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Data de publicação: 07/11/2012

O frei Carlos Josaphat, um dos assessores do Concílio Ecumênico Vaticano II, relembra o acontecimento que mudou os rumos da Igreja no mundo há 50 anos

Há 50 anos, em 11 de outubro de 1962, o papa João XXIII abria em Roma, Itália, o Concílio Ecumênico Vaticano II. Além dos cerca de 2,5 mil bispos do mundo que participaram de um dos eventos mais marcantes, em todos os tempos, da Igreja, o Vaticano II teve a colaboração de vários assessores, como o frei dominicano Carlos Josaphat (foto), então com 40 anos. Hoje autor reconhecido com vários livros publicados, ele credita à previdencia divina sua presença ali. Pensava mesmo em seguir os estudos na França, mas o trabalho de editor no semanário Brasil Urgente, porta-voz das principais demandas dos movimentos sociais que ele liderava, não permitia. A quartelada de 1964 “resolveu” o problema. Convidado a deixar o País pelos militares, exilou-se na Europa. “Comecei a trabalhar na terceira seção do Concílio e acompanhei a produção do documento Lumen Gentium”, recorda. A seguir, algo mais das memórias desse nonagenário sacerdote conciliar.

FC – O senhor guarda alguma recordação especial do Concílio Vaticano II?
Frei Carlos Josaphat – Tenho a maior alegria em recordar a promulgação da Lumen Gentium, também conhecida como a Luz dos Povos, a constituição dogmática da Igreja e mais importante texto produzido ali. Mas a maior recordação data de 25 de janeiro de 1959, quando o papa João XXIII anunciou que convocaria um concílio geral com a intenção de abrir a Igreja para o diálogo com todos os cristãos. Foi o maior impacto de nossas vidas. No sentido positivo, aquilo teve o impacto de uma bomba.  

FC – Falando em bomba, a convocação do Concílio, historicamente, coincidiu com a Guerra Fria. De que forma o Vaticano II se inseria nos acontecimentos da época?
Frei Carlos Josaphat – Contextualizando os fatos, após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, havia uma aspiração universal que a humanidade se entendesse. Essa aspiração ficou expressa em 1948, quando a Organização das Nações Unidas publicou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Ao lado dessa Declaração, o Vaticano II, que veio a seguir, se constituiu nos dois maiores acontecimentos do milênio. Afinal, todos os cristãos estavam representados nele, como que levantando os braços para os céus para encontrar o caminho da paz para a humanidade. Na época, o Vaticano II se colocou acima de todas as ideologias. Teve a sabedoria de não julgar, condenar e muito menos excomungar ninguém. Sua proposta era a de dialogar com o mundo, principalmente com quem aspirava a paz e a justiça.

FC – Em uma época de profundas agitações sociais e revoluções nos costumes, os anos 1960, qual foi a contribuição do Vaticano II para a humanidade?
Frei Carlos Josaphat – Foi pregar a revolução de um Deus amor. Principalmente em relação aos outros Concílios, em geral realizados na perspectiva de condenar erros e definir a doutrina da Igreja. O de Trento, por exemplo, serviu para a Igreja opor a doutrina católica ao que então era apresentado como o erro protestante. O Vaticano I foi um Concilio antirracionalista, contra os erros do mundo. Já o Vaticano II não se ocupou de apontar erros ou declarar dogmas para enfrentar o mundo moderno. Sua ideia foi a de abrir os braços da Igreja para o mundo moderno e compreendê-lo. Com ele, a Igreja abriu uma porta para a procura do entendimento, da compreensão entre todos os povos e de um dialogo intercultural, interreligioso e ecumênico.

FC – Ele parece ter dado um novo fôlego à Igreja, não?
Frei Carlos Josaphat – Sim, contribuiu para a construção dentro da mente humana do conceito de que Deus, sobretudo, é amor, pois toda atitude conciliar convergiu para esse fim. A ideia do aggiornamento, termo que designa o desejo de que a Igreja saísse mais atualizada do Vaticano II, era também a de que a Igreja se olhasse no espelho do Evangelho e se tornasse a mais evangélica possível. Nesse sentido, podemos até dizer que o Vaticano II serviu como uma espécie de refundação da Igreja. Pois se muita gente pensava na fundação da Igreja como o ato de Jesus Cristo ter dado todo o seu poder a ela, o Vaticano II chegou e disse: o que Jesus Cristo deu à Igreja não foi poder, mas o seu Evangelho de amor, um espírito de amor para toda a Igreja ser iluminada com sua doutrina e energia. O Vaticano II procurou levar ao povo aquilo que Cristo, realmente, quis fazer.

FC – E conseguiu?
Frei Carlos Josaphat – Houve progresso por parte de muitos pastores e leigos. Também houve um crescimento das pastorais e da vida religiosa, das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base), etc. Em muitas dioceses, os bispos assumiram mais responsabilidades. No entanto, faltou mais suavidade em alguns pontos, como assumir a colegialidade dos bispos. A cúria romana conservou seu poder em detrimento de uma maior participação dos bispos do mundo nas decisões e nos rumos da Igreja. Muitos membros da cúria romana preservam a ideia de que quanto mais tradicional é a Igreja mais verdadeira ela é. Mas o Vaticano II dizia outra coisa: quanto mais a Igreja for evangélica e observar o Evangelho no seu tempo mais ela será verdadeira.

