Belezas do alto

Data de publicação: 05/07/2018

   
Texto e fotos: Karla Maria, especial de Vila Velha (ES)

Em Vila Velha, no alto do penhasco, a Virgem da Penha aguarda seus fiéis e os presenteia com paisagens de tirar o fôlego

A ladeira íngreme de mais de 150 metros de altitude, em meio à Mata Atlântica, convida o romeiro a se manter firme na caminhada. Os pássaros e o sol animam o passo que para cada devoto de Nossa Senhora da Penha tem um sentido diferente, um pedido, um agradecimento. Estamos no Convento da Penha, no alto de um penhasco 500 metros do mar, em Vila Velha, no estado do Espírito Santo.
O caminho que milhares de fiéis e turistas percorrem diariamente nesse recanto de fé e exuberância da natureza capixaba foi feito séculos antes por frei Pedro Palácios, que em 1558 chegou a essas terras trazendo consigo um painel de Nossa Senhora das Alegrias, até hoje venerada na capela do convento.
Quem caminha por ali, a partir do campinho de palmeiras imperiais, depara com paisagens privilegiadas pela altitude. Um giro de 360 graus leva o visitante da barra de Vitória e do oceano Atlântico até a vista panorâmica de Vila Velha com o 38º Batalhão de Infantaria, localizado no Parque da Prainha, ao pé do morro do convento. É o contato com a natureza, com a Criação.
Subindo os largos degraus de pedra, chega-se ao Museu de Nossa Senhora da Penha. Instalado pelo então guardião do convento, frei Alfredo W. Setaro, em 1952, o museu exibe objetos do acervo histórico do convento, os quais fazem parte da história daquele espaço sagrado, como a imagem de Sant’Anna Mestra com Nossa Senhora Menina, de pé, feita de madeira policromada do século 18. Outros datam de 400 anos.

Manifestação da fé – Ao lado do museu fica a Sala dos Milagres, com parte dos ex-votos ofertados a Nossa Senhora da Penha. Fotografias, peças em gesso, roupas e diplomas registram o agradecimento pelas graças alcançadas. Naquela sala, além dos objetos, o povo marca presença, muitos de joelhos prostrados, apresentando seus pedidos em pequenos pedaços de papel e depositando-os ao pé da Virgem da Penha.
É ali também que encontramos a imagem de Nossa Senhora da Penha de 1958, esculpida pelo italiano Carlo Crepaz, um fac-símile do original que é denominada imagem peregrina por visitar as paróquias e comunidades de todo o estado.
Mais acima, no topo do penhasco, está a capela edificada em 1562. O interior da igreja é revestido, parcialmente, com madeira de cedro, entalhada com motivos fitomorfos, ou seja, que representam folhas, flores, feitas pelo escultor português José Fernandes Pereira, entre os anos de 1874 e 1879.
O assoalho da capela, entalhado em marchetaria, foi reformado em 1980. O altar mor da igreja, altar principal, foi remodelado em 1910 e conta com mais de 200 peças de 19 tipos diferentes de mármore que adornam o retábulo e as colunas. O trabalho de Carlo Crepaz chama atenção pela cuidadosa talha de madeira dourada.

Arte talhada – É tanta beleza que os olhos se perdem entre os detalhes do espaço sagrado com a imensidão da natureza que o envolve. Observam-se na madeira entalhada capitéis, coríntios, festões, guirlandas com elementos vegetalistas, medalhões, anjos e frontão, datando do século 19.
Além da imagem de Nossa Senhora da Penha, encontram-se anjos, querubins e os santos franciscanos: São Francisco de Assis e Santo Antônio de Lisboa e de Pádua, lembrando que aquela é uma casa franciscana, que o Convento da Penha é um belo e importante registro de toda a trajetória histórica evangelizadora dos religiosos da Ordem dos Frades Menores da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, a partir de sua instalação em terras capixabas.
A capela sempre repleta de fiéis que se espremem para acompanhar a missa conta em suas paredes com obras paisagísticas do Convento da Penha, realizadas por Vítor Meireles, e as obras sacras de Pedrina Calixto, que assinou as mesmas nos anos de 1926 a 1927.
Os visitantes contam ainda com a capela de São Francisco e a gruta de frei Pedro, na entrada velha para o convento, e com a Ladeira das Sete Voltas, caminho antigo de pedras, com o seu portão, que representa as sete alegrias de Nossa Senhora — anunciação, visita da prima Isabel, nascimento de Jesus, recebimento do Espírito Santo, apresentação de Jesus no templo, ressurreição e ascensão de Nossa Senhora.

