Panorama

Data de publicação: 31/01/2019

Canindé, de Francisco de Assis e Dina Martins



A beleza de Canindé são as pessoas, a cultura, o povo, o que vem de fora ou aquele que nasceu ali e acolhe aqueles que vêm de tantos e mais variados lugares

Como cantava Luiz Gonzaga, “que bom, que bom que é, uma estrada e a lua branca no sertão de Canindé... coisas qui pra mode vê, o cristão que andá a pé”, o Rei do Baião já cantava em suas canções aquilo que Canindé tem de melhor e mais bonito, as pessoas.
Localizada no semiárido cearense, a quase 118 quilômetros da capital, Fortaleza, sendo o 12o município mais populoso do estado, com quase 77.500 habitantes, Canindé, a Assis Brasileira, ao mesmo tempo em que se esconde por detrás de sua pequenez, se mostra gigante pela fé de seus romeiros e romeiras.
Religiosidade e cotidianidade, duas palavras que se interligam se tornando mais do que uma relação histórica, uma relação de intimidade entre o povo nordestino e o Santo de Assis, que era rico e se fez pobre.
A cidade de Canindé, pequena e movida pela devoção, é um dos cartões-postais do estado do Ceará. E quem imagina cartões-postais pensa logo em grandes pontos turísticos e lugares de natureza exuberante capazes de encher os olhos de tanta beleza. Por isso, se alguém perguntar pelas belezas de Canindé, digo sem titubear: a beleza de Canindé são as pessoas, a cultura, o povo, o que vem de fora ou aquele que nasceu ali e acolhe aqueles que vêm de tantos e mais variados lugares.
Dona de um dos eventos religiosos mais antigos do Brasil, é nesta cidade que fica a maior estátua de São Francisco do mundo, medindo 30,25 metros. Ao seu redor é sempre comum encontrar aqueles que depois de visitar a Basílica de São Francisco e participar da Celebração Eucarística vêm fazer um registro fotográfico com o santo gigante que abraça a cidade.
E falando em basílica, esta é posterior à primeira capela construída de 1775 a 1796, conduzida pelo sargento-mor e membro da Ordem Terceira Franciscana, Francisco Xavier de Medeiros, a construção da capela é apenas em consequência da intensidade de peregrinações e romarias franciscanas que acontecem frequentemente desde 1758.
Nesta devoção entrelaçada de histórias, encontraremos famílias, nomes de pessoas importantes para o município e inclusive de Frades Franciscanos e Capuchinhos que ajudaram a introduzir ali as festas e os costumes originários da Ordem.
Protagonismo dos romeiros – Atualmente, no lugar da capela construída por Francisco de Medeiros existe desde 1888 uma basílica, fruto de reformas e novas construções encabeçadas pelos Frades Capuchinhos que permaneceram ali por 25 anos, dando ao lugar a organização e a suntuosidade que possui hoje. O lugar, munido de ambientes bem organizados, recebe mais de 2,5 milhões de romeiros todos os anos, com maior intensidade no período da festa de São Francisco das Chagas (como é conhecido ali), sempre de 24 de setembro a 4 de outubro, com alterações apenas em anos eleitorais.
É nesta época, lugar e data que acontece a maior romaria franciscana da América Latina. A segunda maior romaria franciscana do mundo. Durante todo o ano é possível conhecer vários dos espaços disponíveis para visitação:
●    A basílica: com horários diferentes de missa a partir das 5 até as 18 horas.
●    Casa dos Milagres (sala dos ex-votos), situada ao lado da basílica: onde se pode contemplar objetos – fotos, pinturas, peças que representam pedaços do corpo esculpidos em madeira ou cera, roupas, mechas de cabelos, exames médicos etc. – que expressam os gestos do povo que volta para manifestar sua gratidão pelas graças recebidas.
●    Complexo Confessional São Damião: ao lado da Sala dos Milagres, possui mais de 20 salas de confissão, capela de oração e a capela do Batismo.
●    Capela do Painel: Abriga a tradicional relíquia, o painel de São Francisco das Chagas, que só deixa a sala três vezes por ano, 2 de agosto (o dia do perdão de Assis), 17 de setembro (data em que São Francisco recebeu as chagas) e durante a festa de São Francisco, em outubro. Este painel, objeto de grande devoção, existe desde 1890. Em armação feita de madeira, transporta uma estampa italiana iluminada com velas e lamparinas. A relíquia é querida pelo povo, já passou por uma restauração e dura mais de 120 anos.
●    Gruta de Nossa Senhora de Lourdes: lugar especial de devoção mariana, onde é possível lavar algumas partes do corpo relembrando com a mesma fé a devoção de Lourdes, na França. Lembrando que a festa mariana de Canindé é uma das maiores e mais bonitas do estado.
●    Casa das Velas: espaço reservado para acender e depositar as velas trazidas pelos romeiros.
●    Complexo dos Romeiros: composto de um calçadão, o Museu de São Francisco, o Convento Santo Antônio, via-sacra.
●    Zoológico São Francisco: os romeiros costumavam trazer presentes para São Francisco durante as festas, grande parte dos presentes era animais silvestres que requeriam um cuidado especial, daí a criação do zoológico. Muitos animais são trazidos para reabilitação pelo próprio Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Ou seja, é um lugar de reabilitação para os animais, e um espaço de lazer para os visitantes. Funciona diariamente das 8 às 17 horas.

