A arte de consolar

Data de publicação: 07/11/2012

Autor: André Bernardo

Quem são os agentes do Ministério Extraordinário da Consolação e Esperança, que se propõem a transmitir uma palavra de carinho a quem perdeu um ente querido?

 
  Dom Orani Tempes, arcebispo de Rio de Janeiro, junto a túmulos de indigentes  
Há 30 anos, a aposentada Marilda Roriz Reis cumpre um ritual no Dia de Finados: logo cedo segue para o Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador, zona norte do Rio de Janeiro (RJ), e só volta à noite. Lá, transmite uma palavra de carinho a quem perdeu um ente querido, reza por aqueles que não estão mais entre nós e lembra a todos que a morte não é o fim, mas o começo de uma nova vida. Aos 77 anos, Marilda é a atual coordenadora diocesana do Ministério Extraordinário da Consolação e Esperança, o mais antigo do País. “A pior dor é a da perda de um ente querido. Perto da morte, todos os problemas parecem irrelevantes. Aprendi isso depois que comecei a trabalhar em cemitérios”, afirma.

O Ministério Extraordinário da Consolação e Esperança dispõe, atualmente, de 900 agentes para atender os 19 cemitérios da Arquidiocese do Rio de Janeiro. No Dia de Finados, o número de visitantes chega a 2 milhões. As missas são celebradas de hora em hora em alguns dos maiores cemitérios da cidade, como o de São Francisco Xavier, no Caju. Por isso, a citação evangélica “a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos” vale para quem aceita a missão de acender a esperança nos corações enlutados. “É difícil arranjar operários para essa messe”, admite Marilda.

Pastoral ou Ministério? – Também ela relutou até ingressar no Ministério. “Trabalhava em três hospitais e alegava falta de tempo. Até o dia em que resolvi aceitar o convite do Espírito Santo”, orgulha-se Marilda, enfermeira aposentada. Segundo ela, o Ministério nasceu em 1984, ainda como Pastoral da Esperança (ou das Exéquias), por iniciativa do cardeal dom Eugênio Sales. A princípio, o trabalho pastoral dos agentes se limitava a dois cemitérios: o São João Batista e o de Inhaúma. Mas, diante da boa aceitação da iniciativa, quatro anos depois, dom Eugênio expandiu a experiência.

Desde então, a Pastoral da Esperança da Arquidiocese do Rio de Janeiro não parou de crescer. Em 1999, dom Eugênio celebrou a investidura dos primeiros agentes pastorais e, em 2002, o arcebispo dom Eusébio Scheid instituiu o Ministério Extraordinário da Consolação e Esperança. “A Pastoral é um serviço esporádico e o Ministério, um serviço vinculante. Para ilustrar o vínculo que o Ministério tem com a Igreja, quem celebra o ritual da investidura dos novos ministros é o bispo”, explica o padre Pedro Paulo Santos, assistente do Ministério.
Além de montar uma biblioteca contendo volumes ligados à morte e ressurreição, o sacerdote instituiu quatro encontros anuais de formação de ministros. Segundo ele, sete em cada dez ministros são mulheres que, em geral, viveram uma experiência traumática. “Parte delas busca inspiração para superar essa perda através do engajamento no Ministério”, analisa o sacerdote. A mais recente turma de ministros recebeu a investidura das mãos do arcebispo dom Orani Tempesta, em junho.

Batismo de fogo − Entre os 50 novos agentes do Ministério Extraordinário da Consolação e Esperança está a cabeleireira Maria do Carmo Ferreira, 66 anos, que passou por um momento difícil em seu primeiro ritual. “A primeira encomendação que fiz foi na capela onde velei o corpo da minha mãe”, emociona-se. “Sem a graça do Espírito Santo, não teria conseguido. É na fraqueza do homem que Deus se faz presente”, reconhece. De fato, o caminho dos candidatos a ministro não é fácil. Primeiro, são convidados a fazer um estágio de seis meses em um cemitério. Depois, são convocados a participar do curso litúrgico que acontece aos sábados durante o mês de maio. Terminado o curso, o candidato é indagado se pretende assumir um compromisso estável com a Igreja Católica. Em outras palavras: ele precisa dar expediente, uma vez por semana, em um cemitério da região.

Marilda Roriz e Maria do Carmo, curiosamente, optaram pelo mesmo cemitério: o da Cacuia, na Ilha do Governador. Marilda dá plantão aos sábados e Maria do Carmo, às segundas-feiras. “O cemitério é um espaço privilegiado para a evangelização porque é um ambiente de religiosidade plural: temos ateus, protestantes, umbandistas etc. Além disso, o momento da morte de um ente querido é aquele em que o ser humano está mais fragilizado e questionador. A morte tende a trazer muitas perguntas. Mas o Evangelho tem resposta para todas”, tranquiliza o padre Pedro.

Apuros no velório − Com a experiência de quem atua em cemitérios há 28 anos, Marilda garante que, por diversas vezes, a pessoa enlutada fica tão sensibilizada com o trabalho pastoral que resolve ingressar no Ministério. Por outro lado, enfrentou situações difíceis. Como a vez em que foi abordada por um policial durante o velório de um traficante. “Dona, a senhora vai mesmo rezar por esse bandido?”, indagou o oficial. “Sim, vou. Ele pode até ser bandido para o senhor, mas, para mim, é um irmão”, respondeu. Ou, então, o dia em que enfrentou o deboche de um evangélico. “A família aceitou o ritual das exéquias, mas o camarada começou a fazer chacota. Na mesma hora, dei queixa dele para o pastor”, recorda Marilda.

Essa coordenadora diocesana gosta de contar suas histórias a quem está ingressando no apostolado, com o objetivo de preparar o espírito da pessoa. “Não é fácil dar de cara com um corpo em decomposição”, alerta, acrescentando que o fato de já ter trabalhado em ambiente hospitalar ajudou a superar situações embaraçosas. “Estava acostumada a dar uma palavra de conforto em um momento difícil”, admite.

A situação também não é nova para Maria do Carmo, que trabalhou por 28 anos no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na Ilha do Governador, como agente da Pastoral da Saúde. “Você não se sente mal em cemitério?” é uma das perguntas que ela mais ouve. O curioso é que, até pouco tempo, a resposta era “sim”. Hoje, porém, não mais. “Recarrego as baterias na Eucaristia. Caso contrário, poderia me sentir triste. Quando nos colocamos à disposição de Deus, o Espírito Santo age em nós”, afirma.  



 




Fonte: Família Cristã
Postado por: Administrador




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