O colorido das festas juninas

Data de publicação: 21/06/2018


Por, Karla Maria

De norte a sul, o povo brasileiro se reúne no inverno para festejar seu modo de viver, de cultivar os frutos do campo e de manifestar sua fé nos santos Antônio, João, Pedro e Marçal

Quando o inverno chega ao Brasil é certo que as comunidades paroquiais já estão preparadas para suas quermesses com grandes celebrações, bandeirinhas e doces, muitos doces. É certo também que o acordeão do sanfoneiro pelo Norte e Nordeste já ensaia o forró, o arrasta-pé das maiores festas de São João do mundo.
Na Ilha de Tupinambararana, a 420 quilômetros de Manaus, no Amazonas, o povo se prepara para mais um festival de Parintins. Marcado pelo bumba meu boi e pelo som de tambores indígenas, os bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul) lembram a multiplicidade das festas populares de inverno no Brasil.
É tempo de festa junina, de tradição e manifestação cultural da identidade do povo brasileiro, que se multiplica em cores, sabores e danças. O que pouco se sabe, contudo, é que, para além de herança colonial europeia, a origem das festas juninas também está ligada às manifestações indígenas, dos negros e de outras culturas. Por isso, tamanha multiplicidade de manifestações.
“Todas as matrizes étnicas presentes na formação do nosso povo, como indígenas, negros – e, hoje em dia, até a imigração japonesa influi em alguns festejos –, contribuíram com aspectos importantes da simbologia e processos rituais presentes nas diferentes formas de comemorar essas tradições”, ensina o cientista social e mestre em Antropologia pela Universidade de São Paulo (USP), Marcelo Manzatti.
O forró, por exemplo, é uma herança da cultura afro. Pelo menos é o que diz o historiador e folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Para ele, a palavra forró vem do termo forrobodó, de origem africana, que significa “arrasta-pé, farra”.
Segundo Manzatti, é clara a força da cultura hegemônica de matriz europeia, mas, dependendo de qual grupo detém o domínio da organização das festas, essa estrutura pode ser alterada radicalmente. “Se pontuarmos apenas que essas festas celebram santos católicos: Santo Antônio, São João e São Pedro, mas também alguns outros em outras regiões, como São Marçal, no Maranhão, podemos incorrer no erro”, chama a atenção o cientista social.
Como cada região teve uma formação histórica diferente, com a combinação diferenciada dos vários grupos identitários, as festas e manifestações culturais vão se apresentar de modo muito próprio, valorizando aspectos às vezes esquecidos inclusive pelos livros de História.
“No Nordeste, a presença da cultura negra é grande, enquanto no Norte os elementos indígenas sobressaem e, no Sul, a imigração é que dá as tonalidades mais fortes”, pontua o cientista social. “Pouco conhecido, há o tambor de crioula, que figura entre as manifestações frequentes no carnaval e durante as festas juninas.”
O tambor de crioula é uma forma de expressão de matriz afro-brasileira que envolve dança circular, canto e percussão de tambores e praticado especialmente em louvor a São Benedito. Essa manifestação ocorre na maioria dos municípios do Maranhão, envolvendo uma dança circular feminina.
“O boi-bumbá, em Parintins e no Amazonas, e o fandango, nos estados do Paraná e São Paulo, são exemplos dessa diversidade. São patrimônios que possuímos e que fazem desse período, assim como dos outros dois importantes momentos do calendário festivo popular brasileiro, o carnaval e o Natal, grandes espaços de projeção dessas múltiplas formas de expressão”, afirma Manzatti.

Identidade do brasileiro – A história revela que a nossa sociedade foi essencialmente rural até meados do século 20, e que muito do que se construiu em termos de identidade cultural vem desse universo. As festas juninas se concentram no período do ano em que os trabalhos no campo são menos intensos, devido à seca, que impede o plantio de novas roças.
“Era o momento mais rico do ano e o mais folgado, quando se aproveitavam as benesses da colheita das águas e se podia desfrutar da abundância de alimentos e do tempo livre. Hoje, esse efeito se transferiu para o fim do ano, no mundo urbano. É nesse momento que as pessoas recebem o seu décimo terceiro, tiram férias e podem viajar, ver a família, concentrando grandes energias nas festas de fim de ano”, lembra Manzatti, sobre os nossos dias.
Historicamente, também, há um movimento de negação do modo de vida urbano e uma supervalorização do imaginário da vida rural, considerada mais humana, mais natural e menos violenta do que a da cidade, onde as pessoas se relacionavam de forma mais orgânica. São construções que podem ser questionadas, mas que informam a mentalidade sobre o período e a repetição das festas nos dias de hoje.
Ponto alto das festas são, sem dúvida, os pratos típicos, que também figuram como herança cultural. “O fato de predominar o tempo frio nessa época (das festas juninas), em muitas regiões também reforça a tendência de se consumir alguns pratos que, em outros momentos, não agradariam tanto”, diz o sociólogo.
Opções não faltam com produtos próprios de cada região. Confira algumas delas com receitas nesta edição, na seção Culinária, à pág.
Religiosidade – A devoção e o carinho que o povo brasileiro nutre por Santo Antônio, São Pedro e São João surgiram a partir do processo de colonização europeia. Na bagagem, os portugueses trouxeram as comemorações e tradições que seguimos ainda hoje nas festas espalhadas pelo País.
O estudo Festas Populares Religiosas e suas dinâmicas espaciais, publicado em 2007 pela Universidade Federal do Ceará (UFC), revela que dentre os diversos atrativos nas festas populares, inclusive juninas, como danças e gastronomia, mantém-se como o principal atrativo dos eventos locais a devoção aos santos.

Festas juninas
Santo Antônio – 13 de junho
São João – 24 de junho
São Pedro – 29 de junho
São Marçal – 30 de junho






Fonte: fc edição 978, junho de 2017
Postado por: Família Cristã




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