O futuro chegou

Data de publicação: 18/03/2013

Por Jucelene Rocha


O modelo de sociedade que vivemos passou a ser identificado como hipermoderno, denominação que a rigor é utilizada em referência a uma exacerbação dos valores criados pela modernidade, no entanto, este modelo ainda não encontrou referenciais práticos que o alinhem, por exemplo, ao mundo do trabalho. Espaço frequentemente regido por regras que já não se encaixam nas novas engrenagens do mundo conectado por redes que vão muito além dos códigos de computadores e exigem novas configurações tanto das estruturas organizacionais, quanto das pessoas. Foi pensando nestes novos paradigmas que o sociólogo italiano Domenico De Masi (foto) iniciou suas pesquisas tomando como referencial o ócio, espaço do cultivo de saberes e prazeres produtivos. Autor de diversos livros entre eles Ócio criativo, o sociólogo participa entre os dias 20 e 22 de março do Refletir Brasil, evento que reunirá empresários e intelectuais em Paraty–RJ. De Masi falou à Família Cristã sobre o potencial intelectual e produtivo do brasileiro e sobre seu novo livro O Futuro Chegou.

FC  − O que o levou a tornar a temática do ócio como centro de suas reflexões sobre o presente e o futuro das sociedades?
Domenico De Masi  − Há 100 anos 90% da população ativa desenvolvia trabalhos físicos, repetitivos, cansativos, perigosos, entediantes. Hoje 70% dos trabalhadores desenvolvem atividades intelectuais do tipo executivo (como funcionários) ou do tipo criativo (cientistas, artistas, profissionais liberais, jornalistas, professores etc.).
Mas nós usamos uma única palavra – trabalho – para indicar a atividade humana paga, qualquer que seja sua natureza. Dizemos que “o mineiro trabalha”, que “o mecânico trabalha”, que “o artista trabalha”, que “o poeta trabalha”, que “o cientista trabalha” etc. Isso por dois motivos. O primeiro é que os nossos antepassados pensavam que atividade intelectual não era trabalho. Não por acaso o escritor Conrad dizia: “Como faço para explicar à minha esposa que, quando olho pela janela, estou trabalhando?”. O segundo é que toda a ciência organizativa foi desenvolvida nas fábricas, relacionada ao cansaço físico e, sobretudo, à cadeia de montagem. Posteriormente, as mesmas regras pensadas em função da fábrica foram aplicadas à atividade intelectual, criando desmotivação e sentimento de crise no gestor, nos profissionais, nos funcionários, na diretoria.
Para interromper esta confusão, pensei em dar um nome novo à atividade intelectual, deixando o termo “trabalho” apenas ao cansaço físico. Depois percebi que uma das principais diferenças entre o trabalho físico e a atividade intelectual é que esta última possibilita, simultaneamente, trabalhar criando riqueza, estudar criando conhecimento, divertir-se criando o sentimento de bem-estar. Eu acredito que o trabalho é humano apenas se for inteligente e livre; se, enquanto o desenvolvo, divirto-me e aprendo.
Quando isso ocorre, prefiro falar de “ócio criativo” em vez de “trabalho”. Então, quando digo que uma pessoa faz “ócio criativo” não quero dizer que ela descansa, não faz nada, que é preguiçosa. Mas sim que ela faz três coisas ao mesmo tempo: trabalha, estuda e se diverte.

FC  − Com o predomínio das novas tecnologias haverá espaço para a valorização saudável do ócio?
Domenico De Masi  − As tecnologias substituem o trabalho humano: algumas (como um martelo pneumático) substituem o trabalho físico; outras (como o computador), substituem as atividades intelectuais. Em ambos os casos as tecnologias possibilitam tempo livre, durante o qual o indivíduo se entedia ou se deprime se é inculto, se realiza e se diverte se é dotado de uma cultura adequada e se é educado para viver o tempo livre com interesse. O tempo livre é uma arte, e é preciso muito treinamento para aprender as regras.


FC  − Em um dos seus livros destaca que “a plenitude da nossa existência só é atingida nos momentos em que o trabalho, o estudo e o jogo acabam por coincidir, produzindo prazer de viver, satisfação e alegria”. Os indivíduos e as corporações estão buscando se aproximar mais desse ideal?
Domenico De Masi  − Para praticar e apreciar o ócio criativo, para se divertir trabalhando, deve-se abandonar a ideia de que o trabalho é um castigo infligido ao homem para reduzir o pecado original. O trabalho é penoso como um castigo quando consiste em um cansaço físico e quando, mesmo sendo uma atividade intelectual, não corresponde à nossa vocação natural. Ou quando é insignificante ou privado de liberdade.
Em vez disso, quando é criativo e livre, não é um castigo, mas um dom; é a própria essência do homem; o instrumento com o qual o homem prossegue nos séculos a obra criativa de Deus.

FC  − O Brasil tem o estereótipo de país do carnaval e do futebol, além de geralmente ser visto como um país de povo cordial e criativo. Na sua avaliação esses estereótipos contribuem para uma assimilação inteligente das novas oportunidades diante das transformações políticas e econômicas do mundo?

