Potencial desperdiçado

Data de publicação: 26/10/2018



Por, Nathan Xavier
Potencial desperdiçado

 
O suicídio é uma crescente preocupação para muitos países e, no Brasil, infelizmente, os números aumentam a cada ano
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é responsável por uma morte a cada 40 segundos no mundo, e é a segunda principal causa de morte entre jovens com idades de 15 a 29 anos. No Brasil, são 32 mortos por dia, taxa maior se comparada à das vítimas de Aids e da maior parte dos tipos de câncer. Alguns sinais podem ajudar a evitar casos de suicídio, como aponta o psiquiatra dr. Neury José Botega (foto), professor livre-docente e titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo (SP), fundador da Associação Brasileira de Estudos de Prevenção de Suicídio (ABEPS) e assessor científico do Centro de Valorização da Vida (CVV). Para evitar a maioria dos casos de suicídio, dr. Neury sugere a memorização do acrônimo ROC, que ele explica nesta entrevista exclusiva à revista Família Cristã, além de abordar a diferença entre tristeza e depressão e as ferramentas disponíveis para ajudar um possível suicida.

FC – É melhor falar de suicídio ou não falar? A mídia também deve divulgar esse tipo de informação?
Dr. Neury Botega – Claramente é melhor conversarmos sobre suicídio. Se não o fizermos, fomentando um tabu que existe em nossa sociedade, teremos a impressão de que o problema não existe! Diariamente, dezenas de pessoas põem fim à vida em nosso País. O número trágico de mortes, a cada dia renovado, ganharia destaque nos meios de comunicação se não fosse ele decorrente de um assunto tabu: o suicídio. A dor desse tipo de falecimento é silenciada na vida das pessoas e ocultada na história das famílias.  Um tabu social tende a ocultar a realidade do suicídio. No entanto, além do drama íntimo e pessoal, vem a ser, também, um problema de saúde pública. Nós precisamos conversar sobre isso.

FC – Trata-se de um problema sério no Brasil? Na sociedade atual, quais fatores contribuem para que tenhamos um aumento no número de suicídios?
Dr. Neury Botega – É um problema muito sério e de maior magnitude do que a maioria das pessoas imagina. A cada dia, em nosso País, 32 pessoas põem fim à própria vida. Essa cifra está subestimada em pelo menos 20%. Uma parcela dos acidentes e das pessoas encontradas mortas - mortes sem intenção determinada, como consta nos atestados de óbito – decorre de suicídios que não são registrados como tais. A média nacional esconde outra realidade: em certas localidades e em alguns grupos populacionais, como agricultores gaúchos, jovens indígenas e forças policiais, os índices desse tipo de morte são pelo menos cinco vezes maiores.

FC – O que leva uma pessoa a cometer esse ato? É possível prevenir?
Dr. Neury Botega – O suicídio é decorrente de uma combinação de fatores, desde os genéticos, ambientais, os transtornos mentais e estresses atuais. É incorreto falar em causa única. A vinculação com um transtorno mental é observada na maioria dos casos de suicídio. Não se trata de afirmar que todo suicídio se deve a um problema mental. No entanto, quando reunimos informações de grande número de casos ocorridos na população, verifica-se que um transtorno mental está presente na maioria desses casos. É um elemento quase obrigatório, ainda que insuficiente, para o suicídio. Isso por diversas razões: a condição clínica leva à estigmatização, diminui a adaptação funcional e a qualidade de vida, frequentemente provoca instabilidade de humor e sentimentos dolorosos, além de representar um ônus emocional e financeiro para o indivíduo e sua família. Um transtorno mental, em síntese, predispõe a vários estressores. Diagnóstico tardio, carência de serviços de atenção à saúde mental, falta ou inadequação do tratamento, tudo isso agrava a evolução da doença e, em consequência, o risco de suicídio. A prevenção desse mal, ainda que não seja tarefa fácil, é possível. Há várias estratégias exitosas, como por exemplo a conscientização da população a respeito do problema, a restrição de acesso a meios letais, a disponibilidade de serviços de atendimento de crises, o treinamento de profissionais de saúde para detectar e tratar transtornos mentais, bem como a atenção dedicada às pessoas que tentam o suicídio. No Brasil destaca-se o Centro de Valorização da Vida (cvv.org.br, telefone 188). Não podemos silenciar sobre a magnitude e o impacto desse problema em nossa sociedade. Não todas, mas muitas mortes poderiam ser evitadas.

FC – Há adolescentes que são naturalmente mais quietos, tímidos. Os pais por vezes ficam preocupados. Eles têm razão ou há outros sinais mais importantes? Quais são os possíveis sinais de que uma pessoa pode cometer suicídio?
Dr. Neury Botega – Essa pergunta, embora tão compreensível, é de difícil resposta. Cada caso é um caso. Listo alguns sinais que podem ser observados em jovens (veja boxe à pág...). Mas eles são inespecíficos, pois podem indicar a presença de sofrimento mental e, não necessariamente, risco de suicídio. O importante é estar atento a frases, postagens, mudanças no padrão de comportamento.


