O sonho de salvar vidas

Data de publicação: 28/02/2019

Por, Roseane Welter

Atendimento médico, odontológico, terapias alternativas e psicológicas etc. é o que propõe o Projeto Saúde de Solidária ao atender a população ribeirinha da região do Marajó (PA)

A saúde é um direito garantido pela Constituição brasileira. Porém, acompanhando a crise da saúde nos noticiários, observa-se que, a cada ano que passa, a população padece com a precariedade do sistema público devido a falta de médicos, medicamentos e equipamentos, longas filas para o atendimento e esperas para a realização de exames. A maioria da população não tem acesso ao sistema privado, devido ao alto custo. Outra dificuldade é a falta de liberação de recursos para a saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2018 apenas 3,8% do orçamento do governo federal foi destinado a essa área, o que representa um percentual bem abaixo da média mundial de 11,7%.  Atualmente, 75% da população depende do Sistema Único de Saúde (SUS).

Saúde Solidária – Se essa realidade é alarmante no território nacional, como será a realidade para quem mora em regiões de difícil acesso. Foi pensando nestas pessoas e com o desejo de realizar um sonho de salvar vidas que a dra. Iracema Queiroz Ribeiro, 69 anos, ginecologista obstétrica, nascida em Breves, Ilha do Marajó (PA), escolheu a medicina para se dedicar à saúde das pessoas. Veio para São Paulo na juventude no intuito de fazer residência médica no Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho, e já se passaram mais de 40 anos de profissão e dedicação. 
A médica, em parceria com o Rotary Club Cambuci lançou há oito anos o Projeto Saúde Solidária, que tem como objetivo atender a população ribeirinha da região do Marajó. O projeto visa a levar o atendimento médico, odontológico, terapias alternativas e psicológicas, aliadas a atividades recreativas e oficinas de artesanato para a população ribeirinha do entorno da Ilha de Iracema, no interior do Pará, próximo ao Rio Pacajá, no município de Portel.
De Belém até a Ilha de Iracema, ponto de encontro e realização do projeto, são 300 quilômetros, e o único meio de acesso é via barco, contabilizando 24 horas de viagem.  É um projeto arrojado pela distância e pelos custos que oneram a sua viabilidade. “Começamos com cinco voluntários em 2011, e o projeto foi tomando forma, e a cada ano cresce e continua a crescer o número de pessoas que aderem a ele, visando a possibilitar melhores condições de vida à população da região”, enfatiza a dra. Iracema.
Neste ano, em sua oitava edição, o projeto contou com a participação de 45 voluntários das diversas áreas: médicos, dentistas, psicólogos, advogados, administradores, economistas. “Contamos com a participação de vários profissionais que nos ajudam nas diversas necessidades para a viabilidade do projeto, como o atendimento médico profissional, a logística, alimentação, entretenimento para as crianças, aulas de artesanato etc.”
Estamos falando de uma região rica e fértil em recursos naturais. O sustento dos ribeirinhos vem da floresta em sua abundância de água e peixes, frutas como o açaí, a farinha de mandioca e da caça. “A maior carência da população é realmente o acesso à saúde. As pessoas se deslocam de seus lugares até a Ilha de Iracema em busca de atendimento médico. E o nosso projeto acontece uma vez por ano. A distância para muitos até a cidade mais próxima é de três horas de barco, para outras 12 horas ou até um dia de viagem ou mais”, relata a médica. Emocionada, diz que muitas vezes a pessoa, por exemplo, uma mulher grávida em trabalho de parto com complicação, acaba não tendo condições de chegar até a cidade próxima e por isso vem a óbito. O projeto fica na ilha, geralmente, na última semana do mês de julho, o barco emprestado vira um minihospital e os profissionais voluntários se empenham ao máximo para atender a todas as pessoas que procuram um atendimento digno.
Em 2018, o Projeto Saúde Solidária atendeu 874 pessoas e 5.350 procedimentos foram realizados. Destes, 5 atendimentos de emergência, 784 consultas médicas, 283 atendimentos odontológicos, 230 vacinas, 360 crianças de até 12 anos no Escovódromo (ensino de como escovar os dentes), 41 testes de orelhinhas, 53 exames de Papanicolau, 230 participantes na oficina de bijuterias, 286 participantes nas palestras, 91 atendimentos social individualizado e aproximadamente 6 mil medicamentos distribuídos. Atende-se desde mulher grávida, crianças, jovens, adultos e idosos. “Este ano foram cinco dentistas, e eles levaram um consultório portátil que facilitou o atendimento. A demanda é grande para o atendimento odontológico e, infelizmente, este ano, por conta do tempo precisamos dispensar 109 pessoas sem serem atendidas e, para muitos, uma nova oportunidade de ir ao dentista será no próximo ano quando voltarmos, isso aperta o coração, mas nos faz acreditar e buscar mais voluntários para o projeto”, conta Iracema.

