Arte e natureza

Data de publicação: 28/02/2019

Por, Luciana Rocha, de Belo Horizonte (MG)

Quem chega ao Instituto Inhotim, Museu de Arte Contemporânea e Jardim Botânico, localizado na cidade de Brumadinho, situado a 60 quilômetros de Belo Horizonte (MG), não imagina que um dos primeiros locais que pode ser visitado é a Capela de Santo Antônio.
Logo no início da visita, está o Espaço Igrejinha. Embora não tenha nenhum tipo de registro oficial, sabe-se que a capela foi erguida entre as décadas de 1960 e 1970, por meio de mutirões que mobilizaram a comunidade. O local pode ser considerado um lugar de memória, pois guarda, além do material, as simbologias de um povo, de um tempo e de uma história.
Continuando o percurso, o visitante encontra aproximadamente 700 obras do Inhotim, espalhadas em 23 galerias. Cerca de 60 artistas dão o tom no museu que abriga obras dos anos 1960 até os dias atuais, entre pinturas, esculturas, desenhos, fotografias, vídeos e instalações. O que chama a atenção é o diálogo entre a cultura e a biodiversidade, promovendo o encontro entre os dois acervos e a interatividade com o público.
Das 23 galerias, quatro são dedicadas a exposições temporárias: Lago, Fonte, Praça e Mata. Os pavilhões contam com grandes vãos que permitem o aproveitamento versátil dos espaços para apresentação de obras de variadas mídias. Periodicamente, as exposições das galerias temporárias são renovadas para apresentar novos trabalhos e criar reinterpretações da coleção. Além disso, artistas são convidados a desenvolver novos projetos – juntamente com a equipe do Inhotim – fazendo do museu um lugar em constante movimento e evolução.
As 19 galerias permanentes apresentam obras de Tunga, Cildo Meireles, Miguel Rio Branco, Hélio Oiticica & Neville d’Almeida, Adriana Varejão, Doris Salcedo, Victor Grippo, Matthew Barney, Rivane Neuenschwander, Valeska Soares, Doug Aitken, Marilá Dardot, Lygia Pape, Carlos Garaicoa, Carroll Dunham, Cristina Iglesias, William Kentridge e Claudia Andujar.
De acordo com a assessoria de imprensa do Inhotim, o local tornou-se referência no mundo por expor de forma permanente obras de importantes artistas brasileiros e internacionais – trabalhos que, por suas dimensões, não poderiam ser exibidos em museus tradicionais.
A primeira obra do local também é uma das mais visitadas. Forty Part Motet, de Janet Cardiff, fica na Galeria Praça e traz uma experiência sensorial aos visitantes. Aliás, as obras promovem experiências diversas em suas constituições. O visitante pode até nadar (no Inhotim tem duas piscinas que permitem isso e fazem parte de obras).  Em muitas obras interativas, os amantes de arte fazem parte das obras. Há locais que os sapatos são proibidos. Outros a pessoa pode deitar, sentar, sentir e significar a obra, de acordo com sua vivência. Há locais em que o tato é o ponto forte para apreciação.
A assistente de curadoria do Inhotim Deborah Gomes destaca que os dois acervos – artístico e cultural – estão em diálogo, e o público faz parte de todo esse universo. “As pessoas têm experiência única, sensação de impacto e um posicionamento mais crítico, principalmente em relação às obras contemporâneas. Quando eu conheci o Inhotim, em 2009, tive esse mesmo impacto e acredito que os visitantes também têm essa sensação. Aqui encontramos arte como natureza, além de discursos variados”, relata.
Visitantes – Um grupo de terceira idade, formado por idosos com idade entre 60 e 80 anos, experimentou esse impacto. Acompanhados pela psicóloga Patrícia Fernanda de Melo eles foram praticar a modalidade de ginástica, Lian Gong, ao ar livre, no Inhotim. “A nossa ideia é fazer a prática em outros espaços, buscando o que a filosofia oriental ensina que é a saúde como um todo: mental e física. A experiência foi maravilhosa, o grupo está encantado com o lugar. Apesar da idade, há participantes que nunca tinham ido em um museu, e o primeiro foi aqui. Imagina o encantamento”, afirma.