Sinais de alerta
Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
Comportamento ansioso, agitado, ou deprimido
Piora do desempenho na escola, no trabalho, em outras atividades que costumava manter
Afastamento da família e de amigos
Perda de interesse em atividades de que gostava
Descuido com a aparência
Perda ou ganho inusitados de peso
Mudança no padrão usual de sono
Comentários autodepreciativos persistentes
Comentários negativos em relação ao futuro, desesperança
Disforia marcante (combinação de tristeza, irritabilidade, acessos de raiva)
Comentários sobre morte, sobre pessoas que morreram, interesse por essa temática
Doação de pertences que valorizava
Expressão clara ou velada de querer morrer ou de pôr fim à vida
Fonte: Crise Suicida – Avaliação e Manejo, de Neury Botega, Editora Artmed, 2015.


FC – Há pessoas que dizem que depressão é frescura. Outras dizem que falta mais responsabilidade e certo “choque de realidade” às crianças, o que pode levar a uma falta de força de vontade ao encarar as dificuldades na adolescência. Isso procede?
Dr. Neury Botega – É totalmente improcedente. A depressão acomete pessoas otimistas, fortes e laboriosas. Quem usa esses argumentos desconhece totalmente a realidade de quem se encontra sofrendo de uma doença chamada depressão. O assunto vem me preocupando bastante. Por isso decidi escrever um livro destinado a pacientes deprimidos e seus familiares, que trata da diferenciação entre tristeza e depressão, bem como das formas de se ajudar uma pessoa acometida por esse mal. O livro se chama A Tristeza Transforma, a Depressão Paralisa. Sairá pela Editora Saraiva (selo Benvirá) no início de setembro.

FC – E qual a diferença de tristeza e depressão?
Dr. Neury Botega – Se alguém diz “ando meio deprê...”, em geral pensamos em um período de tristeza, um baixo-astral circunstancial e passageiro. Repare bem, não é o que acontece com pessoas com depressão! Elas sofrem o impacto de um estado mental que se instala, que muda a maneira de ser e de olhar o mundo. Trata-se de uma doença que tem base biológica e hereditária. O termo depressão tem esses dois sentidos: de tristeza e de doença. É fundamental diferenciar uma coisa da outra. A depressão-tristeza é diferente da depressão-doença. A primeira faz parte da vida, tem um potencial transformador. A depressão é paralisante, precisa de um tratamento específico. O baixo-astral da depressão é intenso e persistente. Faz a gente se sentir muito diferente do que era antes (veja boxe à pág...).

FC – Há casos em que a pessoa não demonstra nada?
Dr. Neury Botega – Sim, há casos de suicídio em que a pessoa pode tirar a própria vida sem que tivesse dado sinais de sua intenção.

FC – Como ajudar? Como abordar um potencial suicida?
Dr. Neury Botega – Pergunta simples, resposta complexa. De modo simplificado, podemos dizer que três passos devem ser dados com o intuito de se prevenir um suicídio, a partir do acrônimo ROC): Risco. O primeiro passo é a própria suspeita do risco de uma pessoa vir a se matar. Parece óbvio, mas às vezes isso não nos vem à mente. Com sensibilidade, devemos perguntar sobre ideias de morrer, de se matar. Ouvir. O segundo passo é ouvir com atenção e respeito, sem julgar, recriminar e nem se apressar em preleções morais ou religiosas. Para que essa aproximação aconteça, alguns preconceitos em relação ao suicídio precisam ser desfeitos.
Conduzir. O terceiro passo é conduzir a pessoa até um profissional de saúde mental, ou seja, não ficar paralisado. Para quem se encontra fragilizado e sem esperança, a iniciativa de buscar ajuda geralmente não se dá espontaneamente.
 
FC – Onde procurar ajuda?
Dr. Neury Botega – O CVV tem sido, no Brasil, um grande aliado na prevenção do suicídio. Há o telefone 188 e também o chat: cvv.org.br. Serviços de saúde mental deveriam estar disponíveis para atender pessoas em crise suicida. Infelizmente, ainda temos que chegar a esse desejado nível em nosso País.

FC – A religião pode ajudar ou não?
Dr. Neury Botega – A religião pode ajudar transmitindo acolhimento, esperança, apoio. A religião pode atrapalhar quando é taxativa e proibidora de um comportamento baseado em livre escolha.

FC – O processo do luto depois de um suicídio é diferente de outro tipo de morte?
Dr. Neury Botega – Sim, bem diferente, mais doloroso e difícil. Há confusão de sentimentos e perguntas que não saem do pensamento. Isso traz muito sofrimento. Pessoas que vivem o luto pelo falecimento do suicídio de uma pessoa querida muitas vezes precisam de ajuda psicológica.








Fonte: Fc edição 991, Julho de 2018
Postado por: Família Cristã




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