Depressão: o mal do século

Data de publicação: 25/05/2018


Por,  Nathan Xavier
 
Ela atrapalha os relacionamentos, a vida social e o trabalho, incapacitando mais de 322 milhões de pessoas no mundo

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), órgão das Nações Unidas, o Brasil é o segundo país das Américas com a predominância de pessoas com depressão. Perde apenas para os Estados Unidos, e até 2020 será a doença mais incapacitante do mundo. São 11,5 milhões de brasileiros, de variadas faixas etárias. Ainda não se sabe as causas que desencadeiam a doença, e, o mais provável, é que seja uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. O sintoma é bem conhecido: perda total de interesse. Dependendo de cada caso, podem incluir ainda alterações no sono, apetite, nível de energia, ansiedade, baixa autoestima e pensamentos suicidas. Não possui cura, mas pode ser controlada, e a base do tratamento inclui medicamentos, psicoterapia ou uma combinação dos dois.
Recentemente o youtuber Felipe Neto, famoso nas redes sociais e no canal de vídeos YouTube, deixou de lado os vídeos engraçados para falar sobre o assunto. Também diagnosticado com depressão, toma remédio regularmente e confessa que também ele tinha certo preconceito com a doença. No vídeo, alerta os mais de 11 milhões de inscritos em seu canal, a maioria jovens entre 13 e 17 anos, que a doença é algo sério: “Depressão não é frescura, não é uma fase. É uma doença, e você precisa de ajuda. É um problema silencioso em que a maior parte das pessoas no mundo não gosta de falar sobre o assunto”, lembrando que o Brasil é o oitavo país com a maior taxa de suicídio do mundo (veja “Depressão na adolescência”, seção Dinâmica familiar).
Karla Baldo, 32 anos, passou por isso, mas conseguiu ser salva a tempo. “Sempre viajei muito e morei em diversas cidades grandes dentro e fora do Brasil. Quando precisei voltar a morar com meus pais, no interior de Minas Gerais, minhas crises de ansiedade, que até então para mim eram normais devido à mudança de ambiente, começaram a ser recorrentes. Eu passei a ter insônia e pânico, já não saía do quarto. Em outubro de 2016, após uma discussão com minha irmã, eu decidi pôr fim à minha vida me enforcando. Fui encontrada pelo meu pai já quase sem vida.”
 Caio Costa, 28 anos, foi diagnosticado cedo com a doença, que desencadeou logo após sua melhor amiga se matar: “Eu estava com 14 anos na época e a gente era muito próximo. Fiquei muito mal, não saía de casa, só dormia”.
Preconceito – “Embora tenha sido minha mãe que me levou ao psiquiatra, minha família não gosta muito disso. Para eles, tem problema vai para a Igreja. Mesmo para mim é difícil me abrir e foi difícil fazer terapia”, reconhece, Caio. “Antes tinha vergonha de falar o que vivi, e vivo”, confessa Ana Carolina de Oliveira, hoje com 22 anos mas diagnosticada com depressão aos 9, “Somos acostumados a falar sobre o corpo físico, mas o espiritual e principalmente o mental não são coisas socialmente ‘discutíveis’. Tudo é sempre muito velado, e qualquer alteração nesse sentido é vista com olhares julgadores.” Karla revela que até hoje não recebe muito apoio da família: “Achavam ser uma fase ruim, que iria passar”. Já para Carmem Miller Oliveira, 43 anos, o problema foi ela própria: “É bobeira, frescura; a primeira vez que aceitei que Michael, meu marido, comprasse remédio, custou 200 reais. Ele voltou e brincou: ‘Querida, volte a beber porque é mais barato’”, conta rindo, da situação. “Mas é um preconceito, porque se trata de investir dinheiro naquilo que vai trazer uma ajuda para você. Comecei a me desconectar até da minha própria família, porque vivia em função de trabalhar.”
Melhora significativa – A psicóloga Cintia Ferrer afirma que é importante o diagnóstico por um especialista, para não confundir depressão com tristeza. “Qualquer um pode ficar triste. Ficamos mal por alguma situação, por um luto; são períodos que temos na vida e levamos um tempo para nos reorganizarmos, é normal. Já a depressão é uma doença, a pessoa não quer nada e não espera nada, não é um episódio de tristeza. Não é algo que a pessoa controle, ela simplesmente fica entregue àquela doença”, explica.
Os remédios para a depressão são fortes e apresentam sérios efeitos colaterais. Alerta Cintia: “Apenas o psiquiatra pode receitar e indicar a dosagem da medicação. Às vezes a pessoa melhora dos sintomas, das crises, mas fica uma coisa no peito que não passa. Nesse processo, a terapia, o esporte, uma prática religiosa pode ser uma porta onde ela acredita encontrar respostas para essa coisa no peito que não passa. Nunca é algo sozinho que leva alguém a melhorar de um quadro desses”.
Ana Carolina relata ter tido uma melhora significativa com o handball e o futsal aliados ao remédio. “encontrei apoio na religião e, mais tarde, no teatro. Os dois me ajudaram e ainda ajudam nos momentos de crise.” O mesmo aconteceu com Aparecida Lima: “Há dois anos pude trocar a medicação por exercícios físicos, caminhadas e no consumo de alimentos que ajudam na produção de dopamina e serotonina. Mas sobretudo caminhadas, isso ajuda muito”! O publicitário Nizan Guanaes tem um texto explicando porque ele começou a rezar e num momento ele diz que “sem a oração e a meditação a gente desembesta a fumar, a beber e a tomar ansiolítico. Isso me pegou bem pesado por que era o que eu estava fazendo. O rezar para mim veio como um apelo para silenciar, de saber ficar comigo mesmo apesar das minhas neuroses”.
Há saída – “Eu pensei que podia resolver sozinho, e eu não posso”, afirma Caio. Ana Carolina ilustra de forma bem poética: “A depressão não é frescura, nem brincadeira, muito menos falta de Deus. Ela é como uma onda, que vem e que vai, que modifica momentaneamente o mar, mas que não muda sua essência. O mar, quando não aceita a intensidade das ondas, fica revolto, mas, ao perceber que as ondas também fazem parte dele, encontra a calmaria na aceitação. Aceitar não é desistir, é perceber que gastar todas as forças lutando não é saudável. Ninguém é sozinho no mundo. Sejamos mais como o mar”.




Fonte: fc edição 978, junho de 2017
Postado por: Família Cristã




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