Se para o público a experiência é um diferencial, para os artistas isso também está presente. Deborah fala que o Inhotim oferece algo de muito precioso, pois a instituição proporciona aos artistas condições únicas para criar em um espaço aberto e maleável. “Há a possibilidade de criar projetos sonho, de artes que estão em consonância”, ressalta.

Aberto ao público em 2006, o Inhotim caminha para alcançar a marca de 3 milhões de visitantes. No ano de 2017, o museu recebeu 345.829 visitantes, um crescimento de 7,5% na comparação com 2016, que fechou com 321.724. Desse número, aproximadamente 13% são de fora do Brasil. Vale ressaltar que mais da metade dos visitantes tem acesso ao ambiente de forma gratuita por meio de projetos socioeducativos e também vindos das quartas-feiras, quando o grande público pode visitar o instituto sem comprar ingressos. Pelo espaço, encontramos crianças, casais, idosos encantados com todo o projeto. Afinal, são 140 hectares para visitação, além da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) com 249 hectares. A RPPN colabora de forma vitalícia para a conservação da biodiversidade, conectando o Inhotim ao sul da Cadeia do Espinhaço.

A fisioterapeuta Claudete de Araújo Luna veio de Brasília (DF) passar uns dias em Belo Horizonte. Antes de chegar à capital, pesquisou os pontos turísticos da cidade e viu muitas recomendações para Inhotim. “Fui com minha família, e nós gostamos muito. O espaço é bem arborizado, e as obras são distantes umas das outras. Tem a opção de alugar os carrinhos elétricos, mas a gente preferiu andar para apreciar a natureza. As artes são bem criativas, coisas que a gente não pensa e estão lá nas obras. Volto ao Inhotim com certeza”, afirma.

Por ser um espaço grande, em apenas um dia é impossível visitar todo o local. Apesar da opção dos carrinhos elétricos, o tempo fica escasso para conferir todas as obras de arte. A administração recomenda, pelo menos, dois dias para a visitação que também envolve a gastronomia.

Dois restaurantes, casa de sucos, hamburgueria e duas cafeterias podem ser encontrados durante o percurso. O médico de Belo Horizonte Euler Soares Roman sempre visita o Inhotim. Ele destaca que a parte artística sempre se renova, e esse é um dos motivos das visitas periódicas. “Além disso, a botânica me chama atenção. Venho aqui para descansar, ter tranquilidade e aproveitar a parte gastronômica, não somente a cultura”, ressalta.

Como tudo começou – O Inhotim começou com um sonho do empresário Bernardo Paz, que, no fim da década de 1980, começou a cultivar um belo jardim em sua fazenda – local onde hoje fica o Instituto Inhotim. Nessa época, o paisagista Roberto Burle Marx visitou Bernardo e deu alguns conselhos sobre como dispor espécies botânicas, a fim de formar uma bela paisagem. Na década seguinte, muito influenciado pelos trabalhos de Tunga, Cildo Meireles e Miguel Rio Branco, Bernardo Paz iniciou uma coleção de arte contemporânea e passou a adquirir diversas obras. Devido à relevância e à expansão do projeto, Bernardo decidiu abrir as portas para o visitante, possibilitando o acesso do público aos acervos artístico e botânico.
 
Origem do nome – Não se sabe ao certo como surgiu o nome Inhotim. Porém é uma pergunta que intriga visitantes de todos os lugares. De acordo com pesquisas e entrevistas realizadas pelo instituto, por meio do Centro Inhotim de Memória e Patrimônio (Cimp), há diferentes hipóteses para o surgimento da palavra. A mais conhecida conta que um minerador inglês chamado Timothy teria vivido na região de Brumadinho, no local onde hoje se encontra o instituto e era conhecido como Sir Tim, em português, Senhor Tim. No passado era muito comum, especialmente entre as pessoas mais simples, trocar o pronome senhor por nhô, uma forma mais rápida de falar. Assim, logo Sir Timothy se transformaria em Nhô Tim. Vale lembrar que não há confirmação sobre a história e que, segundo o Cimp, há outras narrativas mais plausíveis.
 




Fonte: Revista Família Cristã, edição 993, setembro de 2018
Postado por: Família Cristã




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