Anjos diferentes

Data de publicação: 01/11/2018

Filhos com deficiência e anjos diferentes

Por, Alvício Thewes e Cleusa Thewes
 
 O amor encontra alternativas para os desafios e perplexidades da vida. Pais comentam o quanto seus filhos com deficiência são doces, ternos e carinhosos

Mauro, 75 anos – Homem forte, casado com Regina há 55 anos. O casal tem três filhos legítimos e uma menina adotada. Narrando sua jornada de vida, Mauro e Regina se focaram no filho mais velho, o Ícaro, 52 anos, como se o mundo familiar girasse ao redor dele.
Ícaro nascera lindo, saudável, como sonhado pelos pais. Por um breve ano, fez a felicidade da família. Tinha essa idade quando a paralisia infantil se apossou dele e lhe trouxe sequelas mentais, tornando-o deficiente, cognitiva e emocionalmente. Os anos passaram. Ícaro se tornou um homem grande, mas com idade cognitiva de cinco anos, eterno menino. Os médicos previram uma idade-limite para Ícaro: 30 anos. Contudo, ele acaba de completar 52 anos.
Quando o menino foi acometido pela paralisia, Mauro, no desespero, manifestava, quase que diariamente, sua revolta com Deus:  “Deus, por que isto comigo...” Hoje, 52 anos depois, ele se volta para Regina e diz:  “Nós temos um anjo em nossa casa”.
À noite, deitado ao lado do pai, Ícaro viaja num mundo ficcional só seu. Aviões cruzam os céus em todos os quadrantes; alienígenas invadem a terra; fantasmas e vampiros travam uma luta feroz. Nessas horas, o próprio pai volta às fantasias da infância.
Ícaro é amoroso com os pais, irmãos e sobrinhos. Abraça e beija um por um e ajuda a mamãe em tarefas leves, como o fazem as crianças de sua idade mental. E a família retribui. Todos acolhem esse doce e inocente anjo e cuidam dele.

Bibiana, 14 anos – Meiga menina. Nasceu portadora da síndrome de Down, não diagnosticada em ecografias feitas pela mãe. “Presente de grego”, reagiu o pai. “Deus nos enviou um presente de grego”, disse ele, então, à esposa, tão surpresa, sofrida e ferida quanto ele. Viveram anos duros. E foram muitos. Até gostavam da filha, mas ela lhes trazia umas sensações esquisitas, de um mundo incompreensível, de um castigo divino, dando-lhes a impressão de que não eram iguais.
Iguais eram e são. Todos humanos. Filhos do mesmo Deus, a cujos olhos não deviam existir diferenças, conjecturavam os pais, entre si. Compreenderam isto aos poucos, na convivência cotidiana, à medida que foram acolhendo e amando a sua meiga e linda menina.
Bibiana vem respondendo bem aos cuidados especiais que recebe.  Aprendeu a brincar e a interagir, com familiares e amiguinhos. Era natural, pois, que o pai mudasse o discurso. Agora ele diz: “Bibiana manteve minha esposa e eu unidos. Somos felizes por tê-la em nossas vidas. Deus privilegiou nossa família com um anjo de ternura”.

Filhos com deficiência – Por que algumas famílias têm filhos com deficiência? Haverá resposta para essa indagação? A expectativa dos casais por filhos saudáveis é natural, compreensível, portanto. Assim como os pais não desejam filhos na droga, na prostituição ou com transtornos de conduta, também não querem com deficiência. Mas as intercorrências e os desafios compõem as perplexidades da vida. A sabedoria está em aprender a lidar com situações adversas e indesejadas advindas da natureza humana.
O grande aprendizado das famílias com filhos com deficiência é o amor incondicional, o Amor Ágape, aquele doado, gratuito, que não espera gratificação nem alimenta expectativas de compensação. Nas palavras de Paulo Apóstolo, é o amor que a tudo suporta. Os filhos com deficiência são a travessia e a escola para o Amor Ágape. O aprendizado destes pais está no desapego de suas expectativas e na arte de cuidar somente. Eis um zelo parental nutrido pela fé e pela humildade de servir, caracterizado por uma atitude amorosa despojada, responsável, cumprindo não um dever, mas uma missão, transcendente à nossa limitada compreensão.
Os filhos com deficiência que passam muitos anos vegetativos solicitam um contínuo debruçar do desvelo dos pais. Para os pais cujos filhos vivem nessas condições e não são vegetativos, a vida é mais fácil e gratificante. Eles acompanham o crescimento e a receptividade do filho com deficiência, embora limitada, aos cuidados e tratamentos que recebe, saindo eles próprios, pais, beneficiados. Outros aprendizados são o exercício da paciência, da tolerância, do desapego às coisas da terra, de valorização e prática de ações altruístas e atitudes acríticas. 

Anjos diferentes – Conversando com a família de Ícaro e também com a de Bibiana, percebe-se que as famílias e seus filhos com deficiência têm uma sintonia, uma adequação, uma alegria e um convívio sereno. O filho com deficiência deixa de ser um problema para se tornar um investimento de amor e cuidado. O aspecto comum encontrado nas duas famílias é a forma como veem estes filhos. Ambas verbalizam eles são anjos que Deus lhes enviou.
E como são esses anjos? São espíritos puros e cuidadores. Anjos na terra, os filhos com deficiência vigiam a manutenção do cuidado e do amor em seus lares. Vieram para amar e ensinar a amar. Os pais comentam o quanto seus filhos são doces, ternos e carinhosos. Que são anjos, não temos dúvida. Mas são anjos diferentes, que procuram e encontram em seus pais anjos vigilantes, e com eles formam uma legião familiar de anjos. Que estas famílias se unam aos anjos do céu e cantem o anúncio:  “Glória a Deus no céu e paz na terra aos homens. Amém!”.
Aos anjos da terra, um feliz 2018!
                      




Fonte: Fc edição 985, janeiro de 2018
Postado por: Família Cristã




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