O silêncio em meio à mata

Data de publicação: 28/06/2018


Por, Osnilda Lima, fsp

O Museu do Seringal Vila Paraíso, em Manaus, no Amazonas, conduz ao ciclo da borracha, marco da sociedade amazonense na economia e exploração da borracha e dos trabalhadores

O sorriso dela veio ao nosso encontro, ainda no trapiche. Chegamos ao Museu do Seringal, Vila Paraíso, entramos no barracão dos seringueiros e ela nos disse: “A guia está de folga hoje. Mas, se aceitarem, eu posso acompanhar vocês na visita”, anunciou com simpatia, voz mansa e um sorriso largo, Maria Helena Batista Farias, 57 anos, moradora da Comunidade Nossa Senhora de Fátima, às margens do Rio Negro, e que trabalha no museu desde a sua fundação, em 16 de agosto de 2002. O Museu do Seringal Vila Paraíso está localizado na boca do Igarapé São João, afluente do Igarapé do Tarumã-Mirim, margem esquerda do Rio Negro, a 25 minutos de barco do porto público Marina do Davi, em Manaus (AM).
O espaço foi originalmente criado com o objetivo de reproduzir com fidedignidade um seringal que existiu em Humaitá, no Rio Madeira, município no sul do Amazonas, distante 590 quilômetros da capital. O museu foi construído especialmente para o filme A Selva, produção luso-brasileira de 2001, estrelada por Maitê Proença e dirigido por Leonel Vieira, em uma adaptação livre da obra do escritor português Ferreira de Castro, a qual volta ao passado histórico caracterizando a economia, exploração da seringa e a sociedade amazonense no fim do século 19 e início do 21.
Maria Helena nos conduziu com a voz afável, assemelhando-se ao murmúrio do rio, acompanhando o silêncio na mata, pelos locais do museu formado por ambientações de época, quando a borracha estava no auge de sua valorização econômica, mas também a exploração dos trabalhadores que mergulhavam da floresta para colher o látex e viviam em lugares paupérrimos.

