acometida por diabetes desde os 11 anos, um implante de lente ocular nas duas vistas, devido a uma catarata congênita bilateral, cirurgias, a perda de um rim, um ano e quatro meses de hemodiálise e, por fim, a cegueira. “Ainda não sei o quanto me resta da vista direita, enxergo mais vulto e cores, meio nublados, sei descrever que você é morena, um pouco alta, mas só”, detalha o jovem de aparência frágil e dono de palavras determinadas.

Grupo solidário –
Juntos, ele e Bia criaram o Grupo de Direitos, sem patrocínio e com o esforço dos 14 integrantes, de 20 a 82 anos. No projeto, são discutidos os direitos do deficiente visual e formas de conscientizar aqueles que enxergam e não respeitam, seja por falta de informação ou solidariedade, os direitos daqueles que têm deficiência visual.
“Falta conhecimento para as pessoas, porque não adianta você julgar uma pessoa só por aquilo que vê, por isso nós queremos mostrar o que é a baixa visão. Nosso foco é divulgar e também ajudar”, explica Bia. Os jovens do Grupo de Direitos criaram um par de óculos 3D que dará a real sensação, para aqueles que o usarem, de como enxergam os deficientes visuais.
“Assim, com esses óculos, vocês terão a experiência de enxergar como a gente enxerga, e queremos levar esse projeto pra frente. No papel, nossos direitos estão garantidos, mas são poucas as pessoas que se sentem prontas a estender a mão e a ajudar. É comum ouvirmos ‘para que o deficiente sai de casa?’, ‘vocês não recebem o benefício, pra que vocês trabalham?’. É isso que a gente escuta, e dói demais”, desabafa Michel.
Para os jovens, a ideia do Grupo de Direitos é propiciar a vivência dos portadores de baixa visão, sensibilizando todos para esta realidade. “Se todos soubessem como a gente enxerga e o que a gente passa, eles seriam mais solidários, porque o que falta mesmo é solidariedade”, denuncia Michel, que já foi vítima de trotes maldosos.“São pequenos gestos que poderiam melhorar a nossa vida. O nosso dia a dia já é difícil. Deparamos com muito buraco, e, quando a gente esbarra nas pessoas sem querer, elas nos ofendem”, conta Bia, que considera que o preconceito ainda é muito presente.

Mercado de trabalho –
Bia faz estágio como programadora na empresa dos sonhos de muitos estudantes brasileiros: o Google. “Lá dentro é muito legal”, conta a estagiária. “Atualmente, o mercado de trabalho está mais aberto e preparado para receber as pessoas com deficiência. A Lei de Cotas completou 25 anos, nesse período as empresas foram tomando consciência da importância do profissional com deficiência e conhecendo os potenciais desse público”, pontua Edson.
Michel estudou Educação Física até o segundo semestre, com o objetivo de conseguir seu DRT (registro profissional) para dança, mas, com as limitações do corpo causadas pelo diabetes, o jovem se realiza produzindo pulseiras.
Mais do que uma atividade para compor a renda, os jovens estão no mercado e empreendendo, porque sabem de suas capacidades e querem contribuir com a sociedade.
“Com um ambiente acessível, o jovem deficiente visual tem uma performance muito parecida com uma pessoa sem deficiência. Precisamos mais do que nunca romper barreiras ambientais, principalmente quanto às crenças sobre deficiência, assim teremos uma inclusão mais legítima e verdadeira para todos os atores envolvidos nesse processo”, avalia Edson.
Além de produzirem, os jovens também consomem. Sempre acompanhados de seus celulares, eles leem livros em Braille, sistema de leitura e escrita para as pessoas com deficiência visual. A média anual de empréstimo de livros na Fundação Dorina Nowill é de dois a três. Na Biblioteca Circulante da Fundação, há 4.293 cadastros e os jovens, somam 11%. “Há leitores com deficiência visual que já solicitaram 18 livros apenas este ano”, revela a assessoria de comunicação da entidade. Entre os cinco títulos mais solicitados em empréstimo pelos jovens em 2016 estão 100 Perfumes de Sempre, 50 Contos de Machado de Assis, A Batalha do Labirinto, Livro 4, A Cabana e A Culpa É das Estrelas.
 A Dorinateca, biblioteca digital da fundação, conta com 2.964 cadastros aprovados e dentre eles 352 são jovens, ou 12%. Bia é uma das jovens que acessam os livros. “Eu gosto de estudar, gosto de ler. Pretendo estudar fora do País, no Canadá ou na Suíça. O Brasil é um país legal, mas ir lá para fora me dará mais visibilidade para quando eu voltar”, conta Bia.

Dorina Nowill - A educadora Dorina de Gouvêa Nowill (1919-2010), nascida em São Paulo, perdeu a visão aos 17 anos. Mesmo deficiente visual, estudou em uma escola regular e se tornou professora primária. Criou a Fundação Dorina Nowill, uma entidade voltada para auxiliar os deficientes visuais e reconhecida pela qualidade de seus livros acessíveis e serviços de reabilitação.
Em 1948, trouxe para o País um maquinário completo para impressão em Braille, e hoje sua fundação conta com a maior imprensa do tipo da América Latina. Durante sua carreira acadêmica, especializou-se em educação de deficientes na Escola de Pedagogia, em Nova York (EUA). Foi presidente do então Conselho Mundial para o Bem-Estar dos Cegos, hoje União Mundial dos Cegos. Morreu aos 91 anos idade.







Fonte: FC edição 973 Janeiro 2017
Postado por: Família Cristã




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