Por um fio

Data de publicação: 15/06/2018


Por, Nathan Xavier
 
Jornalistas lançam Era uma vez um cabelo, sobre a doença alopecia areata, ainda pouco conhecida

“É dos carecas que elas gostam mais”, afirma a famosa marchinha de carnaval, num consolo aos homens que, por força da genética aliada à idade, perdem cabelo com o passar dos anos. Um tipo de queda comum, conhecida como calvície masculina padrão, afetando oito em cada dez homens com menos de 70 anos, segundo a Sociedade Brasileira para Estudo do Cabelo. Queda que costuma atingir a autoestima, provocando incômodos na vida social.
O cabelo, sob o ponto de vista funcional do corpo humano, serve apenas para proteger a cabeça contra o excesso de frio ou dos raios de sol, bem diferente de um rim ou de um coração, essenciais para o funcionamento do organismo. Porém, é um item importante para a estética, colaborando para emoldurar o rosto e integrando-se à nossa personalidade.
Se para um senhor de meia idade a queda do cabelo pode se transformar num tormento, imagine ser mulher, com 16 anos, e começar a apresentar falhas no couro cabeludo? E ainda descobrir, após uma visita ao dermatologista, que existe a possibilidade de o cabelo cair completamente em pouco tempo? Foi o que viveu Beatriz Santos, 25 anos, que desenvolveu uma doença pouco conhecida chamada alopecia areata. Ela, junto com a amiga Andressa Pedras, escreveu o livro Era uma vez um cabelo, e a publicação, inédita em língua portuguesa sobre o assunto, ganha as prateleiras de todo o País pela Paulinas Editora.
O livro traz muitas pesquisas e informações recentes sobre a doença e é repleto de relatos de pessoas de diferentes idades, adultos e crianças, mostrando as diversas formas de se lidar com a doença, inclusive a do ex-goleiro do Corinthians e hoje apresentador da TV Bandeirantes, Ronaldo Giovanelli, que também tem a doença. A oportunidade surgiu depois que elas perceberam que não existia literatura leiga sobre o assunto no Brasil, apenas artigos científicos. “Quando o cabelo da Beatriz caiu completamente, eu fiquei assustada porque não tinha nenhuma informação. Não sabia se ela ia piorar, se ia morrer, não conhecia nada. Pesquisando, percebemos que existia uma deficiência sobre o assunto, com informações incompletas e até mesmo erradas”, conta Andressa.

Grupo de apoio – A medicina desconhece as causas e tampouco a cura: “O nosso sistema imunológico, que é nosso sistema de defesa, identifica o fio que está nascendo como corpo estranho e o agride”, explica Enilde Borges Costa, dermatologista, que prestou assistência à dupla de autoras na parte técnica do livro. “Não há nenhum comprometimento a algum órgão ou sistema, a não ser nos lugares que ficam sem pelos e cabelos, onde é preciso se proteger mais, com protetor solar ou chapéus.”
 Doutora Enilde trabalha no Ambulatório de Dermatologia da Escola Paulista de Medicina, do Hospital São Paulo, e há 14 anos mantém um grupo de apoio específico para familiares e pessoas com alopecia areata. Foi nesse grupo que Beatriz recebeu o apoio de que precisava para aprender a lidar com o problema à sua maneira. Ela chegou a tomar medicamentos que ajudaram a minimizar a queda, mas considerou que os efeitos colaterais em sua saúde eram um preço alto demais.
 “Logo que descobri a primeira falha, em 2008, a médica já me disse para fazer terapia”. E todos depois falavam para fazer terapia, porque como não se sabe ainda se o que desencadeia é algo emocional, trauma ou estresse, a terapia auxiliaria e também ajuda caso seu cabelo caia completamente. Você aprende a lidar melhor com essas coisas, acredito que tenha sido isso que me ajudou a aceitar. ‘Aceitar’ parece algo ruim, mas é mais que isso. Faz parte da minha vida e personalidade”, afirma, mostrando-se desconfortável com a palavra. Chegou a comprar peruca, mas não se adaptou: “Não combina comigo, fico incomodada. E é bem bonita, parece com o cabelo que eu tinha, mas me incomoda. Não sou eu”, finaliza com um sorriso seguro.
“A gente queria tirar o olhar de pena, primeiramente”, explica Andressa. “Não temos que ter pena da pessoa. E também não queríamos mostrar o que é certo ou não. Cada um ali descobriu uma forma de seguir em frente, seja com peruca ou sem, seja buscando tratamento mesmo com os possíveis efeitos colaterais. Escrever esse livro foi uma experiência para a vida.” Beatriz completa: “Eu espero que as pessoas leiam, e não apenas quem tem alopecia areata, mas também quem tem curiosidade ou quer aprender mais sobre o ser humano e como lidar com as pessoas. Trata-se de uma doença específica, mas que pode servir de metáfora para várias situações. O processo é o mesmo de aprender a lidar com quem está sofrendo por alguma outra doença, e acredito que o livro ajuda nesse sentido, de colaborar para as pessoas se colocarem no lugar dos outros”.




Fonte: Fc edição 977, Maio de 2017
Postado por: Família Cristã




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