Educação que vem de casa

Data de publicação: 16/07/2018



Por, Rosangela Barboza
           
Delegar a educação dos filhos às escolas se tornou comum nos dias de hoje. Porém, as escolas não devem e nem podem ter essa função, que é missão da família, na qual os afetos estão presentes
Educação vem de berço. Essa frase não é nova e sempre traduziu em poucas palavras a responsabilidade da família pela educação dos filhos. Mas os tempos eram outros: em geral, as mães cuidavam do lar e os pais trabalhavam fora. E hoje, século 21, de quem é essa missão? Afinal, o modelo de família mudou: as mulheres trabalham fora, seja por opção ou por força da conjuntura econômica, e boa parte cria os filhos sozinha. Segundo dados divulgados em 2015, na pesquisa do Instituto Data Popular, o Brasil tem 67 milhões de mães. Dentre elas, 31% são solteiras (cerca de 20 milhões) e 46% trabalham. E ainda em algumas famílias não há a figura materna, e os pais ou outros familiares, como avós e tios, são responsáveis pelas crianças. 
Assim, uma situação muito comum é que os filhos, desde pequenos, já estão sob os cuidados de outros parentes, de babás ou escolas. Porém, o sinal vermelho se acende quando os pais ou outros responsáveis pela criança delegam à escola a tarefa de educar. “A conjuntura econômica em que vivemos induz, de certa forma, as famílias a terem menos tempo para seus filhos”, ressalta Ana Paula Cordeiro, professora e doutora assistente do Departamento de Didática da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Marília (SP). “A escola cumpre um papel muito importante na questão educacional, pois as crianças têm ficado lá por mais tempo. Só que, nesta chamada terceirização, é preciso esclarecer quais são os limites da escola e qual papel cabe aos pais ou familiares.
A educadora se reporta à Constituição Brasileira, artigo 205, no qual está estabelecido que a educação é dever do Estado e da família. “Há pais que, talvez pelo desconhecimento, dizem que a escola deve oferecer tudo. Mas não é assim. A escola tem o dever de oferecer todo conhecimento cultural e científico, trabalhando também os valores, temas transversais e várias questões atuais que precisam ser desenvolvidas de maneira sistemática e científica”, explica. E à família “cabe o papel de uma educação mais ampla, onde os afetos estão mais envolvidos, que vise à formação do campo dos valores, moral e convivência social”, comenta ela, defendendo maior diálogo e parceria entre pais e escolas, para promover uma educação completa. De acordo com a educadora, tudo se complica quando as famílias, por inúmeros motivos, compram a ideia de que a escola deve trabalhar com tudo. “Essa mentalidade deve ser desconstruída o tempo todo, pois na verdade escola e família precisam caminhar juntas.”
Para a psicopedagoga Edimara Lima, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), existem alguns pais que delegam essa função pela impossibilidade de fazê-lo, mas eles estão presentes de alguma forma. “Tem a família que sabe que não está presente, mas se torna parceira da escola, e isso passa a ser muito produtivo para a criança, e tem aquela que acredita que escolheu uma boa escola e que isso é o melhor que ela pode oferecer. Nesse caso, o desastre está anunciado.”
 
Um tempo para os filhos – Mesmo com a rotina de mil afazeres, inclusive a vida profissional, é fundamental o tempo para os filhos. “É preciso um mínimo de tempo, pois mais do que a quantidade, a qualidade desse tempo é muito importante”, afirma Ana Paula. “Se trata de compartilhar momentos muito simples, mas gratificantes, onde há chance para florescer o afeto e a proximidade, como ir a um supermercado, preparar os alimentos, fazer uma hortinha”, lembra. “Estimular a criança, dialogar com ela, ouvi-la, valorizar seus trabalhos escolares também é muito importante e pode ser feito em conversas simples, que são muito positivas para a vida da criança.”  A psicopedagoga Edimara faz coro. “É preciso entender que presença não é estar todo o tempo fisicamente ao lado da criança, mas estar presente no dia a dia dela. Acordar uma hora mais cedo para poder ter um café da manhã junto com o filho, por exemplo, também faz diferença. Então a questão é fazer daquele pequeno tempo com o filho um tempo intenso de prazer e companhia”, ressalta. “Há mães que viajam e utilizam a tecnologia para se fazerem presentes”, exemplificou. Não é a presença quantitativa que resolve, é a postura que se tem.”

Escola não é mãe nem pai – Pais devem compreender  que delegar a educação dos filhos a terceiros ou à escola é prejudicial para os pequenos. “O processo de formação que acontece na família é insubstituível”, ressalta Ana Paula. “Por mais que dentro da escola haja afeto, a figura do professor e educador não substitui a formação mais profunda e o afeto que pais e responsáveis oferecem à criança.” A pedagoga lembra que na escola todos são passageiros, e os professores podem mudar a cada ano. “É importante que a criança tenha a segurança de que existem pessoas que a amam, a olham e a educam e que não são passageiras. Pessoas que lhe dão segurança e aporte para a vida”, esclarece.
A psicopedagoga Edimara lembra algumas reações das crianças diante da ausência da família. “Há crianças que ficam doentes fisicamente, porque sabem que em caso de dor física a escola vai entrar em contato com a mãe. Quando elas percebem que isso funciona, começam a fazer mais vezes, de forma sistemática, podendo até chegar à doença psicossomática, fazendo com que a família se torne presente, nem que seja para ir à farmácia para comprar um remédio”, conta. “Há casos de crianças que começam a incomodar, fazendo coisas que afetam os pais. O rendimento escolar, por exemplo, pode se tornar uma arma na mão delas. Na verdade, é uma forma de pedir socorro.”


Valéria, mãe e educadora
A paulista Valéria Aparecida da Silva tem 34 anos, é funcionária pública e mãe de uma turminha: Raphael, 12 anos, Henrique, 10, Maria Eduarda, 8, e Gabrielle, 5. Divorciada há quatro anos, arranja fôlego para trabalhar, cuidar da casa e da educação dos filhos. E tem dado certo. Já sabem de suas responsabilidades, são queridos na escola e em casa, um ajuda o outro. “Desde quando meus filhos estavam na creche, eu tenho o costume de conversar com as professoras deles e participar de todas as reuniões. Hoje sou membro da comissão de pais da escola. Sempre fui rígida quando o assunto é educação e deveres escolares. Eu os preparei para ir à escola, conviver com outras crianças e a respeitar os professores e funcionários. Eu creio que a responsabilidade de enviar um ‘cidadão” para a escola é dos pais. A escola está lá para ensinar a ler, a escrever e orientá-los a seguir um rumo para o futuro, porém cabe aos pais ensinar a eles as regras e as normas, a respeitar as pessoas e viver em harmonia. E, acima de tudo, conscientizá-los de que precisam ir à escola para estudar e ter um futuro melhor.”




Fonte: Fc edição 979, Julho de 2017
Postado por: Família Cristã




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