Quando a fé é espontânea

Data de publicação: 04/10/2018


Por, Gizele Barbosa, fsp                               

Tradição e luta por sobrevivência, cultura e fé, devoção e resistência. Tudo isso é o que ainda hoje expressa o nosso jeito brasileiro de ser cristão

Devoção e resistência. Devoção, que significa “dedicar-se a algo”; e resistência, “propriedade de um corpo que reage”. Diante dessas duas palavras e a partir do sentido que elas evocam, podemos começar a falar de religiosidade ou piedade popular. Primeiramente devemos saber que se trata de expressões de fé, as quais, ainda hoje, ultrapassam os séculos, e nasceram de forma espontânea, fruto da mistura entre cultura, religião e sensibilidade popular. Sendo assim, é diferente do culto litúrgico oficial, e sua essência está estreitamente ligada às necessidades de pedir e agradecer a Deus diante de determinada situação.

Fé encarnada no chão do povo – Olhando para a nossa História, o simples fato de os pobres e humildes não possuírem registros contundentes do próprio caminho de fé é um ponto pelo qual, podemos afirmar, a religiosidade popular tem suas raízes e existe porque desde sempre houve um olhar para o mundo a partir de uma ótica dos pobres e marginalizados. Ao mesmo tempo em que não se tem documento para contar a história da fé que parte dos pobres e pequenos, há de sobra sabedoria popular, religião, tradições e a transmissão disso tudo, baseada, mesmo que superficialmente, naquilo que ao longo dos dias era o motivo da crença do povo.
Portanto, o que chamamos hoje de religiosidade popular caracteriza-se pelas experiências humanas daqueles(as) que deram vida ao jeito brasileiro de ser católico.    Sabemos que a formação do nosso povo é dada diante de uma realidade cultural diversa: indígenas, negros escravizados e brancos europeus nos ajudam a compreender o porquê da necessidade de se ter uma fé que caminha praticamente lado a lado com uma religião oficial.
Na época do Brasil Colônia, temos o catolicismo como religião oficial e obrigatória, e destaca-se o fato de que era praticamente impossível ser brasileiro(a) e não ter pelo menos um grande respeito pelo catolicismo. Portanto, o contexto era de inquisição, colonização e obrigatoriedade religiosa.
Com certeza, não era fácil para indígenas e negros viverem sob um regime escravocrata e de religiosidade imposta. Nem mesmo para os brancos, que em sua maioria vivia um catolicismo superficial baseado em interesses.
Tendo como pressuposto a História, destaca-se ao lado de devoção e resistência a palavra medo. Diante da inquisição portuguesa, é claro que o que vai prevalecer é a aquisição consciente de formas criativas de acreditar em algo que nos transcende. É aí que no Brasil vai se estabelecer, a princípio, por “debaixo dos panos”, uma das mais belas expressões de fé e cultura que nosso povo possui.
A religiosidade popular nasce no Brasil como uma forma de resistência. E, quando falamos popular, de fato o é. Estamos falando das coisas mais comuns do cotidiano de todo católico brasileiro: o santo padroeiro, o oratório em casa, o santo na estrada da cidade, a rezadeira, a capelinha, os santuários, as romarias, os objetos de fé como objetos de proteção, o sinal da cruz, a bênção dos pais, as orações para diversas ocasiões, a visão que se tem das pessoas que vivem com você e também a forma como se relaciona com Ele.

Manifestações populares da fé – Na piedade popular, o que fala mais alto é a autonomia da fé cotidiana e que vai assumindo as seguintes características:
1. Devoção aos santos (canonizados ou não) – Durante a época em que nasceu a piedade popular no Brasil, havia uma concepção de um Deus muito distante do seu povo, “todo-poderoso”, castigador e pouco acessível. A relação povo e santo trata-se, nada mais nada menos, do que uma aproximação ou possibilidade de comunicação pessoal com o Transcendente, o santo está mais próximo do fiel do que o próprio Deus. Existe ali uma aliança preestabelecida antes mesmo do batismo. O santo é o padrinho, o santo é o protetor, o santo é o imediato diante de uma necessidade.
2. Uma espiritualidade identificada com o sofrimento – O presépio e a paixão de Cristo são realidades onde o povo se vê. O sofrimento do Filho de Deus acaba como que sendo um conforto para aqueles que cotidianamente sofriam e ainda hoje sofrem, em sua condição de pobreza e morte.
3. Uma fé baseada em milagres – A falta de assistência médica ao povo, a falta de uma catequese profunda, a imposição de uma fé rasa fazem surgir nesse contexto a procura pela cura e pela santidade adquirida através de produtos religiosos: terços, relíquias e outros objetos que representavam a religiosidade trazida da Europa. Tinham o papel de amuleto, que protegia e representava a intervenção de uma força sobrenatural sobre aquele que o possuía.
4. Irmandades e confrarias – Reuniam certo número de fiéis, geralmente a vizinhança. Um conjunto de celebrações e culto aos santos e às almas. Era um dos principais modos de reunir o povo e assegurar a continuidade da religião. Eram grupos autônomos, não dependiam dos sacerdotes, organizavam festas, procissões e momentos específicos em que o padre, muitas vezes, era somente um convidado.
5. Procissões, ambientes, pastorais – Comemorar o dia do santo protetor ou fazer preces a Deus ganhava um sentido maior se aliado ao sentido do sacrifício, do empenho, do estar junto, a caminho como povo de Deus reunido. Pelos sacerdotes também era uma forma de reunir e acomodar seus fiéis. Mas além de tudo era um ambiente de socialização, manifestação cultural, europeia, negra e indígena. Inserção das realidades diversas em prol de um único objetivo fazer-se ouvido por Deus.
Perguntemo-nos, então: Como seria a nossa fé sem a criatividade nascida da necessidade transcendental do povo? Como sobreviveria tanto tempo um povo pobre, maltratado pelo contexto colonial, excluído e marginalizado? Como a sociedade brasileira atual estaria sem a interpretação religiosa e social do povo dos primeiros séculos de sua história?
   
As muitas expressões da fé – Observemos a fé do nosso povo hoje. No Ceará, Canindé e Juazeiro do Norte, com São Francisco e o Padrinho Cícero; no Pará, o fenômeno Círio de Nazaré; em São Paulo, Aparecida, as romarias de multidões; em Pernambuco, a devoção à Imaculada Conceição; em Minas Gerais a devoção à Paixão, na Bahia, ao Bom Jesus dos Aflitos, do Bonfim; no Paraná, ao Bom Jesus da Cana Verde, ao Senhor Morto... As festas juninas, com seus santos populares, o pau de sebo de São Sebastião, o pão de Santo Antônio, o café de São Benedito, e por aí vai...
Devoção e resistência, tradição e luta por sobrevivência, cultura e fé. Tudo isso é o que ainda hoje expressa o nosso jeito brasileiro de ser cristão, de amar o que é de Deus e acolher como nosso. E mesmo que ainda exista a falha da catequese inicial, hoje, num mundo pós-moderno, como podemos melhorar a qualidade da nossa fé sem deixarmos de associá-la ao sentimental e concreto da vida? Simples, tudo isso é bom, útil e válido quando unido à prática evangelizadora de Cristo, revelador do Amor de Deus que é Pai e Criador.
Só assim, depois de mais de 500 anos, continuaremos a dar passos sem deixar que a nossa fé seja como sabemos que é: popular, resistente, autêntica, firme, fruto da misericórdia de Deus que nunca abandonou seus filhos, nem na pobreza, nem no sofrimento, nem na ignorância... Deus que deu criatividade para o reconhecê-lo nas coisas simples e, a partir disso, ter sinais de felicidade.
A fé nasce e renasce no meio do povo todos os dias, só precisamos, como os nossos antepassados, redescobrir em Cristo que a razão de tê-la é sempre o bem e o outro.




Fonte: Fc edição 990, Junho de 2018
Postado por: Família Cristã




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