Maior e melhor retribuição – “Era para eu ser mais uma na região, vivendo as mesmas dificuldades dos meus conterrâneos. Mas tive a oportunidade de estudar, me formar e desde que saí de lá e vim para São Paulo sempre cultivei em meu coração o desejo de ajudar o meu povo. E hoje tenho a oportunidade de retribuir com esta ação que conta com pessoas que acreditam que fazer o bem é uma oportunidade de proporcionar felicidade e melhores condições de vida para quem precisa”. Os dias que estamos na ilha é um evento, para os ribeirinhos é uma espécie de Natal, uma festa. Levamos esperança, amenizamos o sofrimento, brinquedos e alegria para as crianças, e uma equipe que proporciona momentos lúdicos e brincantes”, afirma a idealizadora.  Todo o material de apoio é arrecadado ou adquirido durante o ano. “Por exemplo, se um ribeirinho precisa de um remédio, ele não tem onde comprar, se uma criança precisar de uma vacina, como vão conseguir, tudo é muito longe, por isso, quando vamos, precisamos levar tudo, desde alimentação, combustível para o barco a medicamentos.” O ideal seria, segundo Iracema, montar um posto de saúde e periodicamente ter um profissional capacitado disponível para atender a população. As dificuldades do povo ribeirinho são muitas, mas “a alegria e a gratidão são a maior e melhor retribuição que ganhamos. O brilho no olhar, o sorriso, um abraço, não tem dinheiro no mundo que pague”.

Colaboradores fiéis – O atendimento na ilha é feito dentro de um barco e numa casa de apoio da família da doutora. “A inspiração para este projeto foi minha mãe que, como ribeirinha, também enfrentou as mesmas dificuldades a que hoje o projeto atende. Minha família participa ativamente das ações para a realização anual do projeto. Meus três filhos, meus familiares que moram em Portel, minha irmã e meu cunhado de Santos (SP) são colaboradores fiéis, me apoiam e me ajudam em tudo.” O projeto é mantido com recursos próprios e é totalmente gratuito para os ribeirinhos. “Nós contamos com o apoio de parceiros como o Rotary, o Projeto Abraço, o Projeto Acolher e a Sociedade Bíblica do Brasil, pessoas físicas e jurídicas.” Cada parceiro é fundamental, assim, como os voluntários para que o projeto seja de possível realização. Atualmente o Projeto Abraço é o principal veículo de captação de recursos do projeto através de eventos, parcerias e patrocinadores. “Eu acredito que todos podemos fazer a diferença. Ao abraçar este projeto, percebi que no interior do nosso País há ainda uma grande ausência de assistência à saúde, à cidadania e à educação formal. Uma das alegrias é rever as pessoas atendidas no ano anterior. Formamos uma família”, destaca a voluntária Lucia Mitie Yasuhara, economista, bancária e coordenadora do Projeto Saúde Solidária.
“Contribuir com este projeto de fazer o bem para os ribeirinhos é um benefício para a nossa própria saúde. O tempo que ficamos lá na ilha é pouco em relação à dimensão das necessidades do povo”, enfatiza o dentista Silvio Sakuno, 53. A coordenadora do projeto destaca que um dos desafios é “melhorar o Programa de Geração de Renda através das diversas oficinas do Projeto Saúde Solidária, autossuficientes em recursos, e ampliar o atendimento odontológico levando próteses dentárias”. O projeto também abrange a parte espiritual com um momento ecumênico religioso, em que todos participam com fé e fervor. “Enche-me o coração de alegria ao ver o projeto em andamento, sou muito grata a Deus por este sonho realizado”, conclui Iracema.




Fonte: Revista Família Cristã, edição 993, Setembro de 2018
Postado por: Família Cristã




Comentários


Comente





Compartilhe este conteúdo:


Veja Também

Sinusite ou rinite?
Tanto a sinusite como a rinite são inflamações que afetam as mesmas regiões do corpo.
SAÚDE
A biotecnologia é uma ferramenta e, como tal, deve ser cuidadosamente examinada.
Curar com as mãos
Levar em consideração o corpo inteiro e tratar diretamente a causa do problema são as principais
Artrite, tendinite ou artrose
Qual a diferença e quais as características dessas patologias? Comecemos pela diferença entre artrite e tendinite. Ambas são inflamações
Algo fora do lugar
A endometriose é a responsável por até 45% das causas de infertilidade feminina.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 Próximo Final

Termos mais pesquisados

Busca avançada
Copyright © Pia Sociedade Filhas de São Paulo - Brasil - Direitos Reservados