A grandeza de uma mulher – Mas, quando digo que em Canindé o que há de mais bonito são as pessoas, não me equivoco, pois ali, na Assis cearense, vive uma das figuras culturais mais respeitadas deste Brasil: a vaqueira aboiadeira Dina Martins.
Por ser rodeada de fazendas, fruto das sesmarias, método usado pelos colonizadores portugueses para dividir e povoar as terras ainda não produtivas, Canindé é conhecida por sua luta pela preservação da cultura do homem pobre que trabalha nas fazendas com o gado, os conhecidos vaqueiros.
Nas redondezas de Canindé o destino sempre era o mesmo, aos homens serem vaqueiros; e às mulheres serem da cozinha. Mas, entre as mulheres nascidas nesta terra houve uma que não queria saber de cozinha, contrariando a sina das mulheres do sertão, era a pequena Dina Martins, que aos sete anos já ajudava o seu pai a juntar o gado na fazenda Barra do Canção. E aos 14 anos Dina havia trocado a lida na cozinha para trabalhar vestida de “gibão” entranhada na mata reunindo o gado e lutando pelo cultivo da cultura sertaneja do seu povo.
Dina Martins cresceu, se tornou a Rainha dos Vaqueiros e é ainda hoje mulher de grandes influências entre as mulheres de Canindé. Cidadã e mulher de coragem, destemida e inovadora, na década de 1980 se tornou a primeira mulher do Brasil a fundar e presidir uma associação composta unicamente por homens, mais de 200: a Associação dos Vaqueiros, Boiadeiros e Pequenos Criadores de Canindé. 
Romeira e devota de São Francisco, foi participando da missa dos vaqueiros, nos festejos do santo, que ela recitou seus primeiros versos e se tornou figura importantíssima naquela tradicional missa que se tornaria parte do calendário oficial do estado do Ceará, graças à sua luta na articulação da Lei 14.520 de 8 de dezembro de 2009.
Foi Dona Dina que fundou o Grupo Musical A Rainha e Os Vaqueiros, grupo que ainda hoje se apresenta em festivais, centros culturais, inclusive tantas vezes, ao lado de figuras como Fagner e Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, que Dina conheceu numa festa na Igreja de São Francisco e com quem certa vez pôde cantar seus aboios e tirar junto alguns versos.

Porta-vozes do povo – Dina já foi tema de documentário na Austrália, tema de cordel, canções e assunto de inúmeras entrevistas. Mas foi um dos mais importantes prêmios da cultura nacional que fez de Dina Martins, segundo dados, a segunda mulher mais influente da cultura brasileira. 
No ano de 2013, ela recebeu da Secretaria da Cidadania e da Diversidade Cultural, do Ministério da Cultura, o Prêmio Culturas Populares – Edição 100 Anos de Mazzaropi. Dentre mais de 170 projetos, o dela, que visa a preservação da cultura sertaneja, foi reconhecido como um dos mais importantes, dando a ela o título de Mestra da Cultura Popular. Este prêmio é entregue a pessoas que se destacam na preservação da cultura e práticas de expressões populares espalhadas pelo País.
E assim as histórias se entrelaçam, Dina, a menina pobre que deu vez e voz aos trabalhadores do sertão do Ceará, em Canindé... Francisco, o jovem que deu vez e voz aos pobres que conheceu e trouxe à tona uma espiritualidade que busca preservar o ser humano e a Terra, nossa Casa Comum, a natureza. Ambos obstinados a fazer valer a vida e a dignidade da pessoa humana. Ambos com desejo de ser mais a partir de uma vontade que vem de dentro, por vocação e por amor.
Ela devota dele, ele companheiro e intercessor dela, Dina e Francisco, os dois porta-vozes de um povo sofrido que ainda hoje busca ser aquilo que é, filhos e filhas de Deus.  E quem desejar conhecer essa mulher tão inspiradora, ouvir seus aboios e seus versos, ouvir seus cantos e suas prosas, é só ir a Canindé e participar da tradicional Missa dos Vaqueiros, onde ela continua hoje, desde a primeira, indo à frente ao lado do estandarte do Santo de Assis, que protege e ajuda o povo na labuta do dia a dia, seja no meio do gado, na cidade, na fazenda ou nas romarias.
E viva São Francisco, viva Canindé, viva Dina Martins, viva a cultura e a fé do nosso País.





Fonte: Revista FC - ed. 992 / Ago-18
Postado por: Família Cristã




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