Uma geração de transição

Data de publicação: 30/11/2018

 

Por,  Nathan Xavier

 
O ter cedeu lugar ao usar para a atual geração de jovens adultos; uma ideia que impacta profundamente o cotidiano das relações sociais e comerciais

O que é ter sucesso na vida? Ter um emprego estável, casa própria e um carro, mesmo que simples, na garagem? É ter “um lugar de mato verde / pra plantar e pra colher, / ter uma casinha branca de varanda, / um quintal e uma janela  / para ver o sol nascer”, como diz na música Casinha Branca do cantor Gilson? Composta em 1976, mesmo agradando a variadas faixas etárias, o verbo ter cantado na letra pode ser substituído por estar para a geração que hoje tem entre 20 e 35 anos. Essas pessoas, de até 35 anos, são conhecidas como “a geração dos alugadores”. Querem estar em bons lugares, utilizar bons produtos e serviços, mas sem possuí-los. Preferem alugar a comprar, assinar a ter o bem em si.
As estrelas desse tipo de negócio são os streamings (transmissões em tempo real) de músicas, filmes e séries. Os serviços de streaming são uma bem-sucedida alternativa contra a pirataria que marcou os anos 1990. Na área dos filmes e séries, a toda-poderosa Netflix dominou e popularizou o mercado, mas outras empresas já estão em sua “cola”, como a Amazon Prime, HBO Go e Fox Premium. O grupo Globo não ficou de fora e cada vez mais disponibiliza conteúdo exclusivo através de sua plataforma, o Globo Play. Na música, empresas como Spotify, Deezer, Apple Music, Google Music e Rdio, disputam seus clientes nesse novo mercado. Em todos os casos, seja de músicas, filmes ou séries, o modo de operar é semelhante: paga-se uma assinatura do serviço para ter acesso ao conteúdo.

Ter X fazer – O que difere a forma de consumir esse entretenimento é justamente o fato de possuir o bem. Essa é uma característica da chamada geração Y, ou geração do Milênio ou Millennials. Um conceito da Sociologia que se refere aos nascidos do início da década de 1980 até meados da década de 1990. É uma geração que cresceu numa época de desenvolvimento tecnológico muito grande, facilidades materiais e com a chegada do ambiente virtual, com significante interação social através dos meios de comunicação.
A popularização do celular, que essa geração viveu na pré-adolescência, uma idade de afirmação, independência e descoberta, marcou profundamente o modo de encarar a própria vida. Ao mesmo tempo, num patamar econômico mundial, a reciclagem e o descarte passaram a fazer parte do dia a dia, seja por necessidade ambiental, seja por retorno financeiro. Essa geração também viveu ouvindo de seus pais que era bom procurar empregos estáveis, de grandes firmas, buscar profissões seguras, mas, ao chegar ao mercado de trabalho, viu profissões desaparecerem, outras, que até então nem eram cogitadas, serem objeto de disputa, e grandes empresas passarem por reformulações (ou falências) inimagináveis até então. Acostumadas a um ambiente de relativização e efemeridade, é uma geração que não sonha mais com casa própria, mas prefere viver de aluguel. A posse de algo cedeu lugar à vivência da experiência. Prefere gastar dinheiro dando a volta ao mundo a se matar de trabalhar para ter uma casa.
 “Esta geração foi concebida na era digital, democrática e da ruptura da família tradicional. Eles buscam fazer o que gostam e sempre o melhor. Uma geração que busca significado e sentido das coisas”, aponta o psicólogo e psicanalista, Gastão Ribeiro. “Uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração, da Universidade de São Paulo (FIA/USP), realizada com cerca de 200 jovens de São Paulo (SP) revelou que 99% dos nascidos entre 1980 e 1993 só se mantêm envolvidos em atividades que gostam, e 96% acreditam que o objetivo do trabalho é a realização pessoal”, afirma.
Essa ideia, cada vez mais, chega aos produtos e serviços que são oferecidos no mercado. Seus pais guardaram dinheiro, economizaram, se dispuseram a ir até uma loja de discos, compraram o disco, o colocaram na vitrola para poder ouvir Casinha Branca. Hoje, através do celular e um serviço de streaming de música, podem ouvir a música em menos de um minuto. Mesmo que não tenham a posse da música, o que vale é a experiência de ouvi-la. Se os pais tinham o disco do cantor Gilson, a nova geração já não tem nem o disco físico, nem a posse da música em si, mesmo que digitalmente. Ou seja, se a empresa cancelar a parceria com uma série, por exemplo, ela é retirada do catálogo e o cliente não poderá mais assisti-la. Se você que está lendo esta reportagem tem mais de 40 anos, é possível que considere isso esquisito. Mas é bom se acostumar. Analistas de mercado apontam que o futuro é esse. E prepare-se para achar tudo mais estranho agora. A mais recente, ou mais visivelmente perceptível característica desse fato, é o novo serviço disponibilizado por empresas como Porto Seguro, Unidas e Movida: a assinatura de carros.

