“Saudosa Maloca”

Data de publicação: 04/06/2018


Por, Texto e fotos Karla Maria

No Jaçanã, bairro da zona norte de São Paulo, um pequeno museu guarda parte da história dos paulistanos que é diariamente cantada em canção
Quem mora em São Paulo (SP) canta de cor (do coração) a música que traduz tão bem a alma do paulistano: Trem das Onze. Composta em 1964 por João Rubinato, ou Adoniran Barbosa, como é mais conhecido, a letra da música encontra-se guardada e emoldurada como relíquia em um pequeno museu na zona paulistana, no bairro do Jaçanã, onde vivem cerca de 94 mil pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Era nesse bairro também que ficava a Companhia Cinematográfica Maristela, produtora de dois filmes em que Adoniran atuou nos anos 1950, Carnaval em Lá Maior e A Pensão de Dona Estela. Para chegar até este bairro, Adoniran pegava o trem que subia a Serra da Cantareira, sentido Guarulhos (SP). E o horário do último trem era por volta das 10 horas, e não 11 como diz a canção, mas a rima era necessária para a canção.
O trem partia em linha reta da região do Parque Dom Pedro II até Areal, uma estação que funcionava próxima de onde ficava a Casa de Detenção, e dali o trajeto seguia à direita na direção de Guarulhos, passando por algumas estações cujos nomes ainda hoje identificam as estações de metrô na zona norte de São Paulo.
Carandiru, Pauliceia, Parada Inglesa, Tucuruvi, Vila Mazzei, Jaçanã, Vila Galvão, Gopoúva, Guarulhos. Em 1947, este ramal foi estendido até o aeroporto militar de Cumbica. Com o fim do ramal de Guarulhos, em 1965, o prédio da estação que ainda existe serve como lavanderia da Base Aérea.
Eternizado em canção, o trem colaborou para o crescimento de São Paulo. “Primeiro servia para transportar os materiais de construção para a criação do Sistema Cantareira de Águas que utilizamos até hoje e depois transportava passageiros para a zona norte, uma região antes praticamente isolada do restante da cidade”, conta Geraldo Nunes, jornalista, escritor e radialista, titular da cadeira 26 da Academia Paulista de História.
Para ele, se não existisse a música de Adoniran poucos saberiam, inclusive moradores do bairro, que por ali passou um trem levando pessoas na ida e na volta todos os dias do trabalho. “Se hoje a música Trem das Onze serve também de identidade para o paulistano, é sinal de que se trata de uma bela canção, muito benfeita por Adoniran Barbosa e muito bem cantada pelos Demônios da Garoa”, afirma o estudioso do tema.
Nunes também destaca que Trem das Onze é a única música feita por um compositor de São Paulo a vencer o carnaval do Rio de Janeiro (RJ). “Isto é de uma importância histórica enorme para o meio musical e para a cidade de São Paulo como um todo”, conclui.
O início do museu -  Toda essa história se mantém guardada no Museu do Jaçanã, fundado em 1983 por Sylvio Bittencourt, um dos moradores do bairro que usava o trem todos os dias para ir ao trabalho. “As fagulhas voavam e queimavam nossas roupas. Meu terno vivia cheio de furinhos. [...] Era um trem de muita amizade, as pessoas se conheciam, começavam namoros lá dentro”, contou Sylvio ao jornalista Gabriel Jareta, da Folha de S.Paulo, em outubro de 2015.
Procurado pela reportagem, Sylvio, aos 86 anos, encontrava-se hospitalizado e impossibilitado de conceder entrevistas. Mas Claudia Machado, vice-presidente do museu, nos contou a história e a luta de Sylvio para criar o Museu do Jaçanã.
Inicialmente, ele utilizava a garagem de sua residência, também no Jaçanã, para acomodar os objetos, e assim depois de algumas andanças conseguiu se instalar definitivamente em um terreno que estava abandonado, de propriedade da Fazenda do Estado de São Paulo.
Na ocasião, o então procurador do estado de São Paulo, Michel Temer, autorizou o uso daquele espaço por tempo indeterminado e ali permanece o museu até hoje, na Rua São Luiz Gonzaga, próximo à Praça Comendador Alberto de Souza, região onde se localizava a velha estação de trem da Cantareira.
