Passado brasileiro

Data de publicação: 01/11/2018

Por, Nathan Xavier
Passado brasileiro
 

Escavações arqueológicas no Rio de Janeiro revelam que a cidade é mais do que praias e belezas naturais

A cidade do Rio de Janeiro (RJ) tem um algo mais além dos cenários belíssimos que o encontro de mar e montanha proporciona, as inúmeras praias e, infelizmente, a violência. Contém também um rico patrimônio histórico cultural. Foi a capital do Brasil de 1763 a 1960 e a única cidade no mundo a sediar um império europeu fora da Europa. A vinda da corte portuguesa, em 1808, marcaria profundamente a cidade. Transformada em centro de decisão do Império Português, tornou-se um grande centro comercial e político. Nesse período são criados o Jardim Botânico e diversos estabelecimentos de ensino, como a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, a Academia Imperial de Belas Artes, a Academia Militar e a Biblioteca Nacional com o maior acervo da América Latina. E as obras para a revitalização do centro da cidade, projeto das Olimpíadas e Paralimpíadas, trouxeram de volta um passado perdido no tempo, escondido debaixo do asfalto e cimento de décadas recentes.
A região do Cais do Valongo talvez seja o melhor exemplo dessa redescoberta, local rico em sítios arqueológicos como o próprio cais, terminado em 1811, e o Cemitério dos Pretos Novos, sem data definida, mas que já existia muito antes do próprio cais. A região era desabitada na época e o acesso era difícil, por isso foi escolhida para sediar o porto de desembarque de escravos. A história de todo o local está intimamente ligada à escravidão: foi por ele que milhares de africanos chegaram ao Brasil a partir do século 18. O trabalho arqueológico revelou ossos, porcelanas, conchas, colares e outros objetos, permitindo estudar aspectos desconhecidos da vida de negros e também daqueles que trabalhavam na região do Cais do Valongo.

Escravidão – Cronistas estrangeiros relataram a perversidade no grande mercado de escravos. Assim que chegavam por esse cais, eram levados para uma quarentena, adultos e crianças. Muitos ali morriam e eram enterrados em covas coletivas no Cemitério dos Pretos Novos, próximo ao cais. Enquanto as fazendas de café no Vale do Paraíba floresciam à custa do trabalho escravo, coveiros no Cemitério dos Pretos Novos enterravam mais africanos recém-chegados. Segundo Mariana Candido, historiadora da Universidade do Kansas, Estados Unidos, estima-se que o Rio recebeu mais de 1,8 milhão de escravos. Esse mercado foi desativado em 1831, por conta da lei que declarava livres todos os africanos chegados ao Brasil. Mas os traficantes de escravos logo criaram novas estratégias, com desembarques noturnos, até 1850, quando acabou sendo de fato liquidado por uma nova lei que penalizava duramente os traficantes. O Cais do Valongo continuou funcionando para o transporte de toda sorte de mercadorias e de pessoas até 1843. Nesse ano, por decisão direta do imperador dom Pedro II, um novo cais foi construído por cima do Cais do Valongo, que passou a ser chamado de Cais da Imperatriz, para o desembarque da princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, por ocasião do seu casamento com o imperador. Importante destacar que a Imperatriz era claramente abolicionista e não desejava que sua nova pátria aceitasse a prática da escravidão. Tendo em vista a alta relevância histórica, social e política, o
Cais do Valongo recebeu o título de Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a ciência e a Cultura), em 9 de julho de 2017, por ser o único vestígio material da chegada dos africanos escravizados às Américas.
O costume de simplesmente construir por cima de algo que existe no mesmo local, e que é observado desde o Império Romano – que construíam suas cidades por cima de outras mais antigas - revela surpresas mórbidas também no Rio de Janeiro. “Quando eu vi os ossos, pensei que fossem o resultado medonho de um assassinato envolvendo antigos moradores”, afirma Ana Maria de la Merced Guimarães, 56 anos, moradora de uma velha casa onde, numa reforma em 1996, operários encontraram restos mortais de uma imensa cova coletiva. Estima-se em milhares a quantidade de corpos encontrados, incluindo crianças. Embora a existência do Cemitério dos Pretos Novos fosse conhecida de historiadores e da literatura sobre a cidade do Rio de Janeiro, sua localização tornou-se totalmente desconhecida por décadas até aquele momento. Ela e o marido ainda moram no local, mas abriram uma pequena organização sem fins lucrativos, o Memorial dos Pretos Novos, onde os visitantes podem ver parte da escavação arqueológica e ainda uma biblioteca com acervo voltado para a história e cultura afro, brasileira e indígena, tudo mantido pelo casal dono da residência, Petrúcio e Ana Maria de la Merced Guimarães.

