Os pobres, a “carne de Cristo”

Data de publicação: 11/06/2018



Por, Moisés Sbardelotto

O desafio é promover um verdadeiro encontro com os pobres, dando lugar a uma partilha que se torne estilo de vida (papa Francisco)

Os pobres como a “carne de Cristo”, a pobreza como “âmago do Evangelho”, a “opção fundamental” da Igreja pelos pobres: é com esse conjunto de sentidos e significados que, em 2017, será celebrado o 1º Dia Mundial dos Pobres, convocado pelo papa Francisco. A data foi instituída pelo pontífice na conclusão do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia, em 2016. E, no mês passado, o Vaticano divulgou a primeira mensagem do papa Francisco para essa nova celebração, que será sempre lembrada no 33º Domingo do Tempo Comum, o domingo anterior à Solenidade de Cristo Rei, que, neste ano, será no dia 19 de novembro.
A primeira mensagem traz como título “Não amemos com palavras, mas com obras”, retirada da Primeira Carta de São João capítulo 3, versículo 18. Segundo Francisco, “estas palavras do apóstolo João exprimem um imperativo de que nenhum cristão pode prescindir”, isto é, “contrapor as palavras vazias, que frequentemente se encontram na nossa boca, às obras concretas, as únicas capazes de medir verdadeiramente o que valemos”. Portanto, afirma, “quem pretende amar como Jesus amou deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres”. Pois a predileção de Jesus pelos pobres é “um elemento requintadamente evangélico”.

1º Dia Mundial dos Pobres – Mas por que o Dia Mundial dos Pobres será celebrado no 33º Domingo do Tempo Comum do Ano Litúrgico? Justamente porque antecede a festa de Cristo Rei, de modo a torná-la “ainda mais autêntica”, explica Francisco. “Na verdade – continua –, a realeza de Cristo aparece em todo o seu significado precisamente no Gólgota, quando o Inocente, pregado na cruz, pobre, nu e privado de tudo, encarna e revela a plenitude do amor de Deus. O seu completo abandono ao Pai, ao mesmo tempo que exprime a sua pobreza total, torna evidente a força deste amor, que o ressuscita para uma vida nova no dia de Páscoa.”
Foi a partir do testemunho dessa “pobreza total” que a Igreja deu os seus primeiros passos. Segundo Francisco, um dos primeiros sinais com os quais a comunidade cristã das origens se apresentou ao mundo foi o serviço aos mais pobres. Contudo, reconhece o papa, houve momentos na história da Igreja “em que os cristãos não escutaram profundamente este apelo, deixando-se contagiar pela mentalidade mundana”. Mesmo assim, “o Espírito Santo não deixou de os chamar a manterem o olhar fixo no essencial”, fazendo surgir homens e mulheres que ofereceram a sua vida ao serviço dos pobres, animados por uma “generosa fantasia da caridade”. Dentre estes, o papa destaca o exemplo de Francisco de Assis, que foi seguido por tantos outros homens e mulheres. Seu testemunho, afirma o pontífice, “mostra a força transformadora da caridade e o estilo de vida dos cristãos”.
Hoje, para Francisco, celebrar um Dia Mundial dos Pobres é favorecer que as comunidades cristãs de todo o mundo se tornem cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais necessitados. Por isso, os cristãos e as cristãs não devem pensar nos pobres apenas como destinatários de uma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, para pôr a consciência em paz. Ao contrário, o desafio é promover um verdadeiro encontro com os pobres, dando lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. De fato, sintetiza Francisco, a prova da autenticidade evangélica do discipulado está na caridade que se torna partilha.
Encontrar-se com os pobres é “tocar com as mãos a carne de Cristo”. Para o papa, se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. Nesse sentido, Francisco cita as fortes palavras de São Crisóstomo: “Queres honrar o corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm o que vestir, nem o honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora o abandonas ao frio e à nudez”.

Mãos benditas – Em relação a esse toque sagrado na pobreza encarnada, Francisco elenca, quase poeticamente, novas Bem-Aventuranças: “Benditas as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança. Benditas as mãos que superam toda a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação nas chagas da humanidade. Benditas as mãos que se abrem sem pedir nada em troca, sem ‘se’ nem ‘mas’, nem ‘talvez’: são mãos que fazem descer sobre os irmãos a bênção de Deus”.
O chamado do papa a toda a Igreja, portanto, é o de estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. Por sua vez, a mão dos pobres estendida a nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma. Pois, para os discípulos de Cristo, explica o papa, a pobreza é uma vocação a seguir Jesus pobre. É um caminho atrás dele e com ele: um caminho que conduz à bem-aventurança do Reino dos céus, uma atitude do coração que impede de conceber como objetivo de vida e condição para a felicidade o dinheiro, a carreira e o luxo.
Mas a pobreza, para o papa, também assume outros rostos no mundo contemporâneo, rostos marcados pelo sofrimento, pela marginalização, pela opressão, pela violência, pelas torturas e a prisão, pela guerra, pela privação da liberdade e da dignidade, pela ignorância e pelo analfabetismo, pela emergência sanitária e pela falta de trabalho, pelo tráfico de pessoas e pela escravidão, pelo exílio e a miséria, pela migração forçada. Em todos esses casos, a pobreza é “fruto da injustiça social, da miséria moral, da avidez de poucos e da indiferença generalizada”, exclama o pontífice.
Por isso, aos fiéis em geral Francisco convoca esse Dia Mundial dos Pobres como uma forma de reagir à cultura do descarte e do desperdício, assumindo a cultura do encontro. Para isso, sugere que as comunidades cristãs se empenhem na criação de muitos momentos de encontro e amizade, de solidariedade e ajuda concreta aos pobres, por exemplo, aproximando-se deles e acolhendo-os como hóspedes privilegiados à nossa mesa; poderão ser mestres, que nos ajudam a viver de maneira mais coerente a fé.
Em suma, afirma Francisco, o novo Dia Mundial dos Pobres é um forte apelo à nossa consciência de fé, na convicção de que partilhar com os pobres nos permite compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda.




Fonte: Fc edição 979, Julho de 2017
Postado por: Família Cristã




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