No trajeto da visita, percorre-se um roteiro que começa ao desembarcar no trapiche que leva até o casarão do barão da seringa, onde os móveis e utensílios de época testemunham a riqueza dos donos dos seringais. No barracão de aviamento, sede administrativa e comercial do seringal onde os seringueiros adquiriam os produtos manufaturados e contraíam dívidas infindáveis junto ao barão, ciclo esse do qual dificilmente conseguiriam sair, como dizia o escritor e jornalista Euclides da Cunha: “O sertanejo emigrante realiza, ali, uma anomalia, sobre a qual nunca é demasiado insistir: é o homem que trabalha para escravizar-se”. Em seguida, encontra-se a Capela de Nossa Senhora da Conceição, espaço em que atores, para se passarem por padres, eram contratados para escutar as confissões dos seringueiros e os entregar ao patrão. 
Na descida em direção ao rio, passa-se pela casa de banho das mulheres. Na sequência, um varadouro conduz às seringueiras e se pode assistir à demonstração da retirada do látex. Continuando, chega-se à casa do capataz e ao tapiri de defumação, onde os seringueiros preparavam as pelas, bolas de borracha defumada, que eram vendidas no barracão de aviamento. A visita prossegue, agora  à casa do seringueiro, rude construção de varas elevada do chão, coberta de palha, em meio à floresta. O roteiro da visita é concluído com a volta à sede do seringal, incluindo passagem pelo cemitério cenográfico, para lembrar que as mortes dos seringueiros eram frequentes por doenças, ataque de animais ou conflitos. Por fim, o itinerário conclui-se na casa da farinha, onde, além da farinha, a guia faz questão de lembrar o famoso xibé, uma mistura de água com farinha de mandioca, alimentação do cotidiano dos seringueiros.
Os seringais da Amazônia receberam, em sua maioria, nordestinos do sertão do Ceará. Recrutados, chegavam à Amazônia deixando sua terra devido à avassaladora seca de 1877-1878. Eles foram seduzidos pela possível fortuna no paraíso verde, onde a seca não mais lhes seria ameaça. O ciclo da borracha teve seu apogeu entre 1879 e 1912. Com sobrevida durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
A lenda do boto – Ao concluírmos o percurso, indagamos Maria Helena: “Essa é a história narrada por Ferreira de Castro, e sua história? Ao que prontamente respondeu: “Sou contratada para contar a história do museu, não a minha”. Contrapusemos: “A senhora se importaria em contar a sua?”. Ela convida: “Senta aqui que vou lhes contar, sim. Para começo de conversa eu sou filha do boto”.
Na cultura popular amazonense, a lenda do boto é usada para justificar quando uma mulher engravida sem estar casada, quando não se revela a identidade do pai, ou o mesmo não assume a paternidade, e também diante da questão de a mulher engravidar de violência e abuso sexual.
Reza a lenda que um jovem muito atraente e com um belo porte físico percorre comunidades próximas ao rio e encanta e seduz as moças. Isso ocorre particularmente durante as festas juninas: São João, Santo Antonio, São Pedro e São Paulo, ou nos festejos dos santos padroeiros das comunidades. A população celebra essas festas dançando, soltando fogos de artifício, fazendo fogueiras e saboreando alimentos típicos da região. É nessa hora que o boto-cor-de-rosa sai do rio e se transforma em um jovem elegante, belo, beberrão e bom dançarino. Bem vestido, trajando roupas, chapéu e calçados brancos. Contam que o chapéu é utilizado para ocultar, já que a transformação não é completa, salientando o orifício no alto da cabeça, feito para o boto respirar.
A tradição diz que o boto carrega uma espada presa ao seu cinto, mas que, no fim da madrugada, quando é chegada a hora de ele voltar ao leito do rio, é possível observar que todos os seus acessórios são, na verdade, outros habitantes do rio. A espada é um poraquê (peixe-elétrico), o chapéu é uma arraia, o cinto e os sapatos são outros dois diferentes peixes.
Esse desconhecido e atraente rapaz conquista com facilidade a mais bela e desacompanhada jovem que cruzar seu caminho e, em seguida, dança com ela a noite toda, a seduz, a guia até o fundo do rio, onde, por vezes, a engravida e abandona. Por isso, as jovens eram alertadas por mulheres mais velhas para terem cuidado com os galanteios de homens bonitos durante as festas, tudo para evitarem que fossem seduzidas pelo infalível e, assim, virar motivo de fofocas ou zombarias por parte da comunidade.
Então, Maria Helena continua narrando sua história. Vindo do Acre, ainda criança, ao Amazonas. Sua mãe foi obrigada a se casar com seu pai adotivo, quando a mesma engravidara do seu patrão, o Barão da Seringa. “Nós chegamos aqui, nos instalamos às margens do Rio Negro e não saíamos para nada. Fui ter contato com outras pessoas quando eu já tinha 13 anos.” Ela conta que conheceu o pai biológico quando o mesmo estava no leito de morte, em Manaus, e pediu para que a localizassem. “Eu fui, mas sabe quando você não sente nada? Ele para mim era um estranho. Deus sabe, eu não sentia amor por ele. Não porque eu soube de tudo o que ele fez com minha mãe, comigo. Mas eu não tinha vínculo com ele. Pai mesmo foi o que me assumiu e assumiu minha mãe, e sempre nos respeitou muito.” Maria Helena conta que a única comunicação entre eles foi de olhares. “Ele só me olhava, olhava...” E expõe que seguiu sua vida, casou-se, tem dez filhos, vive próximo ao Museu do Seringal e se diz feliz em viver em meio à floresta, somente vai à cidade por necessidade extrema.


Serviço
Desde o centro de Manaus, o trajeto é feito de ônibus circular, viagem tranquila em torno de 30 minutos. Outra opção é ir de táxi. Desde o Teatro Amazonas, no centro da cidade, até o Marina do Davi, o táxi custa, em média, 50 reais. Chegando ao Porto Marina do Davi, você pega o barco para o museu, que é de linha e vai parando em algumas comunidades e praias até chegar ao museu.
Cada trecho custa 12 reais, ou seja, 24 reais ida e volta (março/2017).
O museu funciona das 8 às 16 horas e um bom horário para pegar o barco é, no máximo, até às 14 horas. As saídas dos barcos são diárias, a partir das 8:30 às 16 horas, de hora em hora.




Fonte: fc edição 978, junho de 2017
Postado por: Família Cristã




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