Paulo, Apóstolo de Cristo

Data de publicação: 04/10/2018


Por, Zuleica Silvano, fsp

O filme nos fornece informações sobre a vida de Paulo, este homem apaixonado por Deus e pelo seu Reino, e sobre as primeiras comunidades

“O amor é o único caminho”, este é o tema que perpassa o filme Paulo Apóstolo de Cristo, do diretor Andrew Hyatt. O relato, baseado na segunda Carta a Timóteo, narra os últimos dias de vida de Paulo, interpretado por James Faulkner. Enquanto o Apóstolo está preso no Cárcere Mamertina em Roma, aguardando sua execução, Lucas (Jim Caviezel) arrisca sua vida para visitá-lo, consolá-lo e informá-lo sobre a comunidade de Roma. A prisão está sob o comando de Maurício Gallas, um renomado oficial militar. Este personagem passa por uma crise religiosa pelas inúmeras tentativas em obter a cura de sua filha moribunda, por meio de médicos, oração e sacrifícios dedicados aos deuses.
O roteiro situa-se no ano 67 depois de Cristo (d.C.), período marcado pela perseguição desumana de Nero contra os cristãos, e apresenta as reações e as alternativas dos membros da comunidade cristã, para enfrentar as atrocidades e a sede de poder desse imperador. Dentre as alternativas, há a de Cassius, que tenta convencer a comunidade a adotar violência contra Nero, provocando uma rebelião ou aliando-se a grupos poderosos para tomar o poder. Outra possibilidade é a de Áquila, ao propor deixar Roma e fugir para outra cidade, como uma forma de manter-se vivo. Priscila resiste à opinião de seu marido, Áquila, ao recordar os ensinamentos de Paulo e a necessidade de perseverar, a fim de manter a esperança de que vale a pena acreditar no Evangelho e porque são os únicos dispostos a proteger os órfãos e as viúvas.
Lucas, apesar de seu contato com Paulo, tem dúvidas sobre a importância de persistir no amor, ao presenciar os corpos em chamas servindo de luminárias nas ruas e a cidade banhada pelo sangue de cristãos. Paulo, o personagem principal, é convicto de sua adesão a Cristo, mesmo após a condenação à morte, e relembra os fatos do seu passado como perseguidor dos cristãos, de sua experiência de encontro com Cristo na estrada de Damasco e de suas viagens missionárias. O roteirista acentua o lado humano de Paulo, um homem idoso, preso, sozinho, no final de sua vida, coerente com sua opção a Cristo. Alguém que não tem o caminho já preestabelecido, mas que luta, duvida, sofre, reconhece seus erros e limites, confia, discerne o caminho a seguir, escutando os sinais de Deus diante dessa realidade opressora. Pela visão dos cristãos, representada por Maurício, Paulo é simplesmente “um homem que tem uma história marcada por açoites e por prisões empoeiradas”, um fracassado; e avalia a pregação do Evangelho como uma forma de manter o povo alienado e o pobre passivo diante de seu sofrimento. Nota-se também a sensibilidade entre as comunidades fundadas por Paulo ao enviarem ajuda econômica e acompanharem os irmãos da comunidade de Roma por meio da oração.

Perspectiva teológica – O diretor é ousado em suas interpretações, sendo capaz de trazer elementos inovadores, de priorizar aspectos importantes da vida de Paulo e de partir de uma premissa catequética. Destacam-se a alegria em meio à violência, o paralelo entre a fidelidade de Jesus ao projeto do Pai e a de seus seguidores; o protagonismo das mulheres na condução da comunidade; a importância da comunidade; o seguimento a Jesus Cristo; o perdão; a gratuidade do amor divino; o anúncio universal do Reino de Deus; e o amor ao próximo e ao inimigo. Um ponto a ser enfatizado é o papel fundamental de pessoas que retomam e indicam o que é essencial para manter a fé, diante de um contexto de dor e opressão, dado que a tendência é optar para o que é mais fácil e não perseverar no Caminho.
A decisão de Paulo de perseguir os cristãos, retratada no filme, surge a partir do martírio de Estêvão e de seu discurso, que pode ser sintetizado em duas afirmações: 1) Jesus Crucificado é o Messias esperado e 2) Ele é a revelação da presença de Deus, e não o Templo (cf. At 7,1-53). De fato, Paulo persegue os cristãos porque não acredita no messianismo, nem na divindade de Jesus, ao partir da impossibilidade da encarnação do Filho de Deus e de ter um Messias Crucificado, dado que para um judeu todo aquele que é pendurado num madeiro, como é o caso de Jesus, é um maldito (cf. Dt 21,23).
Havia na sinagoga uma medida disciplinar aplicada àqueles que ensinavam contra os princípios judaicos, que era a de açoitá-los em público, para que tomassem consciência de sua infidelidade às tradições judaicas e retornassem ao Deus de Israel. Portanto, Paulo perseguia os judeus, seguidores de Cristo (cristãos), não porque era mal, mas por ser um irrepreensível fariseu e por desejar convencê-los de que Jesus era um impostor e que eles estavam sendo enganados por seus discípulos.
Quanto ao evento do encontro com Jesus, o filme apresenta de forma artística e literal At 9,3-19, quando Paulo na estrada de Damasco “cai por terra” diante da manifestação de Jesus Ressuscitado, conforme as reações humanas perante uma teofania (cf. Ez 1,28). Os companheiros servem para dar credibilidade ao evento e certificar a vontade divina. Ao contemplar este momento fundamental na vida de Paulo, percebemos que no seu chamado também ocorre uma mudança de mentalidade, ou seja, Ele entende que Deus por sua gratuidade e iniciativa revela que Jesus é o Messias e é seu Filho.
A partir dessa revelação, Paulo recebe a missão de anunciar o Evangelho a todos. É uma experiência perpassada por uma luz e uma voz. Ele ouve a voz e é marcado pela luz, é uma experiência pessoal, por isso seus companheiros ouvem a voz, mas não são selados pela luz (ficar cego). Desse modo, o longa-metragem proporciona ao público constatar que a pessoa tocada por Deus é também chamada a deixar seus esquemas preestabelecidos, a se envolver no amor de Deus, e é algo contagiante, porque afeta outras pessoas. No decorrer do filme, observa-se que o diretor não utiliza os relatos presente nas cartas autênticas de Paulo, como Gl 1,11-24, mas mistura a teologia de Lucas e a interpretação da experiência de Paulo em 1Tm 1,11b-17, e não os relatos presentes.

Esta é a única passagem na qual a experiência na estrada de Damasco é relida como uma conversão moral. Desse modo, Paulo torna-se o paradigma, transformando-se de terrível perseguidor, num apóstolo.
Apesar dessa mistura de perspectivas sobre o mesmo evento, é possível recolher um aspecto convergente, que é fundamental: o conteúdo desta experiência é a revelação de que Jesus Crucificado-Ressuscitado é o Messias e é o Filho de Deus, e não somente o receber o perdão e experimentar a misericórdia divina.  Um ponto a ser destacado é a afirmação de que toda adesão a Jesus Cristo é pessoal, livre, comunitária e de que ela não se restringe na Revelação, mas é um chamado para uma missão. Este aspecto aparece no início deste longa, quando a comunidade espera uma decisão de Paulo, por meio de Lucas, sobre como deve agir diante da realidade de opressão, e a resposta é: “Cada um deve tomar a sua decisão” à luz da vontade de Deus. O caminho não está traçado, por isso é necessário escutar e discernir em cada circunstância os sinais de Deus, pessoal e comunitariamente, e assumir as consequências de sua adesão ao Messias Jesus.
Apesar de ser um procedimento inadequado no campo bíblico, o extrair as frases do seu contexto literário (as cartas autênticas de Paulo) e transportá-las para outro contexto cria uma densidade nas palavras do Apóstolo. Isso ocorre, por exemplo, com 1Cor 12,31–13,1, escrito para exortar os coríntios a viver os valores evangélicos a fim de eliminar as competições existentes na comunidade, e que no filme é utilizado para convencer Lucas de que o cristianismo é marcado pelo amor e não pela vingança, num contexto de perseguição e atitudes desumanas. Outro exemplo é a expressão “espinho na carne” (2Cor 2,7), interpretada como sendo a perseguição e sua experiência no cárcere, e não as dificuldades nos relacionamentos comunitários. Apesar de ressaltar a mensagem por serem frases ditas diante de imagens fortes, para compreendê-las, conforme a teologia paulina, é necessário ler e aprofundar as cartas.

Perspectiva pastoral – Do ponto de vista pastoral, o filme aborda um tema fundamental nos dias de hoje: a tolerância religiosa. Ajuda também a fazer memória das vítimas da injustiça de tantos tiranos também em nossos dias e a compreender o contexto de perseguição vivido por tantos mártires na América Latina, que perseveraram no anúncio e no testemunho dos valores evangélicos. De fato, as estatísticas comprovam que no século 20 foram mortos mais cristãos do que no 1º século d.C., e no século 21 parece não ser diferente. O filme também nos fornece informações sobre a vida de Paulo, este homem apaixonado por Deus e pelo seu Reino, e sobre as primeiras comunidades.
Esperamos que ele também possa contribuir para despertar o desejo de aprofundar sobre os Atos dos Apóstolos e as Cartas Paulinas e de trilhar sempre mais o único caminho: o amor. Porém, conscientes de que neste caminho nada é previamente garantido e está sujeito à dificuldade, tempestade, perigo, e todas as vicissitudes, conforme retrata este longa-metragem. Assim, exige audácia, perseverança, coragem, fé. Mas se vale a pena deixar a certeza estéril da estagnação para se aventurar nas veredas das incertezas fecundas do Amor.
                               




Fonte: Fc edição 990, Junho de 2018
Postado por: Família Cristã




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