Jovens e vocações

Data de publicação: 05/07/2018



Por, Moisés Sbardelotto


“Sonhamos com uma Igreja que saiba deixar espaços ao mundo juvenil e às suas linguagens, apreciando e valorizando a sua criatividade e os seus talentos”

Os jovens, a fé e o discernimento vocacional: esse será o tema da próxima Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, convocada pelo papa Francisco para outubro de 2018. Ainda falta muito tempo para os debates sinodais, mas o pontífice já coloca a Igreja a caminho nessa reflexão atual e relevante, e convoca os próprios jovens para falarem sobre o seu desejo de mudança. Foi a eles que Francisco enviou uma carta em janeiro passado, para apresentar o documento preparatório do Sínodo, dizendo: “A Igreja também deseja se colocar à escuta da voz de vocês, da sua sensibilidade, da sua fé; até das suas dúvidas e das suas críticas. Façam ouvir o seu grito, deixem-no ressoar nas comunidades e façam-no chegar aos pastores”.
No documento preparatório, explica-se que o próximo sínodo será um momento para que a Igreja se interrogue sobre o modo de acompanhar os jovens a “reconhecer e a acolher o chamado ao amor e à vida em plenitude”. Para isso, os próprios jovens são convidados a colaborar, mediante uma novidade: o lançamento de um site na internet voltado especificamente a eles, com um questionário sobre as suas expectativas e a sua vida. Todo o material coletado, depois, ajudará na redação do documento de trabalho do Sínodo, o chamado Instrumentum laboris, que será o ponto de referência para o debate dos padres sinodais.

Desafio vocacional – O tema do próximo sínodo se enquadra em um contexto vocacional desafiador para a Igreja, especialmente na América. De acordo com o Anuário Estatístico da Igreja 2016, o continente (incluindo as Américas do Norte, Central e do Sul) contou com um aumento no percentual de católicos (0,12%). Mas, ao mesmo tempo, registrou-se uma queda no número de sacerdotes (-123), de religiosas e religiosos (-362), de missionários leigos (- 5.596), de catequistas (-2.814), de seminaristas maiores diocesanos (-594) e de seminaristas maiores religiosos (-82). Por outro lado, esses dados se situam em um contexto juvenil em que, como explica o documento preparatório, “a pertença confessional e a prática religiosa se tornam cada vez mais características de uma minoria, e os jovens não se colocam ‘contra’, mas aprendem a viver ‘sem’ o Deus apresentado pelo Evangelho e ‘sem’ a Igreja”.
Diante desses horizontes, o documento preparatório inicia com uma tentativa de compreensão das dinâmicas sociais e culturais do mundo em que os jovens crescem e tomam as suas decisões. Intitulada “Os jovens no mundo de hoje”, essa seção reconhece que “existe uma pluralidade de mundos juvenis, e não apenas um”. Mas todos são marcados pela “velocidade dos processos de mudança e de transformação” das sociedades contemporâneas.
Somados a uma complexidade elevada, tais fatores fazem com que a Igreja se encontre “em um contexto de fluidez e de incerteza jamais experimentado precedentemente: é uma realidade que devemos aceitar sem julgar a priori”, diz o texto. Isso envolve questões como o mal-estar social, dificuldades econômicas, experiências de insegurança e fenômenos como o NEET (“Not in Education, Employment or Training”), ou seja, jovens que não estudam, não trabalham nem possuem formação profissional.
No fundo, porém, tais transformações envolvem principalmente “os desejos, as necessidades, as sensibilidades e o modo de se relacionar” dos jovens hoje, no momento da sua transição para a vida adulta e da construção de sua identidade. Contudo, afirma o documento, a cultura ocidental propõe um conceito de liberdade entendida como a possibilidade de ter acesso a oportunidades sempre novas mediante opções sempre reversíveis, deixando de lado as escolhas definitivas. Por isso, “tornam-se indispensáveis instrumentos culturais, sociais e espirituais adequados” para a tomada de decisão.

Discernimento – Entra em jogo, aqui, a importância da tríade “Fé, discernimento, vocação”, título da segunda parte do documento. Como síntese dessas reflexões, afirma-se que “a fé é a fonte do discernimento vocacional”. Para tornar fecundo esse dom da graça, é preciso fazer “escolhas de vida concretas e coerentes”. O discernimento, por sua vez, é o ato de “tomar decisões e orientar as ações pessoais em situações de incerteza e perante impulsos interiores contrastantes”. O Espírito fala e age nos acontecimentos da vida de cada pessoa, de acordo com o documento, e “iluminar o seu significado em ordem a uma decisão exige um percurso de discernimento”. Já a vocação “implica a disponibilidade de arriscar a própria vida e percorrer o caminho da cruz, nos passos de Jesus”. Para correspondê-la, é preciso abrir espaço para “receber o projeto de Deus sobre a vida familiar, o ministério ordenado ou a vida consagrada, assim como para desempenhar com rigor a própria profissão e buscar sinceramente o bem comum”.
Na terceira parte, intitulada “A ação pastoral”, o documento salienta os pontos fundamentais de uma pastoral juvenil vocacional, convidando a Igreja a caminhar com os jovens. Isso exige “sair dos próprios esquemas pré-fabricados, encontrando-os lá onde eles estão, adaptando-se aos seus tempos e aos seus ritmos”.

Mundo digital – Aborda-se, então, o desafio do cuidado pastoral e do discernimento vocacional a partir dos seus sujeitos, dos seus lugares e dos instrumentos à disposição. Os sujeitos são “todos os jovens, sem exclusão alguma”, principalmente os jovens pobres, marginalizados e excluídos. O lugar principal é a vida cotidiana e o compromisso social, mas também – e aqui se encontra uma grande inovação do texto – o mundo digital, que, para as gerações mais jovens, se tornou um verdadeiro lugar de vida, sobre o qual os jovens certamente têm algo para ensinar à Igreja. Sobre os instrumentos, aborda-se a brecha existente entre a linguagem eclesial e a dos jovens, e afirma-se: “Sonhamos com uma Igreja que saiba deixar espaços ao mundo juvenil e às suas linguagens, apreciando e valorizando a sua criatividade e os seus talentos”.
Assim como para os demais sínodos convocados por Francisco, o documento preparatório encerra com um “tema de casa”, um questionário sobre o mundo juvenil e o acompanhamento vocacional, que pode ser respondido por toda a Igreja. Diante de um contexto desafiador e de uma problemática eclesial urgente, Francisco coloca toda a Igreja em movimento reflexivo e ativo, “em saída”, ao encontro da realidade juvenil como ela é. Afinal, como diz o pontífice, a vocação é um “convite a sair de si mesmo”, é um caminho a ser feito “juntamente com os irmãos e as irmãs que o Senhor nos dá: é uma con-vocação”.




Fonte: FC edição 974, fevereiro de 2017
Postado por: Família Cristã




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