Matrimônio e sua dimensão

Data de publicação: 14/11/2018



Por, Frei Luiz. S Turra, ofm
Matrimônio e sua dimensão espiritual


Só quem ama de verdade compartilha com o outro seus sonhos e se sente envolvido pelos apelos dos grandes projetos de Deus


Pelo fato de me dedicar à pastoral paroquial, há tantos anos, constatei muitos fatos reais de casais que fizeram e fazem de seu matrimônio um processo de comunhão, integrando as dimensões globais em sua vida pessoal e familiar. Porém, na medida em que os anos passam, a idade avança e certos limites humanos aumentam, algumas dimensões vão perdendo sua força motivacional e outras dimensões vão renovando e aumentando o amor do casal.

 A lógica da vida vai confirmando que o mais consistente recurso que dinamiza o amor é a dimensão espiritual. Já se percebe esse fato na comemoração dos 25 anos de casamento; aumentando, muito mais, na comemoração dos 50 e se tornando decisivo na enfermidade. O fogo da paixão humana pode ir se apagando, mas a chama do amor que vem de Deus nunca se apaga.

Segundo o frei Antônio Moser (2004), o que parece estar faltando na família é a mística que empolga, arrasta e que vem acompanhada de perseverança na busca de um grande ideal. Só quem ama de verdade compartilha com o outro seus sonhos e se sente envolvido pelos apelos dos grandes projetos de Deus. A espiritualidade conjugal e familiar, conforme o papa Francisco na encíclica Amoris Laetitia, nos ajuda a perceber as características especiais para este estado de vida:

a) Espiritualidade de comunhão: O amor da Trindade está vivo e atuante na comunhão matrimonial. O amor conjugal é um modo privilegiado de glorificação a Deus, que está presente na trama real da vida familiar, seja na alegria ou na tristeza, na saúde ou na doença e em todos os dias de sua vida. Na transparência da vida cotidiana, em família, o Senhor garante sua alegria e sua paz.

A espiritualidade une “o humano e o divino” no amor familiar. Esta é uma força incontida de crescimento e maturidade na comunhão. Espiritualidade não é uma fuga do real, nem uma abstração de nossas relações concretas da vida e da convivência. Bento XVI afirma, na Carta Encíclica Deus Caritas Est, nº 16, que “o fechar os olhos diante do próximo nos torna cegos também diante de Deus”.  Já na Primeira Carta de São João, capítulo 4, versículo, consta que “se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e seu amor em nós é plenamente realizado”. Para a pessoa, a família é um percurso de que o Senhor se serve para levar às alturas da união mística.

b) Unidos em oração à luz da Páscoa: Toda a vida familiar pode ser iluminada. Esta procura tornar Cristo o centro das atenções e o fundamento de um lar. A Cruz integra os problemas e sofrimentos e os piores momentos familiares. Neste mistério tudo se transforma em amor. Já na própria Cruz de Cristo está a certeza da ressurreição que integra as alegrias das vitórias, os momentos de festa e descanso e também a sexualidade. O Ressuscitado é presença que molda os gestos cotidianos da família em “espaço teologal”, possibilitando a experiência mística da ressurreição.

O papa Francisco acena para a oração em família como experiência pascal, como força de comunhão e superação. A devoção a Maria é presença materna que aproxima e protege. Existem muitas expressões populares de fé que ajudam a família, mas o ponto culminante que renova a espiritualidade familiar é a celebração eucarística em comunidade. É o ponto culminante da vida cristã, consequentemente do amor familiar. O domingo é o dia privilegiado do encontro familiar e comunitário como o Crucificado Ressuscitado. Há um vínculo forte entre a vida conjugal e a Eucaristia.

c) Espiritualidade do amor: No Matrimônio, confirma-se também a exclusividade e a pertença a uma única pessoa. O amor é um “gastar-se juntos” para ganhar a vida e refletir a fidelidade de Deus. “Quem não se decide amar para sempre, é difícil que possa amar de verdade por um só dia” (São João Paulo II). A pertença a uma única pessoa é uma pertença do coração, lá onde Deus vê e não apenas o cumprimento de uma lei vivida com resignação.

Quando o casal descobre que o outro não é seu, mas é de alguém sumamente mais importante a sua propriedade, ali acontece a grande libertação e se garante a sã autonomia. Só Deus ocupa o centro da vida de cada pessoa. Esta descoberta possibilita curar as feridas e encontrar no amor de Deus o sentido da própria existência. A ação do Espírito, acolhida e invocada, nos garante esta liberdade interior.

d) Espiritualidade da solicitude: “A família foi sempre o hospital mais próximo” papa Francisco). Na passagem para o novo milênio, o papa João Paulo II propunha a espiritualidade de comunhão, também como capacidade de sentir a pessoa do outro como alguém que faz parte de mim. Deste princípio derivam, com estrita lógica, algumas consequências aplicáveis ao modo de sentir e agir: partilhar as alegrias e os sofrimentos da outra pessoa, para intuir seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhes um verdadeiro e profundo amor” (Novo Millennio Ineunte, n. 43).

Quando se cultiva a dimensão espiritual na família, tudo adquire uma nova relevância, desde a palavra que conforta e anima, o olhar, a ajuda, a carícia, o abraço, as tarefas caseiras etc. A arte do cuidado passa pela misericórdia, pela criatividade do amor que faz novas todas as coisas e todas as relações. Aqui não se pode esquecer que o amor matrimonial compromete também uma comunhão de destino, exercitando a coerência e a sinceridade do amor, cuja perfeição só poderemos encontrar no Reino definitivo.




Fonte: FC edição 986 Fevereiro 2018
Postado por: Família Cristã




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