O cristão como sacramento

Data de publicação: 17/04/2013

Por Frei Luiz S. Turra, ofm cap. *

Este assunto parece ser um tanto estranho em nossa literatura e em nossa mente. Quando pensamos e procuramos os sacramentos, dificilmente nos damos conta de que nós, cristãos, somos chamados a ser sacramentos no mundo e para o mundo. Por si só, o nosso viver humano aqui nesta terra confirma que não há homem ou mulher que não tenha sido criado à “imagem e semelhança de Deus” (Gn 1,26). Cada pessoa, com sua identidade, seu rosto e sua liberdade não chega ao mundo como fruto do acaso, mas traz consigo uma vocação e uma missão.

Tantas vidas que vêm e que vão, que nascem e morrem, que perambulam pelos caminhos são jogadas ou se jogam no anonimato. É trágico ao ser humano ter que viver como se não vivesse; ter que sufocar uma existência com mecanismos de permanente morte, em vida.

Hoje, fala-se muito de autoimagem, autoestima etc... A psicologia pode oferecer seus argumentos para um certo nível de cultivo ou resgate desta autoestima, mas não há ciência nem mecanismo que consiga definir a grandeza e a sacralidade da vida, quanto ao fato de sermos “imagem de Deus” aqui e agora. Se assim me vejo, me acolho e me sinto, também necessito ver, acolher e sentir no outro esta marca sagrada.

Para o filósofo Soren Kierkegaard, “o homem não se prepara para o cristianismo pela leitura de livros ou pelas perspectivas histórico-mundiais, mas pelo aprofundamento na existência”. Aprofundando o sentido sacramental da existência, encontraremos melhor a luz da verdade que ilumina o sentido de nosso viver no mundo.

Se a existência humana, em si, já traz a marca da sacramentalidade de um Deus que oferece a todos a sua amizade e confiança, muito mais a existência cristã. Não existe pessoa que não tenha sido salva por Deus em Cristo.

A fé cristã faz a diferença - É bem verdade que o acontecimento Jesus Cristo veio revelar o rosto humano de Deus e o rosto divino dos humanos. Nele temos acesso à vontade do Pai a respeito de nossa existência. “Cristo manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação... ‘Imagem de Deus invisível’ (Cl 1,15), Ele é o homem perfeito, que restituiu aos filhos de Adão a semelhança divina, deformada desde o primeiro pecado” (Gaudium et Spes 264, 265).

A fé cristã confere à pessoa que deseja se sentir um sacramento vivo e presente na História a diferença de poder procurar viver sua humanidade, sociabilidade e religiosidade a partir de Cristo. O especificamente cristão é o próprio Jesus Cristo. Além de o cristão se saber um sacramento de Cristo no mundo, também sabe reconhecer o “sacramento do irmão”. Assim como em Cristo e na Igreja acontece com o cristão no mundo.

O ser do cristão - Em nosso ser cristão, vivemos a dupla dimensão do visível e do invisível. Em nós está o humano e o divino. Somos filhos de Deus, templos do Espírito, membros do Corpo, participantes da vida divina (cf. 1Cor 6,19-20; 3,16; 2Cor 13,5.11.13). Nós somos de Deus em nosso próprio ser humano. “Temos este tesouro em vasos de barro, para que transpareça claramente que este poder extraordinário provém de Deus e não de nós” (2Cor 4,7). Este sacramento que torna ainda mais visível Cristo e a Igreja se concretiza, de modo especial, nos pobres e necessitados. Basta lembrar aqui os critérios do juízo final.

O fazer do cristão - As atitudes e o comportamento ético do cristão, bem como o seu testemunho, tornam verdadeira a sua dimensão sacramental na comunidade e no mundo. A qualidade das ações do cristão e o nível de intencionalidade é que vão revelando o segredo interior que sustenta sua missão. Madre Teresa de Calcutá dizia que, em geral, não somos capazes de fazer grandes obras, mas todos podemos fazer as pequenas ações com grande amor. Evangelizar é mais fazer do que dizer. “É pelo fruto que se conhece a árvore” (Mt 12,33).

O falar do cristão - Se o ser do cristão e suas ações sacramentalizam a imagem e semelhança de Deus, o ser e as ações de Cristo e da Igreja, também o seu dizer e suas palavras, confirmam ou negam a sacramentalidade da vida cristã. “A boca fala do que o coração está cheio. O homem de bem tira boas coisas de seu bom tesouro e o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro... No dia do julgamento, todos devem prestar contas de cada palavra inútil que tiverem falado” (Mt 12,34-36). O cuidado no que se diz e no como se diz também faz a diferença para o cristão.

Conclusão - Cristão não é título de privilégio, nem alguém a mais no meio da multidão que improvisa a vida. Cristão é um jeito de ser ao jeito de Jesus Cristo. Nele encontra um Mestre que o identifica como sacramento na comunidade e no mundo. Assumir este novo modo de existir significa ir ao encontro da mais qualificada realização humana, social e religiosa.

* Frei Luiz S. Turra pertence à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos.

Perguntas

O que desperta em você a verdade de ser um sacramento?

Qual a diferença que a fé faz acontecer na vida do cristão?

Em que revelamos que somos sacramento?




Fonte: Família Cristã 903 - Mar/2011
Postado por: Família Cristã




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