Estamos em crise

Data de publicação: 18/05/2018


Por, André Luís Kawahala e Rita Massarico Kawahala

Desde os primeiros dias do casamento, os pequenos desentendimentos devem ser enfrentados com coragem, transparência e muita ternura

Alguém nos aborda na igreja ao final da celebração da missa e diz que precisa conversar urgente; ou manda uma mensagem pelo WhatsApp ou pelas Redes Sociais; ou, mais dramático, alguém liga com voz chorosa dizendo que está precisando de ajuda. Há ainda aqueles casais que são indicados por mães e pais, irmãos, tios, padrinhos, cunhados ou amigos próximos, que nos procuram para ver em que podemos ajudar. Quando alguma dessas coisas acontecem, já imaginamos: crise conjugal! Mais um casal está em vias de se separar.
Os motivos são diversos: problemas financeiros, traições “lights” e adultério, comportamentos inadequados, intromissão de terceiros, problemas relativos à sexualidade e à intimidade conjugal, ciúmes obsessivo (e, às vezes, doentio), falta de confiança, divergências sobre educação dos filhos, desajustes diversos e até mesmo desconhecimento sobre quem é a outra pessoa. Só para ficarmos nos mais comuns. Por que isso nos chega? Porque lutamos para manter nosso casamento no equilíbrio e na estabilidade. E porque há mais de 20 anos trabalhamos com famílias e estamos na Pastoral Familiar. É comum que as pessoas acabem vendo nos agentes de pastoral uma referência para ajudar nesses casos. Mas o que fazer quando eles chegam até nós? Não é fácil, mas sempre é possível ajudar com uma boa ouvidoria, com o correto discernimento e com o aconselhamento.

Crise conjugal é normal –
“A Bíblia aparece cheia de famílias, gerações, histórias de amor e de crises familiares, desde as primeiras páginas onde entra em cena a família de Adão e Eva. (...) As duas casas de que fala Jesus, construídas ora sobre a rocha, ora sobre a areia (cf. Mt 7,24-27), representam muitas situações familiares, criadas pela liberdade de quantos habitam nelas, porque – como escreve o poeta – toda a casa é um candelabro” (Amoris Laetitia,8). Papa Francisco apresenta esse exemplo na exortação pós-sinodal como uma justificativa e como um sinal de esperança. Não há casamento sem crises, mas quem as enfrenta com amor, verdade e fé consegue manter a casa sobre a rocha. Amor, verdade e fé devem ser diariamente fortalecidos com a Palavra de Deus e a oração, e também com o diálogo, a atenção e o cuidado mútuo, altamente necessários para o crescimento conjugal.

É crise, sim! –
Costumamos dizer que duas noites dormidas “costas com costas”, depois de uma desavença, já é crise, pois se em 48 horas não acontecer o entendimento entre o casal, é porque as atitudes certas não foram tomadas.
Por que a discordância chegou a tal ponto? Que fatos afetaram negativamente, machucando-me e dificultando o diálogo? Seria possível abrir mão de algo para suportar a dor do ocorrido e buscar o entendimento? As qualidades da outra pessoa estão sendo avaliadas ou somente se está olhando os defeitos? A outra pessoa é realmente importante para mim a ponto de eu baixar guarda e abrir as conversações de paz? Essas são apenas algumas reflexões que cada um dos esposos deveria fazer para se acalmar e encontrar o caminho da solução. E do perdão.
Conversas evasivas ou o silêncio não são a melhor forma de resolver crise. Fazer de conta que ela não existe e esperar passar é sempre pior. Desde os primeiros dias do casamento, os pequenos desentendimentos devem ser enfrentados com coragem, transparência e muita ternura.

Chaves para enfrentar a crise –
Como dissemos, há uma série de situações diversas que cotidianamente acontecem aos casais. Ninguém é imune aos perigos que o mundo moderno apresenta. Nesse contexto, o que o casal pode fazer para manter firme e inquebrantável sua aliança matrimonial quando a crise chegar?
Quando duas pessoas decidem partilhar a vida, precisam se dar conta de que não será fácil. Nem o relacionamento entre irmãos de sangue é fácil. Por isso, é preciso empreender um caminho de conhecimento de si e do outro, para que, diariamente, se descubram novas qualidades no(a) parceiro(a). Nesse exercício, os defeitos surgirão, claro, mas eles deverão ser avaliados, e é bom que haja diálogo sobre eles. Os defeitos ficarão memorizados, não para servirem como pedras para serem jogadas quando se quiser machucar o cônjuge, mas para saber quais são os limites dele ou dela.
É preciso cultivar a esperança, que pode trazer um alento de alegria, apesar da dificuldade da crise. A confiança é uma outra atitude que, embora frágil nas crises, se bem trabalhada desde o tempo de namoro, é uma moeda que pode ser apresentada durante a solução do conflito. Ainda que a crise tenha afetado a confiança, a lembrança de que ela existiu traz a possibilidade de que possa ser refeita.
Algo que tem desaparecido nos casamentos atuais é a compreensão de que ambos são auxiliares um do outro. Muitos casais atualmente se veem como competidores, como duas pessoas que seguram um cabo de guerra, um em cada ponta. Esse mau comportamento predispõe para a crise, porque todo erro ou deslize será sempre visto como intencional, principalmente se envolver dinheiro ou a disputa pelo poder dentro de casa, outra atitude lamentável de alguns casais em nossos dias.
Mais uma atitude que previne ou ajuda a sair de uma crise: o desejo de fazer “dar certo” a união. O casal precisa estar sempre lutando pelo amor e pela conquista do outro. Para que isso aconteça, é preciso exercitar um grande dom que Deus nos oferece: a paciência. Diz o papa Francisco: “As crises conjugais são enfrentadas muitas vezes de modo apressado e sem a coragem da paciência, da averiguação, do perdão recíproco, da reconciliação e até do sacrifício” (Amoris Laetitia, 41). Sábias palavras! Os casais precisam ser mais teimosos por amor.
Por fim, é necessária mais uma certeza, que deve brotar da fé: o Matrimônio não é somente uma vontade humana, mas uma vocação de Deus. Isso implica que o casal siga por um caminho a três, onde os obstáculos serão vencidos com a ajuda de Deus, que os chamou por amor para amar.
Mas e os casos onde as tentativas de acerto foram esgotadas e onde, mesmo com o perdão, não houve uma solução? Bem, esse é um assunto para o nosso próximo artigo.







Fonte: FC edição 973 Janeiro 2017
Postado por: Família Cristã




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