Viajar e aprender

Data de publicação: 10/05/2018

O turismo pedagógico é uma área que se especializa a cada ano, estabelecendo-se como um ótimo recurso educacional

Por, Nathan Xavier

Viagens são sempre oportunidades de conhecimento, além do lazer. O que seria de Petrópolis, no interior do Rio de Janeiro, sem a visita ao Museu Imperial, palácio que por anos foi residência de verão de dom Pedro II e de dona Teresa Cristina, e que conta com peças importantes da história do Brasil? Ou então, como ir até Florianópolis, em Santa Catarina, e não conhecer o Projeto Tamar e aprender que aquele seu “pequeno” lixo deixado na praia impacta tanto o ambiente marinho? É verdade que as viagens a lazer são sempre as mais desejadas e, nesses momentos, ninguém está querendo aprender nada, no entanto, cada vez mais, agências de viagens especializam-se no chamado turismo pedagógico, setor que se expandiu nos últimos anos. Dados do Cadastro Nacional de Prestadores de Serviço do Ministério do Turismo (Cadastur) mostram que, atualmente, mais de 2.200 agências de viagem operam no segmento “estudos e intercâmbio”, 125% a mais do que em 2009, quando eram 945.
Focado no atendimento às escolas, mas com alguns roteiros que não excluem outros grupos interessados, priorizam a prática in loco do que o aluno está aprendendo na sala de aula. Muito mais do que uma simples visita, os alunos desenvolvem trabalhos e estudos nos locais, com atividades específicas. Montado em conjunto com professores e profissionais especializados, o turismo pedagógico é dirigido a pessoas de qualquer idade e consegue trabalhar com todas as disciplinas. Em Geografia e História, qual melhor jeito de explicar sobre imigração do que andar pelo bairro da Liberdade em São Paulo (SP), passar pelo Museu da Imigração, no Memorial da América Latina e terminar com um almoço numa típica cantina italiana? E explicar Física utilizando como exemplo uma canoa de populações ribeirinhas, na Ilha do Cardoso, em Cananeia? E talvez aprender Química fique muito mais interessante quando se observa o conceito de equilíbrio químico em uma caverna estando nela.


Especialização –
“Os passeios escolares de antigamente também ensinavam”, explica Bruno Manhães, docente do curso de Turismo Pedagógico do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac). “Mas não tínhamos nada especializado como hoje. Até por conta da crise educacional que se vive, e que não acontece apenas no Brasil, esse tipo de turismo é uma maneira estratégica e criativa de fortalecer o processo da educação, tirando o aluno da sala de aula.” E reforça que o conteúdo é importante, diferente de um simples passeio: “Os roteiros são montados a partir do conhecimento que o aluno vai aprender em sala de aula. Não é uma saída aleatória, mas, sim, construída com objetivo pedagógico. O aluno vai porque precisa aprender alguma coisa e, em sala, terão que praticar o que viram na viagem”.
Paulo Marcos Silva é proprietário da Quíron Turismo Educacional, empresa especializada na área e confirma: “É preciso que a escola faça um trabalho antes e depois das viagens. A preparação é importante para o aluno chegar e estar atualizado sobre o tema. O pós-viagem varia de escola para escola: há algumas em que o assunto permeia o semestre inteiro, outras farão uma exposição ou semana cultural, apresentação, prova tradicional, enfim, cada uma adota uma dinâmica. Mas é importante esse trabalho integrado com a sala de aula”. Integração é a chave para a produtividade da viagem: “O turismo pedagógico é um trabalho do professor na sala de aula, do guia de turismo que vai conduzir isso tudo e um profissional especializado em turismo educacional”, explica Bruno. “Não pode ser feito só pelo professor ou só pelo guia, é preciso ter uma integração dos três.” Segundo Paulo, é como se o aluno colocasse a mão na massa do conhecimento que adquiriu na sala: “Não é uma sala de aula transportada ao vivo. O nosso guia não fica uma hora falando sobre o assunto. É preciso algo bem dinâmico, fazendo os alunos terem uma participação ativa, buscando informação, perguntando, ligando os pontos”.

Teoria à prática –
A grande vantagem desse tipo de turismo é, justamente, dar sentido prático ao conhecimento teórico da sala de aula. “A gente sai do abstrato e vai para o concreto e real, de forma contextualizada”, ensina Bruno. “Muitos alunos têm dificuldade em reter o conhecimento na sala de aula porque não conseguem ver objetivo prático naquilo. Quando vou ao mercado com eles e compro 200 gramas de um ingrediente e peço que separem 30% para fazer um bolo, os alunos conseguem ver na prática. É bem interessante porque eles ficam encantados.” Mirella Vitiello Aliaga, diretora pedagógica da Bluebonnet, escola infantil em São Paulo, conhece bem a reação dos alunos: “Começa com a euforia de saber que vão sair da escola. Chegando lá eles participam muito, ficam atentos, pois a curiosidade aflora. Você está na frente de um animal marinho e aí começam a perguntar tudo: se o tamanho que pesquisaram é o real mesmo, se o maior come o menor, se os hábitos são os mesmos que pesquisaram. Isso ajuda muito no processo de aprendizagem porque a ideia permanece, incorporando o conhecimento”.
Mirella, atualmente, organiza passeios com crianças de 3 a 6 anos, mas já trabalhou com turmas de alunos mais velhos, e confirma que as possibilidades educacionais valem para todos os públicos: “Para os menores, o foco é vocabulário, linguagem, perceber que tudo o que vemos na sala de aula existe na realidade. Para os mais velhos, geralmente é uma pesquisa relacionada ao que estão vendo na sala de aula. A vantagem é que você realmente vê a situação real. Você não está no livro ou numa página da internet, você parte para a realidade e isso faz com que o aluno vivencie e acredite naquilo que está sendo realizado na escola.” Nessas horas, mesmo o aluno tímido se solta: “Percebemos muita diferença nas crianças que são mais fechadas dentro da sala de aula. No passeio, elas acabam se mostrando falantes, confiantes e participam mais. Os passeios são muito ricos por isso também”, completa. “O interessante no turismo pedagógico”, explica Bruno, “é que ele serve para o pequenininho ou mesmo para um grau de doutorado e mestrado. Se estou estudando a economia da Índia, posso viajar até lá para me aproximar do meu objeto de estudo. A qualquer um que estiver estudando, independentemente da matéria, idade ou competência, cabe o turismo pedagógico. Ele é o reforço da sala de aula”.

Viver o aprendizado – Todos os profissionais são unânimes em afirmar que a vivência é importante para o processo educacional. Nesse sentido, diferentemente do turismo a lazer, os roteiros pedagógicos podem incluir até assuntos mais delicados. “Algo que fazemos muito é o roteiro do Rio Tietê. A verdade é que é um horror, pois mostramos o rio poluído, uma desgraça e decadência total. Mas pedagogicamente falando é importante. Mostramos a nossa responsabilidade quanto ao lixo descartado, da indústria, a quantidade absurda de embalagens que usamos. Vemos aquelas espumas brancas causadas pela poluição que ouvimos falar, que vemos nas fotos, mas quando levamos o aluno a observar essa espuma no local, com aquele cheiro horrível, é algo muito impactante e importante pelo aspecto educacional”, explica Paulo.
O empresário afirma que muitas escolas também estão antenadas em assuntos atuais, por causa dos vestibulares e, nesse sentido, o turismo pedagógico precisa acompanhar a realidade, como quando ocorreu o desastre da empresa Samarco na cidade de Mariana (MG): “Levamos os alunos a verem no local o que realmente aconteceu, além de conversar com as populações atingidas. Isso é muito rico. Não é para mostrar a desgraça e ir embora, não. Fomos à cidade de Paracatu, nos hospedamos em Mariana, tivemos contatos, previamente agendados, com moradores de lá para eles entenderem a situação pela qual passaram e o que estão vivendo hoje, a relação da Samarco com a cidade, com o meio ambiente, os impactos ambientais e sociais”.
Dados do Ministério do Turismo e dos próprios profissionais da área atestam que o potencial turístico do Brasil é gigantesco, embora, infelizmente, pouco aproveitado não apenas por estrangeiros, mas pelos próprios brasileiros, e que poderia resultar em uma alternativa na geração de renda de muitas cidades. Paulo afirma que costumam remunerar as pessoas que dão depoimentos para a pesquisa dos alunos, caso da viagem de Mariana: “Eles vêm passando uma história e uma vivência que estamos interessados, então é justo que sejam remunerados. Além de levar uma fonte de renda alternativa, afinal, nos hospedamos e fazemos as refeições, incentivando o comércio local”. Bruno lembra que é preciso quebrar paradigmas. “Enquanto a gente não aprender que viajar é um elemento de aproximação das pessoas, de quebra de preconceitos, a gente não vai usar toda sua potencialidade. Temos nos especializado, mas o brasileiro ainda acredita que só se viaja quando se está de férias, para descansar e se divertir. Não percebe que pode viajar e aprender.”




Fonte: FC edição 973 Janeiro 2017
Postado por: Família Cristã




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