Domenico De Masi  − O carnaval e o futebol são duas das atividades criativas e merecem reconhecimento máximo. O estereótipo do carnaval e do futebol faz alusão a algumas qualidades raras e autênticas do Brasil: sua capacidade de acolher e se solidarizar, sua alegria, sensualidade, vitalidade, sua capacidade de se relacionar. Além disso, o Brasil tem um povo pacífico que, tirando casos raros, nunca entrou em guerra com os seus dez países vizinhos. Finalmente, o Brasil é uma democracia completa, onde dezenas de etnias convivem sem extremismos de raça.
O modelo de vida brasileiro, comparado aos tantos outros modelos existentes no mundo – o indiano, o chinês, japonês, muçulmano, europeu, americano etc. – é certamente o mais humano: aquele no qual se pode cultivar melhor a amizade, o amor, a brincadeira, a beleza e a sociabilidade.
Acabei de terminar um livro exatamente sobre esse tema, intitulado O futuro chegou, que será publicado no Brasil, na Itália e nos Estados Unidos.


FC  − Acredita que o Brasil pode vir a oferecer ao mundo um novo modelo político-econômico de desenvolvimento? Neste sentido, quais as maiores vantagens do Brasil com relação a outros países?
Domenico De Masi  − Na China a renda per capita é de US$ 4.500 e cresce 11 pontos ao ano. As distâncias entre ricos e pobres estão reduzindo. Mas o governo não é democrático e sua política é economicamente agressiva.
A Índia é um país democrático, mas há anos sua democracia é governada de modo “hereditário”, pela mesma família. Sua renda per capita é de US$ 1.400, mas cresce 9 pontos ao ano. As distâncias entre os gêneros e as castas ainda são intransponíveis. Além disso, este grande país está frequentemente em guerra com seus países vizinhos e, internamente, há lutas entre suas várias religiões.
O Japão é uma democracia rica e sua renda per capita é de US$ 43.000 ao ano, mas já não cresce. Sua cultura é agressiva e pouco propensa à serenidade feliz.
Os países muçulmanos são diferentes entre eles por renda e por regime político. Mas seu monoteísmo, muitas vezes, leva ao fanatismo religioso e ao extremismo terrorista. As condições das mulheres são escandalosamente submetidas às dos homens.
Na Europa a renda varia entre 20.000 e 50.000 Euros, mas já não cresce mais. A democracia é completa, mas a qualidade de vida, modelada na americana, está ameaçada pela competitividade e pelo consumismo.
Os Estados Unidos são o país mais rico e mais potente do mundo; sua democracia é completa, mas seu modelo de vida é caracterizado por um extremismo consumista e um fundamentalismo materialista que o levam a viver em guerra permanente contra o inimigo do momento.
O Brasil é uma democracia com US$ 11.000 de Produto Interno Bruto per capita e com uma redução progressiva das distâncias entre ricos e pobres. Imitou a Europa por 450 anos e os Estados Unidos por 50 anos. Agora que estes dois modelos estão em plena crise, o Brasil não tem mais modelos para imitar. Graças às suas características naturais, econômicas e antropológicas, possui as qualidades para elaborar um modelo próprio de vida e para oferecê-lo ao mundo como contribuição à felicidade humana.


FC  − Como definiria a brasilidade do ponto de vista dos aspectos que observa na população? Do ponto de vista da intelectualidade é possível perceber essa brasilidade ou continuamos a copiar os modelos europeus e norte americanos?
Domenico De Masi  − Eu já defini a brasilidade como uma condição cultural na qual convivem solidariedade, acolhimento, sensualidade, alegria, sociabilidade, beleza e a inclinação à felicidade. Também o Brasil, como o mundo todo, foi americanizado. Principalmente São Paulo e a elite econômica que envia seus filhos para estudar nas universidades americanas e substituem o português pelo inglês. Mas no Brasil resiste uma base cultural fortemente indígena, já descrita por Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Cristovam Buarque. Esta base cultural é preciosa para a sobrevivência da humanidade, assim como o oxigênio da Amazônia é precioso para a sobrevivência ecológica do planeta.


FC  − Entre os prêmios que já recebeu está o de Cidadania honorária do Rio de Janeiro, como observador e sociólogo o que mais chama atenção no Brasil?
Domenico De Masi  − Como todos os escritores de certa idade, tive muitos prêmios e reconhecimentos durante toda a minha vida. Mas de nenhum deles tenho mais orgulho do que o da cidadania honorária recebida no Rio de Janeiro. O Rio é a cidade mais bonita do mundo; a cidade que deu origem ao meu inesquecível amigo Oscar Niemeyer.
Viajo para muitos países, mas a maior sorte é poder viver na Itália e ir frequentemente ao Brasil. Esses dois países são complementares e gêmeos: um é o passado, o outro o futuro. Um futuro que já chegou.




Fonte: Família Cristã 927 - Mar/2013
Postado por: Família Cristã




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