FC – Essa deve ter sido uma questão intensamente debatida, não?
Frei Carlos Josaphat – Sim, muito. Em 1963 houve, em Roma, um encontro que reuniu dezenas de teólogos da Igreja, entre as quais o então sacerdote Joseph Ratzinger, o papa Bento XVIII, dom Hélder Câmara e muitos outros participantes do Concilio, todos bastante abertos, diga-se. Na ocasião, lançaram uma pergunta a dom Hélder: como ele via a Igreja já no pós-Concilio? Entre outras coisas, ele disse que via a Igreja tendo uma espécie de senado mundial, sob a presidência do papa, claro. Esse senado seria bastante representativo do episcopado de todo o mundo e com um verdadeiro poder decisivo e não meramente consultivo.

FC – Qual, afinal, foi o resultado?
Frei Carlos Josaphat – A verdade é que o Vaticano II não conseguiu, em boa parte da Igreja, sobretudo em sua hierarquia, em seu centro, na cúria romana propriamente dita, implantar essa mentalidade de colegialidade, com uma participação maior e decisiva dos bispos do mundo. E delicadamente, o Concilio pediu isso ao papa, em um decreto: que fosse providenciada uma reforma na cúria romana. O que aconteceu, entretanto, não foi propriamente reforma, mas uma remodelação. Passaram a convidar, para trabalhar na cúria romana, menos italianos e mais representantes de outros povos e culturas. Mas a cúria tratou de manter a sua autoridade, não abriu mão dela. Hoje, os nossos sínodos, por exemplo, são apenas consultivos, sem autoridade alguma para decidir.

FC – Como funcionaria essa colegialidade de bispos?
Frei Carlos Josaphat – Todos os bispos do mundo trabalhariam juntos, ao lado do papa, e voltados para a Igreja universal. E não apenas de maneira consultiva, mas com poder de decisão. Pois bem, a Igreja faltou progredir nesse sentido. Tivemos, de certo, muitas iniciativas nesse sentido, como a nossa CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Mas até certo ponto... Ela não tem nenhum poder de decisão quando se trata de algo que toque a matéria de fé, moral etc. Um bispo que seja nomeado para, por exemplo, Belém do Pará, deve vir indicado de Roma. Por que a CNBB, que está mais próxima desses acontecimentos, não tem o poder de decidir isso? Penso, filialmente, que devemos progredir nesse sentido.

FC – O Vaticano II abriu a possibilidade, para não dizer a necessidade, de a Igreja aprender um pouco mais de democracia com o mundo moderno?
Frei Carlos Josaphat – No documento Gaudium et Spes, a constituição pastoral sobre a Igreja no mundo atual produzida no Concílio Vaticano II, está expresso que assim como a Igreja ensina o mundo ela também aprende com o mundo. Textualmente. E inclusive no sentido dos valores democráticos e dos direitos humanos, no sentido de como deve funcionar um parlamento, com a distinção dos poderes. Essa é, também, uma forma de dialogar com o mundo.

FC – E substituir a cúria romana por um colégio mundial de bispos ampliaria o diálogo da Igreja com o mundo?
Frei Carlos Josaphat – Sim, haveria, acredito, maior identificação. E isso não é um desejo novo ou sequer surgido há 50 anos, no Vaticano II. Já no início do Protestantismo, uma das primeiras coisas que Lutero disse foi que apelava da cúria romana para a Igreja romana. Ou seja, ele não via uma identificação da Igreja romana como a Igreja cabeça de todas as Igrejas do mundo.

FC – Ainda assim, dá para imaginar como seria o mundo e a Igreja sem o Vaticano II?
Frei Carlos Josaphat – É sempre difícil condicionar, sob o ponto de vista histórico, como estaríamos hoje se não houvesse acontecido isso ou aquilo no passado. Mas sem o
Vaticano II, certamente, o mundo estaria pior, pois já no pontificado de Pio XII a Igreja se sentia um tanto asfixiada. O papa João XXIII, um homem de oração, tinha plena convicção de tê-lo convocado por inspiração do Espírito Santo. E ao terminá-lo, em 1965, o papa Paulo VI afirmou que ele foi o maior dos Concílios, o mais ecumênico, o que tratou dos temas mais profundos e da forma mais prefeita. E tudo isso é mais do que exato. O Vaticano II foi de uma originalidade muito especial, pois nunca houve, antes, nada igual, e com tamanha abertura para a discussão.

destaques

“O que Jesus Cristo deu à Igreja não foi poder, mas o seu Evangelho de amor, um espírito de amor para toda a Igreja ser iluminada com sua doutrina e energia.”

“Muitos membros da cúria romana preservam a ideia de que quanto mais tradicional é a Igreja mais verdadeira ela é. Mas o Vaticano II dizia outra coisa: quanto mais a Igreja for evangélica e observar o Evangelho no seu tempo mais ela será verdadeira.”

Crédito: Antonio Edson




Fonte: Paulinas
Postado por: Administrador




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