A primavera na Igreja

Data de publicação: 08/11/2012

Dom Luiz Demétrio Valentini *


No ano do jubileu do Concílio Vaticano II, 2012, a Revista Família Cristã iniciou reflexões e, a cada mês do ano jubilar, aborda um aspecto deste vasto acontecimento da Igreja, com especialistas no assunto

Em suas homilias, com muita insistência, o papa João XXIII comparava o Concílio a uma nova primavera, que suscitaria profunda renovação na vida da Igreja. Ele enfatizava o elemento-surpresa, para ressaltar a intervenção do Espírito Santo na própria ideia de convocar um concílio. Esta convicção se fortalecia na rápida e entusiasta adesão à proposta do papa de realizar um concílio ecumênico para o nosso tempo.


Depois de 50 anos, é possível, e conveniente, olhar os fatos agora e encontrar razões históricas que ajudem a entender como o Concílio se tornou viável. Na verdade, ele se constituiu numa grande surpresa, que se explica à luz de intensas iniciativas eclesiais, que vinham dando consistência e vigor à caminhada da Igreja desde o fim do século 19, culminando com o pontificado de Pio XII.


A referência a Pio XII torna-se indispensável para evocar o contexto eclesial que precedeu o Vaticano II. Desde o início do seu pontificado, em 1939, ele conduziu com muita firmeza todos os assuntos da Igreja. Sua excepcional capacidade intelectual lhe permitia abordar pessoalmente as mais variadas temáticas, com lucidez teológica, e com firmeza disciplinar. De tal modo que, ao terminar seu mandato, em 1958, deixava a Igreja atualizada e em ordem, sobretudo do ponto de vista disciplinar e teológico. Ninguém podia imaginar que estivesse às vésperas de uma convocação conciliar.


Como a história antiga se refere o contexto do Império Romano por ocasião do nascimento de Cristo, dizendo que ao Império estava “toto orbe in pace compósito” – “estando em paz o mundo todo”, assim se podia dizer do estado da Igreja deixado por Pio XII: “tota ecclesia in ordine compósita”.


A proposta – Pio XII tinha deixado a Igreja em completa ordem. Parecia não haver nenhuma necessidade de concílio. O contraste de personalidades ajuda a compreender a diferença de procedimentos. Cauteloso e precavido, Pio XII tinha nomeado uma “comissão secreta” para estudar a viabilidade de um concílio. Ao passo que João XXIII teve a ideia, e, na primeira oportunidade, propôs para toda a Igreja, que prontamente a acatou, desencadeando um processo que logo se tornou irreversível.


Mas a rapidez da adesão não se deveu só à simpatia do papal. Havia caudais subterrâneos na Igreja, que aguardavam a oportunidade de emergir e mostrar sua força. O anúncio de um concílio, com a abertura proposta por João XXIII, se constituiu em ocasião propícia para muitas iniciativas eclesiais se firmarem, expressando seus valores, e se inserirem na renovação eclesial, proposta pelo Concílio.


Assim, bem ao contrário de parecer estranho à conjuntura eclesial, o Concílio se tornou um vasto estuário, que podia recolher a grande riqueza teológica, litúrgica, bíblica, espiritual e pastoral que a Igreja tinha cultivado ao longo do seu último século.


O Concílio Vaticano II não foi, em absoluto, uma ruptura na caminhada da Igreja. Mas uma excepcional oportunidade de valorização dos preciosos aportes dos diversos movimentos eclesiais que precederam o Concílio, sem os quais ele não se entenderia.


Entre eles, os movimentos litúrgico, bíblico e ecumênico, a ação católica, e o Movimento por um Mundo Melhor, liderado pelo padre Lombardi, que identificou rapidamente no Concílio a realização mais ampla de todos os seus anseios de renovação eclesial.


A descoberta – Convocado o Concílio, a Igreja se deu conta da riqueza que tinha acumulado, em forma de propostas pastorais, de valores a serem assumidos e partilhados, de energias que se traduziam em prontidão generosa e contagiava o povo de Deus, que se mostrava alegre e feliz por ver que se abriam as portas de uma renovação em profundidade de toda a Igreja.


Porém, sobretudo, a Igreja pôde dispor da riqueza inestimável de peritos em todas as áreas. Eles foram convocados para colaborar na realização do Concílio. Colocaram generosamente seus talentos a serviço dos grandes temas que tal iniciativa ia abordando. Sem saber, a Igreja tinha se preparado longamente para a ocasião. Esta é a verdade que agora devemos reconhecer com mais evidência e lucidez.


Cada um dos movimentos deixou marcas evidentes, tanto na preparação do Concílio, como na redação dos seus documentos. O litúrgico foi o primeiro a mostrar sua contribuição, com seu caudal de pesquisas feitas em diversos mosteiros, sobretudo da França e da Bélgica. Este movimento já tinha sido valorizado por Pio XII na encíclica Mediator Dei, de 1947. E tinha produzido a restauração da Semana Santa em 1955, que se constitui em preâmbulo histórico da grande renovação litúrgica proposta pelo Concílio.


O movimento bíblico já tinha contado com a encíclica Divino Afflante Spiritu, de 1943, na qual, Pio XII recolheu os últimos avanços das pesquisas bíblicas. Por sua vez, os estudos bíblicos tinham aproximado teólogos católicos e protestantes, fortalecendo o movimento ecumênico, que propiciou a presença de numerosos observadores de outras Igrejas, com o influxo positivo que este fato proporcionou ao Concílio.


A Ação Católica, nascida na Bélgica, mas assumida com entusiasmo ainda no pontificado de Pio XI, propiciou o envolvimento dos leigos, que antecederam na prática à grande afirmação conciliar da visão de Igreja como “povo de Deus”.


Tudo isso mostra como o Concílio pode ter sido, sim, uma primavera surpreendente, mas não foi um fruto temporão. Ele resultou da rica caminhada da Igreja, que ele acolheu, aprofundou e consolidou.


O Concílio Vaticano II precisa ser visto como integrante da vida da Igreja, tanto na sua preparação, como na sua realização, e agora na implementação de suas propostas de renovação eclesial. Assim ele mostra sua permanente validade.



* Dom Luiz Demétrio Valentini é bispo de Jales (SP). Participou da 4ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano em Santo Domingo (República Dominicana), em 1992; do Sínodo Especial da América, em 1997; e da 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, na cidade de Aparecida (SP), em 2007.





Fonte: Família Cristã 913 - Jan/2012
Postado por: Administrador




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