A obra – Foi em 1652 que as obras para a construção do Convento da Penha começaram. Em 1660, elas terminaram, mas depois passaram por inúmeras ampliações, reformas e adaptações. Segundo o historiador frei Basílio Röwer, autor de Páginas de história franciscana no Brasil, o número de escravos nas obras “ultrapassava o de qualquer outro convento".
“Esta mão de obra, de que os Franciscanos dispuseram desde os tempos coloniais, era por eles empregada nos mais variados serviços: nas lavouras do pomar, no atendimento do gado e limpeza dos currais, nas atividades da pesca, nos encargos ligados à rotina diária dos conventuais”, pontua.
Ainda segundo o historiador, foi através da mão de obra escrava que os Franciscanos puderam realizar muitas das grandes obras do santuário e do seu entorno, inclusive o calçamento, a pedra da ladeira tradicional que dá acesso ao monumento, e até a construção das senzalas.
A partir de 1870, alguns escravos começaram a ser alforriados pelos franciscanos. Mesmo assim, informa frei Basílio que, em 1872, o convento contava com 42 escravos, sendo três pedreiros; um carpinteiro; 11 lavradores; sete cozinheiras; seis lavadeiras; três engomadeiras; cinco costureiras e seis sem ofício. Em 1880, o número havia caído para 19, dos quais três fugiram.
Subir, portanto, as ladeiras do Convento da Penha torna-se mais do que uma atividade religiosa para o cristão-católico. É, para todo turista, o contato com a história do Brasil e com um capítulo vergonhoso de nosso passado: a escravidão. É o contato com o trabalho e o suor de tantos homens e mulheres negras que antes de nós deram – literalmente – a vida para construir o Convento da Penha e possibilitar hoje a visitação que tantos realizam diariamente. É também um gesto de gratidão.

Serviço
São celebradas missas diariamente no Convento da Penha
De segunda a sexta-feira
6h, 7h, 8h, 9h30 e 15h
Sábado
6h, 7h30, 9h, 11h e 15h30
Domingo
5h, 7h, 9h, 11h, 14h e 16h
Missa da Saúde (Campinho)
2ª quarta-feira do mês – às 15h
Sala dos Milagres
Diariamente: das 8h às 16h45
Portão de Acesso
De segunda a sábado: das 5h15 às 16h45
Domingo: das 4h15 às 16h45

Endereço
Rua Vasco Coutinho, s/n°
Prainha – Vila Velha – ES – CEP 29100-231
Telefone: (27) 3329-0420




Fonte: Fc edição 979, Julho de 2017
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

O criador dos Hobbits
Ele criou um universo de fantasia que encanta até hoje. John Ronald Reuel Tolkien
Passado brasileiro
Escavações arqueológicas no Rio de Janeiro revelam que a cidade é mais do que praias e belezas
Sri Lanka, uma gota
Um dos países mais inusitados do planeta se situa ao sul da Índia, tem forma de lágrima
Roteiro das uvas
A cidade de São Roque (SP) encanta pelo clima familiar, ótimos restaurantes e a produção de vinhos
Paulo, Apóstolo de Cristo
O filme nos fornece informações sobre a vida de Paulo, este homem apaixonado por Deus e seu Reino
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados