Amor que não se mede

Data de publicação: 13/09/2018



Por, Rosangela Barboza


Ter um dependente químico na família é sinônimo de sofrimento e desestruturação. A família se sacrifica para ajudar, mas ela própria precisa de ajuda para não adoecer e salvar seu ente querido. E isso, sim, é possível!
“Teve fases em que, todos os dias, meu pai chegava do serviço e íamos de carro atrás do Pedrinho, na favela onde traficava e usava drogas. Às vezes ele vinha com a gente, outras ele fugia de nós. Minha mãe voltava para casa em prantos, pois ele é o caçulinha, e tudo aquilo estava matando a gente por dentro.” Essas cenas fazem parte da memória de Denise Silva Gonçalves Reis, de 36 anos. Quem já teve ou tem um familiar dependente de drogas ou álcool se identifica com a situação. Denise é a irmã mais velha de Pedro Silva Gonçalves, de 32 anos, o Pedrinho, que, mesmo tão jovem, teve parte da vida passada no mundo das drogas.  Hoje, Pedro está recuperado. Há pouco mais de dez anos, deixou tanto sofrimento para trás, decidido a ter uma vida saudável e feliz. Porém, não foi fácil, e, se não fosse o apoio da família, talvez esse caminho nem mesmo existiria. O pai Paulo, a mãe Cida e irmãos ficaram juntos para, literalmente, salvar a vida do caçula. “Eles tiveram participação muito importante na minha recuperação. Minha família foi fundamental para conquistar a sobriedade. Se não a tivesse ao meu lado, seria um outro caminho, muito mais difícil e nem sei se estaria aqui hoje”, conta.
Pedro começou a usar drogas ainda adolescente, lá pelos 12, 13 anos. A família vivia na zona leste de São Paulo, num bairro humilde, onde, já naquela época, as más influências e o consumo entre jovens, assim como o tráfico, eram bem comuns. Primeiro foi o cigarro, a maconha, o álcool e, depois, a cocaína.  O “fundo do poço”, segundo ele, foi uma longa fase, que durou até os 17 anos. “A minha dependência desestruturou a minha vida e a de toda a família. Saí da escola, perdi a saúde, a dignidade, a moral”, lembra ele. “Com as drogas, eu me escravizei. Não tinha convívio com a família e estava à margem da sociedade, onde fui adquirindo comportamentos e atitudes que não faziam parte do meu caráter e da minha formação familiar.” Para ter dinheiro e sustentar o vício, Pedro aprendeu a desonestidade, a mentir e a manipular. E chegou a roubar. Quando tinha 16 anos, os familiares se deram conta de que a sua vida corria risco, tal o grau de dependência. Foi preso na antiga Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem). “Foi difícil aceitar e encarar toda a situação, pois ele era muito novo e no momento a gente não tinha preparação nenhuma para passar por tudo aquilo”, relembra a irmã Denise, que teve o papel de direcionar a família.  “Precisei tentar achar solução. Minha mãe estava com problemas de saúde e meu pai tinha que trabalhar e se sentia muito perdido. Eu tentava acalmar a todos, querendo entender aquele mundo de dependência que meu irmão vivia”, conta ela. “Eu sabia que aquele vício iria levá-lo à morte. Teve uma noite que meus pais conseguiram trazê-lo para casa. Estava magro, cheirando mal, sem tomar banho há dias, com o nariz todo estourado de tanto usar drogas e delirava. A gente limpou ele, colocamos remédio nas feridas e ajoelhamos à sua volta, choramos e pedimos que Deus tomasse os caminhos dele em suas mãos e nos desse uma direção. A família em nenhum momento pensou em desistir dele e tínhamos muita fé que tudo iria dar certo. Reunimos as forças e começamos a agir.”, relembra a irmã.
Nessa época, a família começou a procurar ajuda e informações nas comunidades terapêuticas. Então, aos 17 anos, depois de ser preso pela segunda vez, os familiares o internaram numa comunidade terapêutica, em Caçapava (SP). E lá, Pedro, com o apoio familiar e com a consciência de que precisava sair das drogas, literalmente renasceu. “Foi um sofrimento muito grande por causa da abstinência, e eu não aceitava a disciplina. Mas aos poucos passei a ter contato com o grupo, com a espiritualidade cristã, seguir os passos da sobriedade e toda a programação que a casa oferecia, incluindo o aprendizado do amor-próprio e ao próximo e cuidado com a família. Meus pais e irmãos também buscaram ajuda. Estavam doentes, tinham feridas abertas, e precisaram mudar atitudes para me ajudar a mudar”, recorda Pedro.

Recomeçar em família – Ele ficou de 2002 a 2009 em Caçapava. Dez meses depois do início do tratamento, já estava bem melhor, tanto que começou a ajudar a casa, como voluntário. Com o tempo, passou a ter atividades fora da casa, e a estudar, fazer cursos profissionalizantes. Estava voltando ao convívio social. Não houve recaídas. “O medo de voltar ao que era sempre existiu e tenho que ficar vigilante o tempo todo”, lembra ele. Ao sair de lá, não poderia voltar a São Paulo, onde morava, por causa dos riscos de recaídas.  Foi nesse momento que a família resolveu se unir e recomeçar uma nova vida, com Pedro, em São José do Rio Preto, interior paulista. “Mudar de cidade foi o ponto alto na história da nossa família. Deixar tudo para trás e recomeçar do nada para ver uma vida recuperada. Olhando hoje para trás tenho um sentimento que fiz tudo o que deveria fazer e faria tudo de novo. Todos nós temos um sentimento de vitória, sempre que lembramos de tudo isso. Meu pai sempre brinca que Pedro é um ex-combatente de guerra e achamos graça. Sim, somos todos sobreviventes de uma guerra contra as drogas”, ressalta Denise.
Na nova cidade, a família e o próprio Pedro continuaram engajados com grupos terapêuticos, como o Amor Exigente (https://amorexigente.org.br), onde Pedro é voluntário e palestrante. Ele, hoje, está para se formar em Psicologia, atua em grupos de prevenção e recuperação, como o Renova Vida (http://renovavida.com.br) e já atende como profissional terapeuta. “Eu me apaixonei pela minha profissão. Como psicólogo, posso dar de volta o que recebi, auxiliando pessoas que estão onde eu estive a encontrar novos caminhos”, comemora ele.

Amor que exige – Quem teve ou tem uma pessoa viciada na família sabe: ao mesmo tempo em que há um esforço para salvá-la do vício, há um processo doentio, em que todos precisam de ajuda, inclusive a própria família. E se ela quer tirar a pessoa das drogas, também precisa se cuidar. “A família adoece por conta do desequilíbrio emocional que o dependente químico provoca. Ela fica desestabilizada, assustada e adquire doenças como estresse, depressão e outras patologias por conviver com a instabilidade do dependente químico, que afeta as pessoas ao redor, direta ou indiretamente. E não adianta a família fugir do problema. O ideal é reconhecer que ele existe e buscar ajuda”, explica Pedro.
No mês de abril, a regional do Amor Exigente em São José do Rio Preto completou 25 anos de trabalho. Tudo começou por iniciativa do casal Anísio Gimenes, de 72 anos, e da esposa, Hermelinda, que foram buscar ajuda para tirar o filho menor das drogas. Deu certo, mas a família não parou e fundou o Amor Exigente na cidade para ajudar outras famílias e seus dependentes. “A família é de grande importância no processo de recuperação de um dependente químico. Às vezes temos a ideia de que só o dependente é doente e precisa de ajuda, mas a família fica desestruturada, perde o controle, não vê alternativas. O tratamento é para o recuperando e para sua família. Nos grupos terapêuticos, onde há profissionais especializados e outras famílias com os mesmos dramas, elas se fortalecem mutuamente para enfrentar as dificuldades e podem ajudar o seu dependente”, afirma Gimenes, acrescentando que há sim uma luz no fim do túnel.
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Fonte: Fc edição 989, Maio de 2018
Postado por: Família Cristã




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