Tecendo arte e vida

Data de publicação: 02/01/2019

Por, Rosangela Barboza

O Instituto Tear, no Rio de Janeiro, existe há 38 anos, propiciando a crianças e jovens uma experiência inovadora do campo das artes.

Existe na cidade do Rio de Janeiro (RJ), bairro da Tijuca, uma casa grande, com um generoso quintal, pomar, horta, biblioteca e salas repletas de referências culturais, frequentada, especialmente por crianças e adolescentes que vivenciam um aprendizado diferenciado. A casa é o Instituto Tear (www.institutotear.org.br), instituição referência nas áreas de arte, educação e cultura, que nasceu em 1980, fruto do ideal de um grupo de educadores, arte-educadores, psicólogos e musicoterapeutas, movidos pelo desejo de buscar novas luzes no campo da educação pela arte e para a arte. Quando o Tear nasceu, Denise Mendonça, a sua inventora, contava com 24 anos. “Costumo dizer que sou uma zeladora do Tear, em estado de vigília, por acompanhar toda a sua trajetória desde o início, como fundadora e apaixonada pela obra”, diz ela, aos 62 anos.

O Tear traz em seus pilares o desenvolvimento humano e o respeito à diversidade biocultural, num movimento em busca da construção de uma sociedade sustentável, justa e solidária. E, sendo assim, não dá para descrever o Instituto Tear como uma escola de artes e ponto final. A sua missão vai além. “Desde o início aos dias atuais, o Tear vem aprofundando sua investigação metodológica, defendendo a formação poética, estética, do pensamento e dos valores humanos pelas vias da Arte. Para desenvolver esta vocação formativa da arte e a experiência e formação ética-estética, é preciso tempo, presença, plenitude e disponibilidade”, afirma Denise, para quem essa metodologia é muito  necessária em tempos atuais, quando o  consumo é desenfreado  e onde efêmero e virtual se confundem com realidade. “Nos espanta a quantidade de meninos e meninas apresentando anemia de vida, atravessados pelos medos e incertezas. É urgente uma educação estética, poética, brincante, espiritual, amorosa, expandida, alargando horizontes culturais e de convivialidade, por meio da arte, dando sentidos aos sentidos”, afirma Denise.
O Tear, que sempre se manteve graças à articulação e mobilização de redes solidárias de apoio e cooperação, seja de pessoas, organizações, empresas e instâncias governamentais, foi constituído, em 2000, como organização da sociedade civil sem fins lucrativos; e, em 2014, se tornou Pontão de Cultura e Educação, pela Secretaria Municipal da Cultura do Rio de Janeiro e Ministério da Cultura.

Ciranda Brasileira – O público inicial foi o de crianças entre três e nove anos, e já na década de 90 havia também grupos de adolescentes e jovens, participando dos cursos de Artes Integradas (uma abordagem metodológica, transdisciplinar, criada e desenvolvida pelo Tear, que envolve e articula as diferentes linguagens da arte em diálogo com diversos campos de conhecimento). O programa mais significativo do Tear é o Ciranda Brasileira, que oferece um aprendizado lúdico e transdisciplinar. As oficinas do Ciranda Brasileira trazem inovadoras práticas educacionais e buscam tecer a sensibilidade, a percepção, a expressão criadora e a imaginação a partir de experiências estéticas, ecológicas e culturais.
Comprometido com a democratização e inclusão, o programa contempla alunos de escolas públicas e particulares. No Ciranda Brasileira, a literatura, teatro, dança, música, artesvisuais e audiovisual são desenvolvidos de forma lúdica, dialógica e interdisciplinar através de uma abordagem filosófico metodológica. Desde sua criação, já passaram pelo Ciranda Brasileira, gratuitamente, mais de 2 mil participantes. A cada ano o Tear abre vagas para novos integrantes, e a divulgação é realizada, principalmente, nas escolas da rede pública e nas comunidades da Grande Tijuca. Não há provas, nem seleção de aptidão. “Apenas entrevistas, que são realizadas com o responsável. O critério para matrículas é estar dentro do perfil socioeconômico e o desejo de participação”, informa Denise.
 O tempo médio de permanência nos cursos varia de quatro a sete anos, o que é muito significativo, por ser o Tear um espaço não formal de educação em arte. “Mas temos exemplos de muitos alunos que iniciaram em 2002, permanecendo até 2012, e muitos deles retornam como educadores da casa”, conta Denise, lembrando que esse fato reflete um sentido de pertencimento e o valor dado ao trabalho desenvolvido pelo instituto. Denise enumera outros frutos positivos da jornada da entidade: a participação das famílias, o número significativo de meninos e meninas formados pelo Tear e que ingressaram nas faculdades de arte, em vários segmentos, como teatro, dança, música, cinema, produção cultural e outros. Ela ainda lembra que os vínculos afetivos tecidos coletivamente durante a formação dos alunos se mantêm vivos, mesmo quando eles crescem e saem para alçar outros voos. “Criam um sentido tearteiro de ser, que não desaparece com o passar do tempo”, finaliza ela.

Tearteiros – Helena de Lourdes Ferreira Silva e o filho, Arthur, de 11 anos, são uma das inúmeras famílias “tearteiras”. Desde os seis anos, Arthur frequenta os cursos do Tear. “Tem muitas atividades de que ele gosta, como arte, pintura, desenho, música. “E um quintal cheio de árvores frutíferas que as crianças adoram subir e brincar”, conta Helena. No ano passado, ele quase precisou sair do Tear para cumprir outro compromisso, mas se recusou.  “Ele até fez uma poesia dizendo que o Tear é o ar que ele respira”, lembra Helena. “O Tear o estimulou a se interessar por outras atividades e hoje ele também tem aulas de teatro, percussão e cavaquinho, em outras instituições também gratuitas”, conta a mãe, que veste a camisa da instituição. “No Tear as crianças aprendem criando, interagindo e brincando.”
O músico Michel Nascimento de Oliveira, 30 anos, conheceu e se apaixonou pela música no Instituto Tear, onde entrou aos 14 anos. “Não sabia nada de música ou de arte”, conta. “O Tear fez essa ligação na minha vida.” Michel entrou para o Programa Ciranda Brasileira, no grupo Menestréis, focado em música.  “O Tear teve total importância na minha vida”, afirma Michel, que hoje também é professor e dá aulas de música para os jovens do Tear. Lá, ele teve o aprendizado técnico e a oportunidade de participar de vários espetáculos profissionais. E a transformação também aconteceu na sua vida pessoal.  “Aprendi a ver o mundo de outra forma, a sonhar sempre e a compartilhar meus sonhos.”  Segundo o músico, numa época de tanta tecnologia, em que tudo é feito com agilidade, de forma automática, propostas como a do Tear mostram que uma vivência nos campos das artes é necessária e possível, principalmente para as crianças. “São experiências simples, porém valiosas, como dar as mãos, olhar nos olhos do outro, pisar na terra, subir em árvores, ter o contato com a natureza, se importar com o outro e sonhar em conjunto.” Ele conta que, antes de ser convidado para dar aulas no Tear, tinha o sonho de se apresentar ao lado de grandes músicos. “Hoje, vejo meus alunos evoluindo e se expressando melhor a cada dia, e isso me dá a certeza de que estou realizando um sonho muito maior”, comemora.




Fonte: Revista Família Cristã, edição 991, Julho de 2018
Postado por: Família Cristã




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