Grande descoberta – Um pouco mais ao norte da região do Cais do Valongo, no centro do Rio de Janeiro, as obras para a ampliação da Linha 4 trouxeram muitos objetos à tona. Muitos mesmo. Mais de 200 mil artefatos, incluindo uma escova de dentes com cabo de marfim, já sem cerdas, com uma inscrição em francês, que diz: “Vossa majestade o imperador do Brasil”, o que, na opinião de especialistas, indica que pertenceu a dom Pedro II ou a algum membro da família real muito próximo a ele. Escavações mais profundas trouxeram objetos que datam até do século 17, podendo se tornar um dos maiores achados arqueológicos do Brasil. Porém as escavações terão que esperar ainda mais um tempo até as obras do metrô terminarem por completo.
O responsável por essa escavação, Cláudio Prado de Mello, disse à Agência Efe que, se em seis meses foi possível a descoberta dessa quantidade de objetos em bom estado de conservação, é possível que poderão recuperar até 1 milhão de peças quando as escavações puderem recomeçar. No acervo de peças encontradas estão restos de cosméticos franceses, água mineral importada da Inglaterra e um frasco de colônia com o curioso nome de “Anti-Catinga”. Também há pratos e vasilhas de cerâmica, garrafas de licores e água, cachimbos com restos de tabaco, potes de porcelana com unguentos e frascos com líquido em seu interior, que poderiam ser produtos medicinais, segundo os arqueólogos. Entre os objetos mais antigos, do século 17, estão alguns de manufatura indígena, como um cachimbo feito com um chifre, que contrasta com outros cachimbos muito diferentes que pertenceram ou aos colonizadores europeus ou aos escravos africanos.
Segundo Cláudio, os objetos achados são “basicamente lixo”, mas têm  “uma dimensão arqueológica muito grande” porque revelam detalhes do dia a dia que se desconheciam até agora e que permitirão estudar aspectos como a tecnologia da época e até as relações comerciais. “Naquela época não existia um sistema de coleta de lixo. As pessoas o enterravam em seus pátios ou pagavam a um escravo para levá-lo a algum lugar. Esta era uma área alagada e a Prefeitura tinha interesse em aterrá-la. Por isso, as pessoas jogavam materiais aqui”, explicou o arqueólogo.
Os trabalhos de escavação e catalogação das peças ainda irão levar um bom tempo, não apenas pela sua natureza, mas porque faltam incentivos no Brasil para resgatar nossa história, tão cheia de momentos obscuros, curiosidades, mas também de beleza. O próprio Memorial dos Pretos Novos, parte importante da nossa história e um ato de reverência e respeito aos milhares de negros recém-chegados à colônia, mortos ou adoentados devido aos maus-tratos durante a travessia do Atlântico, é mantido graças ao esforço pessoal de Petrúcio e Ana Maria.


PARA CONHECER MAIS

Memorial dos Pretos Novos
Rua Pedro Ernesto, 32
Telefone: (21) 2516-7089
Horário: Terça a sexta, das 13 as 19 horas.

Sítio Arqueológico do Cais do Valongo e da Imperatriz
Entre as ruas Coelho e Castro e Sacadura Cabral

Aplicativo Museu do Ontem
Revelar pontos históricos e muitos segredos que não estão nos livros de História é a proposta do aplicativo Museu do Ontem, lançado pela Agência Pública. Nele é possível explorar curiosidades por trás de prédios e locais históricos da zona portuária do Rio de Janeiro. Alguns conteúdos e curiosidades só são destravados se o usuário está de fato no local. Disponível no Google Play e na AppStore.




Fonte: Fc edição 985, janeiro de 2018
Postado por: Família Cristã




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