O museu é pequeno, mas acolhedor, e guarda em suas prateleiras, paredes e mesas improvisadas objetos que Sylvio adquiriu com o passar do tempo. Há preciosidades como um chapéu usado por Adoniran Barbosa, fotos da estação de trem onde aparecem alguns visitantes ilustres, como o próprio compositor e o grupo musical Demônios da Garoa.
Sylvio conseguiu através de caminhadas pelo bairro montar um acervo da história do Jaçanã com jornais e depoimentos de famílias tradicionais, como Mesquita, Mazzei, Barbosa, Lito, Laet, entre outras. Recebeu ainda doações do Departamento de Geriatria D. Pedro II, da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, do Hospital de Lázaros (hoje São Luiz Gonzaga) e do falecido cardeal dom Paulo Evaristo Arns, com objetos das igrejas de Santa Teresinha e de São Benedito.
“Aqui no museu temos 350 peças catalogadas em objetos doados pela população, que remetem aos saberes e fazeres das pessoas da região, então você vai encontrar um ferro de passar, uma máquina, a sunga de um nadador, o quepe do primeiro carteiro da região, um kit de barbearia da primeira família de imigrantes que veio para o bairro, encontrará tudo isso que passa também por música, pelos famosos e anônimos”, conta a vice-presidente do museu, Claudia Machado.
Preservação da memória - Para Cláudia, a missão do museu é preservar, defender e promover o patrimônio cultural do bairro do Jaçanã, e mais, servir de referência à juventude como um ponto de cultura e encontro dos artistas do bairro. “Queremos desenvolver nas crianças um olhar para a região dela, quais os patrimônios culturais, quais os imigrantes que iniciaram o desenvolvimento do bairro e assim desenvolver cidadania, tolerância e um olhar de apropriação e de identificação com o bairro”, avalia Claudia.
O museu sempre funcionou com investimentos próprios de seu fundador e em algum momento tornou as atividades irrealizáveis por falta de recursos. Agora, Claudia busca na Lei Rouanet meios de permanecer com a exposição de longa permanência e realizar outras atividades itinerantes para atrair a juventude, dando assim prosseguimento à missão de Sylvio.
“O senhor Sylvio Bittencourt é merecedor de todo o nosso respeito pela iniciativa dele de praticamente sozinho ao longo dos anos ir juntando todo o material que hoje compõe o Museu de Memórias do Jaçanã. Não fosse ele, nada disso teria sido guardado e conservado”, aponta o jornalista Geraldo Nunes.
Para ele, hoje em dia a tecnologia pode ajudar a preservar a memória com a reprodução das fotos e documentos de acervo em papel para o meio digital. “Os custos não são tão altos e poderiam até ser bancados por empresas ou entidades ligadas à iniciativa privada, por isso existe a necessidade de conscientização do que precisa de fato ser preservado e ir à luta em busca de apoio para preservar a memória do Jaçanã e dos demais bairros.”
É o que Claudia tenta fazer buscando parcerias e investimentos. E naquele museu, do trem das onze que nunca existiu, permanece a história de um pedaço de São Paulo, de uma Saudosa Maloca (1951) de Adoniran Barbosa, que morreu em São Paulo no dia 23 de novembro de 1982, mas tem sua obra, que transmite tão bem a alma do bom paulistano, viva e imortalizada em um pequeno e simples museu e pode ser visitada no Jaçanã.






Fonte: Fc edição 975 março de 2017
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Uma fé humana!
A vivência de fé será levada, sem grandes esforços ou planejamento prévio, para uma vida comunitária
A cidade de Nossa Senhora
Para compreender a história da Padroeira do Brasil, deve-se conhecer um pouco da história da cidade
Liturgia da Palavra
14 de outubro de 2018 - 28º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Liturgia da Palavra
Fórmulas de energia
Pratos à base de amendoim fazem parte da cultura do Brasil e de seus países vizinhos
O mundo não vai bem
Coloquemo-nos de joelhos e oremos pelas mulheres e pelos homens que posam nus em outdoors
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados