Papa, povo e os bispos

Data de publicação: 08/10/2018

Papa, povo e bispos no caminho do discernimento


Por, Moisés Sbardelotto


“Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta, na consciência de que escutar é mais do que ouvir”, papa Francisco)

“Não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios.” Assim afirmava o papa Francisco em 2013, na exortação apostólica Evangelii Gaudium (n. 16). E isso se tornou ainda mais atual nas últimas semanas, em relação a duas questões de grande relevância que envolvem as Igrejas do Chile e da Alemanha, de modo particular. Em ambas, o papa não quis decidir sozinho sobre os problemas específicos de cada país, mas quis envolver as Igrejas locais no caminho comunitário do discernimento.
No caso chileno, o que está em jogo são os abusos sexuais praticados por clérigos, especialmente pelo padre Fernando Karadima, declarado culpado pelo Vaticano em 2011 e condenado a se retirar a uma vida de “oração e reflexão”. Junto com sua condenação, também foi dissolvida a Pia União Sacerdotal do Sagrado Coração, fraternidade fundada por Karadima, na qual foram formados vários padres e bispos chilenos.
Um desses bispos é dom Juan Barros, nomeado por Francisco em 2015 para a Diocese de Osorno, apesar das acusações de ter acobertado os abusos cometidos pelo seu mentor Karadima. A nomeação gerou grandes manifestações na Igreja local, a ponto de o próprio dom Barros ter apresentado várias vezes sua renúncia ao papa, que não a aceitou, dizendo se tratar de “calúnias”. Francisco afirmou não ter recebido até então quaisquer evidências que comprovassem a culpa do bispo, mas disse estar disposto a receber mais testemunhos sobre o caso.
Logo após seu retorno a Roma, a Santa Sé informou que haviam sido recebidas outras informações sobre o caso Karadima-Barros. Então, em fevereiro, o papa enviou ao Chile o arcebispo de Malta, dom Charles Scicluna, membro da Congregação para a Doutrina da Fé e um dos maiores especialistas no combate à pedofilia na Igreja.
Após ter recebido o relatório de dom Scicluna, o papa enviou uma importante Carta aos Bispos do Chile, datada de 8 de abril. No texto, o pontífice revelou ter recebido mais de 2.300 páginas de documentos sobre “algumas feridas que continuam a sangrar no conjunto da sociedade chilena”, revelando “vidas crucificadas” que lhe causam “dor e vergonha”.

Francisco pede perdão – Na mesma carta, Francisco reconheceu ter incorrido “em graves equívocos de avaliação e percepção da situação” e pediu “perdão a todos aqueles que ofendi”. Além disso, solicitou humildemente a colaboração e assistência dos bispos no “discernimento das medidas que deverão ser adotadas em curto, médio e longo prazo para restabelecer a comunhão eclesial no Chile, a fim de reparar o escândalo na medida do possível e restabelecer a justiça”.
No fim de abril, o papa recebeu no Vaticano três vítimas de Karadima, Andrés Murillo, James Hamilton e Juan Carlos Cruz. Em conversas individuais de mais de duas horas cada, Francisco ouviu seus relatos pessoais e pediu-lhes perdão. Depois, convocou todo o episcopado chileno ao Vaticano, entre os dias 15 e 17 de maio. O encontro visou a examinar em profundidade as causas e as consequências dos abusos, assim como os mecanismos que levaram ao seu acobertamento e omissões em relação às vítimas. Segundo a nota, trata-se de um longo processo sinodal desejado pelo papa, para “discernir juntos, na presença de Deus, a responsabilidade de todos e de cada um nessas férias devastadoras”.

Comunhão na diversidade – Algo semelhante ocorreu em relação à Igreja da Alemanha. Na recente sessão plenária da Conferência Episcopal do país, de 19 a 22 de fevereiro, os bispos votaram majoritariamente pela aprovação de um subsídio pastoral sobre a “participação comum na Eucaristia”. O texto aborda a possibilidade de que o cônjuge protestante casado com um fiel católico também possa receber a comunhão. Embora tendo sido aprovado por mais de três quartos dos bispos alemães, sete deles não concordaram com o documento e se dirigiram ao Vaticano para esclarecer se essa questão podia ser decidida localmente ou se deveria envolver um posicionamento do próprio papa.
Conforme o desejo de Francisco, foi realizada uma reunião entre alguns dos principais bispos alemães com algumas autoridades da Santa Sé, no dia 3 de maio. De acordo com uma nota da Santa Sé, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, dom Luis Ladaria, afirmou na reunião que o papa Francisco “aprecia o empenho ecumênico dos bispos alemães e pede-lhes que encontrem, em espírito de comunhão eclesial, um resultado possivelmente unânime”.
Tanto no caso chileno quanto no alemão, Francisco não se arrogou o “poder ordinário, supremo, pleno, imediato e universal” sobre a Igreja, como afirma o Código de Direito Canônico (Cân. 331). Sobre ambas as questões, Francisco não quis bater o martelo sozinho, de modo monocrático. Ao contrário, como disse na Evangelii Gaudium, o pontífice revelou “a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’” da Igreja.

Bispo entre os bispos – Trata-se, no fundo, da sinodalidade. “Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta, na consciência de que escutar é mais do que ouvir. É uma escuta recíproca, em que cada um tem algo a aprender. Povo fiel, Colégio Episcopal, Bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, o Espírito da verdade”, afirmou Francisco, no aniversário de 50 anos da instituição do Sínodo dos Bispos. Em uma Igreja sinodal, continuou, “o papa não está sozinho acima da Igreja; mas dentro dela, como batizado entre batizados, e dentro do Colégio Episcopal, como bispo entre os bispos”.
Para Francisco, a Igreja é como uma “pirâmide invertida”, em que o papa deve se colocar abaixo da base, a serviço dela. Como o apóstolo Pedro, ele é, sim, a “rocha”, aquele que deve “confirmar” os irmãos na fé, mas, ao mesmo tempo, como “ministro”, ele também deve ser o menor no meio de todos. É servindo o Povo de Deus que o papa se torna “vicarius Christi, vigário daquele Jesus que, na Última Ceia, se ajoelhou a lavar os pés dos Apóstolos”, afirmou Francisco, no mesmo discurso.
Nesse horizonte, “o Sucessor de Pedro nada mais é do que servus servorum Dei, o servo dos servos de Deus. Nunca nos esqueçamos disso! Para os discípulos de Jesus, ontem, hoje e sempre, a única autoridade é a autoridade do serviço, o único poder é o poder da cruz”.
Por meio do encontro, da escuta e do diálogo entre todos, Francisco desafia a Igreja a ser madura, adulta e capaz de tomar as próprias decisões, a partir do discernimento sobre a realidade local, em prol de todo o povo de Deus.




Fonte: Fc edição 990, Junho de 2018
Postado por: Família Cristã




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