Quem ama, cuida e se cuida

Data de publicação: 04/06/2020


Por: Rosangela Barboza
Crédito das fotos: Arquivo Pessoal

Há um momento na vida em que nossos pais, que sempre cuidaram de nós e nos amaram incondicionalmente, tornam-se nossos filhos. Aqueles a quem nos acostumamos a ver tão ativos e cheios de vida aparecem fragilizados e necessitados de cuidados essenciais.

“Exige uma mudança radical na vida de quem cuida”, ressalta a psicóloga Paula Souza, da Clínica de Psicologia Psicorpus, em Camaçari (BA). Ela informa que o perfil dos cuidadores, segundo estudos brasileiros, demonstra a prevalência das mulheres, solteiras ou casadas, desempregadas, aposentadas ou que deixaram o emprego para cuidar do familiar. É comum que as casadas acumulem esse papel com o de esposa, mãe e avó, aumentando os conflitos familiares e os riscos de estresse emocional, transtornos ansiosos e depressivos. Em suma, cuidar dos pais (ou de outro familiar) é uma tarefa difícil. É verdade que: “Quem ama, cuida”, mas também precisa de cuidados e muito apoio.



Ruth, com a mãe  filha e neto: apoio da família


A paulistana Ruth Mitzuie Kluska, de 66 anos, lembra bem o tempo em que a mãe, Isome Naito, era a líder das atividades feitas com os amigos na academia, onde nadava e fazia ginástica, e na comunidade. Era ela quem sempre organizava almoços, viagens, passeios. E ainda atuava na Pastoral da Saúde. Mas, em 2009, chegaram os primeiros sinais de perda de memória. “Notei um comportamento diferente”, lembra a filha. No médico, o Alzheimer foi diagnosticado. “Eu comecei a ficar muito mal. Tudo o que eu pesquisava sobre a doença acenava que iríamos sofrer muito”, conta Ruth, mãe de três filhos casados e que moram em bairros distantes. Divorciada, Ruth se viu sozinha com a mãe (o único irmão faleceu muito cedo) e só tinha uma certeza: a de que cuidaria dela.


Áurea no meio, com os pais Arlindo e Antônia, e as irmãs Claúdia e Cristina


A história de Áurea Aparecida Mistro, de Guarulhos (SP), artesã de 53 anos, também foi reescrita a partir do diagnóstico de Alzheimer da mãe, Antônia, em 2016. Antônia e o marido, Arlindo, moravam no interior e precisaram voltar para Guarulhos, para a casa onde viviam anteriormente, no mesmo quintal onde Áurea mora com o marido Gilberto e os filhos. “O diagnóstico foi um choque. De repente, minha mãe se tornou filha”, lembra a artesã. Áurea tem duas irmãs mais novas, e as três se uniram para cuidar dos pais, mas Áurea é a cuidadora principal.

Ruth e Áurea têm a trajetória semelhante de todos os filhos que cuidam dos pais. Dificuldades, lágrimas e momentos de exaustão são pontos comuns, vencidos com fé, perseverança e amor, além de autocuidado e muito apoio.
Fé que sustenta – Áurea tem lembranças preciosas dos seus pais. Arlindo e Antônia sempre foram pessoas de fé e oração, participando frequentemente das missas. Exemplo para ela e as irmãs, que nunca imaginariam que o pai iria precisar de tanta atenção. No começo, os cuidados se voltaram à mãe, porém, ele não aceitou a doença da esposa e teve uma reação muito negativa e rebelde.

“Durante três anos, a luta maior foi com ele”, comenta Áurea. “Foram muitas as situações e acabei ficando doente emocionalmente.” Os anos passaram, a saúde dele foi ficando debilitada e veio uma depressão. As filhas o levaram a vários médicos, mas nada mudou. Até que, em novembro de 2019, ele faleceu, aos 83 anos, depois de ficar vinte e cinco dias hospitalizado. “As últimas palavras dele, dias antes, foi a oração do Pai-Nosso”, lembra a filha, emocionada. “Mas como ele mesmo nos ensinou, com Deus se vai longe; eu e minhas irmãs nos apegamos a Deus em todos os momentos.”

E o que a manteve em pé e bem nestes três anos foi a sua fé. Encontrou forças nas palavras do padre, seu orientador espiritual. “Às vezes ia correndo à igreja e chorava. E lá tive muita assistência e ainda o apoio de um psicólogo, voluntário da igreja.” Ela diz que a espiritualidade foi a sua “maior fortaleza”. “Sustentou-me muito e a sabedoria que tive, quando precisei, veio da fé e da Eucaristia.” A fé também a fez dar um significado especial à despedida do seu pai. “Nunca vi a ação de Deus tão plena. Ele partiu delicadamente, rodeado de cuidados. Foi um momento triste, mas ali percebi que Deus justificou a fé que meu pai teve toda a vida”, conta ela. A união de toda a família, marido, filhos, irmãs, também a fortaleceu. “Nunca tomei uma decisão sozinha. Sempre partilhava com minhas irmãs o que achava mais necessário.”

Os cuidados com Antônia, de 83 anos, continuam. “Eu e minha irmã nos revezamos. Minha mãe fica uma semana comigo e outra com ela. Eu voltei a descansar a mente e o corpo.” A mãe de Áurea sempre foi uma pessoa calma e silenciosa, o que torna tudo um pouco mais fácil, mesmo com o Alzheimer. “É um anjinho, com todas as suas fragilidades. Apesar da dor de saber que ela está perdendo a memória, tudo é mais tranquilo e cuidamos da melhor forma, com muito carinho.”

Depois de três meses da morte do pai, Áurea sentiu vontade de retomar às atividades na igreja. “Mas tinha medo de sentir alívio por meu pai não estar mais aqui.” E logo entendeu melhor a si mesma. “No lugar de alívio, Deus colocou a palavra ‘livre’. Como se eu estivesse livre de uma missão cumprida e pronta para escolher o que fazer com essa liberdade. E eu escolhi voltar a servir na Igreja, pois foi ali que me fortaleci nos tempos difíceis”, completa, agradecida.

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Fonte: Revista Família Cristã, edição 1014, junho de 2020
Postado por: Família Cristã




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