Na flor da idade

Data de publicação: 25/03/2013

Por Fernando Geronazzo

É fato que os idosos estão descobrindo a fonte da juventude. São grupos de convivência, práticas esportivas, lazer, bailes, festas, medicamentos e hábitos que trazem para a terceira idade mais qualidade de vida e maior liberdade. Porém, como para todos os jovens, seja em idade ou em espírito, é preciso viver esta liberdade com responsabilidade, pois, se juventude não tem idade, os riscos também não.
Da mesma forma que os pais se preocupam com os abusos dos filhos, hoje muitos filhos e netos devem estar atentos ao comportamento dos idosos. Pesquisas apontam que os casos de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) entre pessoas acima dos 50 anos dobraram na última década. No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que o número de novos casos nesta faixa etária subiu 103%.

Causas – Para o médico infectologista Jean Gorinchteyn, responsável pelo Ambulatório do Idoso do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo (SP), referência para o tratamento de doenças infectocontagiosas no Brasil, o primeiro motivo para o crescimento deste índice se deve ao aumento da população idosa. “As pessoas estão envelhecendo mais e com saúde. Na medida em que essas pessoas envelhecem com saúde, passam a ter uma socialização e, dentro desta questão, a sexualidade acaba sendo uma consequência. Entre as doenças mais comuns estão hepatite B, HPV, sífilis e a própria Aids.”

Com riscos também existem muitos pacientes que usam medicamentos corretores de disfunção erétil. “Muitas vezes esses homens nem necessitam usar essa medicação. Porém a partir do momento em que as utilizam, certamente irão procurar se relacionar com pessoas mais jovens e isso, logicamente, acaba aumentando o risco de contaminação”, alerta o médico.
Por essas razões, 60% das pessoas contaminadas por DST são homens. A maior justificativa para um menor número de mulheres contaminadas está relacionada com a menopausa. “As mulheres quando entram na menopausa sentem um desconforto nas relações sexuais, perdem o interesse sexual e, com isso, muitas vezes até sublimam o sexo da vida delas. Diferentemente dos homens, que se mantêm ativos na sua sexualidade”, destaca o infectologista.

Embora o número de mulheres contaminadas seja menor, isso não exclui o fato de que as mulheres idosas estejam buscando relacionamentos afetivos. “A sexualidade feminina passa muito mais pelo companheirismo do que pela relação sexual propriamente dita, como acontece com a maioria dos homens”, explica a psicóloga Valmari Cristina Aranha, diretora do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e coordenadora de vários projetos ligados a idosos na Universidade de São Paulo (USP). “Talvez as mulheres falem menos sobre isso, mas nos consultórios psicológicos elas contam. Muitas vezes não expõem isso para a família até por uma questão cultural”, completa.

Em relação ao tratamento de portadores de HIV, não há diferenças por conta da idade. Porém, o dr. Jean Gorinchteyn ressalta que alguns medicamentos podem trazer determinadas alterações que necessitam de maior atenção. “Como essas drogas acabam levando a algumas alterações nas taxas de colesterol, triglicérides, glicemia do paciente, À medida que o indivíduo inicia este tratamento, podemos ter um agravo nessas doenças que o paciente já apresentava.”

Informação e diálogo – Mas, sem dúvida, o principal fator que expõe os idosos a esse risco é a falta de informação. “A geração que hoje é idosa não foi educada para a sexualidade, não se falava nesse tema. Isso faz com que tenhamos dificuldades ainda hoje para abordar essa questão com a terceira idade”, chama a atenção a psicóloga.

Essa falta de informação além de trazer o risco do contágio com DST, também expõe o idoso a situações de violência. “A busca de relacionamentos afetivos pode levar os idosos a encontrar pessoas que se aproximam delas só por interesse”, alerta Valmari. Nesse sentido, é importante que a família busque conhecer com quem os idosos solteiros ou viúvos se relacionam.

A informação pode também oferecer condições aos idosos para viverem a sexualidade com responsabilidade dentro do próprio casamento. “A primeira forma de ajudar é respeitar a sexualidade do casal idoso. Evitar tratá-los como crianças, neutralizando ou minimizando a importância da sexualidade para eles. É preciso ajudar o idoso a não achar que ter desejo sexual é errado. Se a família consegue respeitar, facilita para que essa pessoa se sinta à vontade para falar sobre o assunto”, afirma Valmari, que reforça a importância de sempre se buscar tirar dúvidas com um profissional.

Um exemplo dado pela especialista é quando um casal jovem com filhos faz uma viagem junto com um casal idoso e as crianças dormem no quarto dos avós, imaginando que esses não têm uma vida íntima. “Atitudes como essas reforçam para os idosos que sexualidade não é algo para eles.”

O estímulo do diálogo e da informação pode impedir que os casais da terceira idade criem bloqueios sobre a sexualidade que gerem a busca de um eventual relacionamento extraconjugal. Antes a relação não existia porque uma pessoa não queria e a outra não podia, agora uma não quer, por uma série de fatores, e o homem retoma a possibilidade da ereção por conta das medicações. “O que nós orientamos é que o casal desenvolva formas adaptativas de exercer a sua própria sexualidade. Que haja troca de afeto e carinho, pois o afeto é mais importante para muitos casais do que a relação sexual em si”, conclui a especialista.


Números preocupam

De acordo com o Boletim Epidemiológico Aids e DST/2011, feito pelo Ministério da Saúde, o número de novos casos de Aids entre pessoas acima de 50 anos passou de 2.707, em 2000, para 5.521, em 2010 – um aumento de 103%.

Só no Ambulatório do Idoso do Hospital Emílio Ribas, 75% dos infectados são do sexo masculino. Dos cerca de 120 pacientes (entre homens e mulheres) atendidos no local, 90% têm entre 60 e 65 anos, 80% são heterossexuais e 78% são casados.




Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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