Os doze profetas que encantam

Data de publicação: 12/04/2019

Por, Luciana Rocha
As esculturas de Aleijadinho, em Congonhas do Campo (MG), fazem parte do maior museu a céu aberto do mundo

Ainda nos braços da mãe, Joaquim Campos Vartuli, 5 anos, conheceu os doze profetas de Aleijadinho, esculturas feitas de pedra-sabão que chamam a atenção de milhares de pessoas que visitam Congonhas, cidade localizada a 80 quilômetros de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais.
Joaquim tem esse privilégio porque seus avós moram na cidade histórica e, desde cedo, visita o conjunto de esculturas. Sua mãe, a advogada Paula Silva Campos Vartuli, 42 anos, comenta que Joaquim já tem uma obra preferida: a do profeta Jonas, que tem a baleia aos pés. “Já perdi a conta de quantas vezes fomos. Com 2 aninhos, ele já percebia as obras, pois sempre passamos por lá. Eu fui com minha mãe aos 9 anos e achei lindo. Lembro que amei as obras que ficam nas “casinhas” (capelas), e até hoje gosto de vê-las pela greta das portas”, relembra.
Paula afirma que segue achando bonito todo o conjunto da obra. “Eu sempre tento contextualizar historicamente aquilo tudo ali. Penso que é muita sorte eu ter uma riqueza daquela numa cidade tão próxima”, ressalta.
Além de Jonas, o conjunto conta com esculturas de Abdias, Isaías, Jeremias, Habacuc, Amós, Baruc, Ezequiel, Amós, Daniel, Oseias e Joel. Produzidas entre 1800 e 1805, pelo escultor mineiro Antônio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho, as obras foram pensadas para compor o conjunto do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas, sendo parte do pagamento da promessa do ermitão português Feliciano Mendes. “A criação do santuário se deu pela fé de Feliciano. Curado da enfermidade que tomava seu corpo, ele cumpriu sua promessa de construir o santuário. Feliciano Mendes geriu a construção durante o restante de sua vida. Após seu falecimento, outros ermitões assumiram a responsabilidade da obra. Depois, o conjunto foi entregue aos cuidados da Irmandade do Bom Jesus de Matosinhos, que decidia quais seriam os responsáveis pela gestão. Atualmente, a paróquia do Bom Jesus de Matosinhos é responsável pelo gerenciamento do local”, explica Nathália Santos, coordenadora do setor educativo do Museu de Congonhas.
As estátuas foram esculpidas em pedra-sabão, uma matéria-prima bem comum em Minas Gerais. Nos últimos dois séculos, estão expostas no adro do santuário. As obras chamam a atenção do Brasil e do mundo. Tanto que já recebeu dois importantes títulos: em 1939, de Patrimônio Cultural Nacional e, em 1985, Patrimônio Cultural da Humanidade. O conjunto é considerado o maior museu a céu aberto do mundo e, ao longo dos anos, foi ganhando enorme importância e reconhecimento. “O apelo nas questões relativas à fé e religiosidade durante o século XIX e a sua redescoberta no século XX, com o caráter artístico, sempre despertou o interesse de peregrinos e turistas”, destaca o historiador congonhence, Pablo Osório.
De acordo com a coordenadora de comunicação do Museu de Congonhas, Janice Miranda, milhares de pessoas visitam anualmente o espaço, principalmente durante o Jubileu ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos, no mês de setembro. As férias escolares também registram grande público. O santuário fica aberto todos os dias da semana e a entrada é gratuita.
Além dos doze profetas, as estátuas mais famosas do mestre Aleijadinho, é importante conhecer o interior da Basílica do Senhor do Bom Jesus, repleta de obras de artistas do período colonial brasileiro, e as Capelas dos Passos, que compõem o conjunto arquitetônico. Nas capelas, espalhadas pelo jardim do santuário, podem ser encontradas estátuas de Aleijadinho que recriam as cenas da “Via Crucis”.
Mudança no olhar – Desde a “redescoberta” do conjunto, na virada do século XX, uma mudança na forma de se ver e pensar as obras passou a existir. “Muitos estudos foram feitos para garantir que as obras continuem a ser apreciadas durante os próximos séculos. Além de um constante monitoramento, que conta com auxílio dos guardas municipais da cidade para evitar danos, as obras recebem tratamento constantemente contra fungos e outros agentes biológicos. Neste sentido, também tem sido realizado um importante trabalho de educação patrimonial na cidade, coordenado pelo Museu de Congonhas, que é o primeiro e único museu de sítio do Brasil, e que faz uso de recursos de alta tecnologia para oferecer informações relevantes para que o público entenda e reflita sobre a grandiosidade e importância da história local”, explica Janice.
A ação do tempo nos doze profetas tem preocupado especialistas e visitantes em geral. “A ocorrência de estragos nas pedras motiva frequentes debates sobre a possibilidade de remoção das obras. Porém, a retirada envolve questões religiosas e históricas. No entanto, especialistas não têm uma posição definitiva sobre o assunto, prevalecendo, até o momento, a convicção de que o mais relevante é tomar medidas de prevenção e conservação”, reforça a coordenadora de comunicação do museu. O museu produziu, por meio de ações coordenadas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) no Brasil, novos conhecimentos para a conservação de monumentos em pedra, em especial relativos à produção de cópias digitais das esculturas, além da atualização da técnica de produção de cópias físicas. As cópias são uma medida de segurança essencial para se reproduzir as peças em caso de danos irreversíveis aos originais. Os profetas de Congonhas tinham moldes feitos em várias épocas, em especial nas décadas de 1970 a 1980, os quais não apresentam mais as condições necessárias à reprodução. Para dois profetas – Joel e Daniel –, foram produzidos novos moldes em fôrma flexível de silicone, possibilitando a produção de cópias em gesso. A instituição está captando recursos para dar continuidade a confecção das cópias dos demais profetas. Os doze profetas foram moldados em meio eletrônico (digitalização em 3D), o que correspondeu à primeira aplicação dessa tecnologia no Brasil. A ação também foi coordenada pela UNESCO no Brasil, que contratou o Grupo IMAGO, da Universidade Federal do Paraná, instituição de excelência que detém a expertise exigida para o trabalho. A digitalização em 3D possibilita, dentre outros, a visualização pura e simples (no museu ou remotamente pela internet); o uso profissional na preservação e restauro das obras; o monitoramento do estado de conservação das peças diante da ação do tempo; o estudo minucioso da obra e a compreensão das técnicas utilizadas pelo artista e a produção de réplicas com grande precisão.
A criação do Museu de Congonhas não tem como objetivo a retirada das esculturas do espaço público para abrigá-los no seu interior. A ideia é contribuir para fortalecer os estudos sobre a conservação de monumentos em pedra, atuando na educação e na conservação preventiva, assim como no estudo e difusão de técnicas e medidas de preservação. “Se, no futuro, essa medida for recomendada, o museu será a melhor alternativa para abrigar as peças originais ao público, já que se localiza no mesmo contexto em que as obras foram criadas”, ressalta Janice. As visitas ao museu ocorrem de terça a domingo, (faltou o horário), com ingressos a R$ 10,00, e estudantes pagam meia entrada. Na quarta-feira, a visitação acontece entre 13h e 21h, com entrada franca.


Fotos: Eliane Gouvea




Fonte: Edição 998, fevereiro de 2019
Postado por: Família Cristã




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