Assinando carro – Se para os jovens de hoje não faz sentido ter casa própria, preferem um serviço de música e filmes por assinatura e ter experiências profissionais diferentes em empresas diferentes, qual o motivo para a compra de um carro? O serviço cai como uma luva para os anseios dessa geração que dá mais valor à experiência vivida do que ao bem acumulado: paga-se um valor fixo por mês e fica com o carro zero-quilômetro por um ano. A única preocupação é encher o tanque, pois documentações, licenciamento, impostos, seguro, taxas e manutenção ficam por conta da assinatura.
Rivaldo Leite, diretor-geral da Porto Seguro, uma das empresas que disponibilizam o serviço, explica: “Observamos uma mudança de comportamento do consumidor, que tem dado mais valor para o ‘usar’ do que para o ‘ter’, e que busca alternativas que tornem seu dia a dia mais prático”. Rivaldo afirma que o mercado ainda é muito recente, mas tem encontrado adeptos especialmente pelo público acima de 30 anos e profissionais liberais como engenheiros e médicos, mas também aponta para o futuro: “O brasileiro ainda não está acostumado com esse tipo de serviço, e considera importante adquirir todos os bens que utilizar. Porém, percebemos uma mudança no comportamento do consumidor. Em nossa visão, essa tendência deve se intensificar nos próximos anos, o que dará ainda mais visibilidade ao modelo de carro por assinatura”.

Virtual e real juntos – Ao valorizarem a experiência e qualidade de vida, ao invés do acúmulo de bens, os jovens adultos de hoje lidam melhor com a paternidade e a maternidade, por exemplo, importando-se mais com a educação dos filhos. É o que observa Gastão Ribeiro: “Observando mais de perto, descobrimos que eles não são revoltados e têm valores éticos fortes, priorizam o aprendizado e as relações. São jovens adultos ligados a novos conceitos, muito bem informados, capazes de procurar informações detalhadas sobre o que fazemos com eles”, afirma o psicólogo.
Diferentemente da geração anterior, são mais críticos com a opinião de especialistas e buscam grupos de apoio para as dificuldades no ambiente virtual. Não à toa, existe uma proliferação de sites, vídeos e blogs onde compartilham suas experiências, seja da última viagem realizada, de um restaurante, sobre a própria religião, o cuidado da casa e dos filhos, entre muitos outros temas do cotidiano.
Ao redor desses sites, centenas e muitas vezes milhares de seguidores “recompartilham” as experiências, agregando mais nuances e detalhes de um saber compartilhado, vivido e, de certa forma, convivido. O que talvez seja inusitado para os pais dessa geração é que tal vivência virtual extrapola esse ambiente e é comum os grupos marcarem encontros presenciais em parques e praças, onde podem aprofundar as relações e experiências. Mesmo imersos num ambiente virtual, ainda valorizam a presença física, pois é uma geração de transição. Foi a última geração a viver num mundo sem internet e a primeira a se conectar. A que não sabe se toma nota no papel ou no celular. Como afirmou uma jovem adulta dessa geração num programa de rádio: “Uma geração que compra as entradas de cinema na internet e depois as imprime”.




Fonte: Edição 993, Setembro de 2018
Postado por: Família Cristã




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