Todos por um

Data de publicação: 19/04/2013

O povo Guarani da Aldeia Itaty Terra Indígena do Morro dos Cavalos, no interior do estado de Santa Catarina, não abre mão de preservar os costumes e a sua tradição.

Por Andreza Espezim

O primeiro contato que tivemos com os indígenas foi na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica. Falamos com Marcos Moreira (em Tupi-gurani, Karai Popygua, significa líder dos bastões), 30 anos, que primeiro nos pediu: “Será que vocês podem dar um espaço pra falar da nossa luta? Porque a gente está cansado de receber as pessoas, os jornalistas, e eles não falarem a verdade sobre os indígenas, o nosso povo guarani”. Combinamos de visitar a aldeia onde Marcos mora. E assim fomos!

Visitamos a Aldeia Itaty Terra Indígena Morro dos Cavalos, localizada às margens da rodovia federal BR-101, município de Palhoça, em Santa Catarina. Itaty significa pedreira, na língua Tupi-guarani. Quem nos recebeu foi a cacique Eunice Antunes (em Tupi-guarani, Kerexu Yxapy, significa criatura líder dos orvalhos), 33 anos. Ela é casada com Marcos. Eles têm quatro filhos: Kennedy Antunes (em Tupi-guarani, Karai Nhemboyvate, significa líder dos líderes), 17 anos; Sheyla Moreira (Nhembojere, significa algo que gira, um ciclo), 14 anos; Rayanna Antunes (em Tupi-guarani, Kerexy Takua Ju, significa dona de todas as sementes), 12 anos; e Karaí Antunes (em Tupi-guarani, Karai Nhevangá, significa líder das brincadeiras), 7 anos.

Eunice é natural de Chapecó (SC) e é cacique há um ano. O cacique é eleito por toda a aldeia, inclusive as crianças e os anciãos votam. Seu papel é representar a comunidade, articulando com os órgãos públicos. Para não perder o contato diário com a família, por conta de seus compromissos fora da aldeia, ela costuma levar todos juntos: “Às vezes eu fico um pouco constrangida que as pessoas de fora não têm esse costume e às vezes eles ficam olhando, falando assim: ‘Nossa, mas estão ela, o marido dela, o filho dela, a filha dela, todo mundo tá aqui na Universidade. E aí não é só comigo né, tem vários indígenas lá na Universidade mesmo que, estão lá a mãe, o pai, o filho, a filha. Mas a gente vê que todo mundo é igual por causa disso. Na parte de educação dos filhos a gente é muito parecido, embora sendo de línguas diferentes, a gente é bem parecido nos valores, os valores da educação, os valores da família. E a luta também, pela questão da terra”, relata a cacique se referindo também aos indígenas das etnias xokleng e kaingang que estudam na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Dia guarani – A vida na aldeia gira em torno da Escola Estadual Itaty, que tem aulas para todos da comunidade, desde crianças a adultos. O centro da comunidade é a escola, onde tudo é colocado em comum, como conta a cacique: “Desde às sete e meia por aí, o pessoal já está tudo na escola. Os alunos, os que não são alunos, as pessoas mais velhas, eles se reúnem ali para tomar café, tomar o chimarrão e ficarem ali conversando, porque para nós, quanto mais juntos a gente estiver, melhor”. As famílias costumam partilhar o que têm, colocando tudo em comum. “Tem momentos aqui na aldeia que a gente passa por aquela dificuldade e que todo mundo vem comer na escola. Há momentos que a escola não tem merenda, porque daí toda a comunidade veio ali se alimentar e às vezes acaba. Mas quem tem traz pra escola pra comer com todos os outros”.

Indígenas da Aldeia Itaty Morro dos Cavalos estudam na UFSC e utilizam computador e internet. “Antigamente, pra dar uma notícia, a gente tinha que ir até lá. Às vezes tinha coisa que era um pouco mais urgente. Vamos supor, se falecia alguém, aí o contato era através de Nhanderú mesmo, através de Deus mesmo. Era a ele que a gente pedia aqui e ele transmitia lá. Não que a gente não utilize mais esse contato”, lembra Eunice.


Confira o relato da cacique Eunice




Cultura e sobrevivência – O artesanato representa a vida, os costumes e a tradição do povo guarani. Por isso, produzem e vendem, para contribuir na manutenção da família e divulgar a arte guarani. As mulheres são as que mais produzem, no entanto os homens também colaboram. A cacique Eunice coordena com as mulheres da aldeia uma Campanha de Valorização do Artesanato, como balaio, entalhes em madeira, sabonetes, chocalho, arco e flecha, sarabatana e bijuterias. “A gente chamou de Kunhangue Rembiapó, que significa artesanato das mulhres. Daí a gente tem no Facebook uma página, onde a gente posta e faz a divulgação”, diz a cacique.
Utilizam a agricultura de subsistência. Plantam mandioca, milho, amendoim e batata doce. Da plantação também retiram as sementes para serem usadas nos rituais.

Cada família da Aldeia Itaty Morro dos Cavalos recebe, sem uma periodicidade exata, uma cesta básica da Fundação Nacional do Índio (Funai), um órgão do governo federal, responsável em promover as comunidades indígenas.

Na aldeia moram aproximadamente 200 pessoas, sendo que a maioria está entre a idade de recém-nascido até os 16 anos. São 30 famílias que moram em casas simples de madeira e pouquíssimas de alvenaria.

Antigamente as casas eram construídas sem prego e só era permitido o uso de materiais extraídos da natureza. “Tudo que a gente tirava da natureza, a gente devolvia pra natureza e ela não podia sofrer nenhuma agressão do que a gente usou”, conta Eunice. A Casa de Reza (Opy, em Tupi-guarani) ainda é construída somente com barro, bambu e palha, sendo feita uma amarração com cipó.

A aldeia tem um grupo de música, é o Coral Tape Mirim. Segundo a cacique Eunice, o povo guarani é alegre, gosta de cantar e dançar. “Tem semanas que todos os dias o coordenador do coral, ele chama todas as crianças pra ir à tarde, quando começa a escurecer, pra ir pra Casa de reza e cantar né. E aí, nesse dia, os adultos também vão, daí cantam e dançam”.

Rituais – As orações do povo guarani são dirigidas a Nhanderú, o Deus supremo. São uma expressão das crenças e espiritualidade indígena. A Aldeia Itaty Morro dos Cavalos mantém essa tradição até hoje, como o momento do Petyngua, o cachimbo, para fazer a conexão do céu e a terra, em forma de sacrifício, passando por cima dos egoísmos para se confessar com Nhanderú. “Se a gente está doente, é usado isso, pedindo a força pra fazer as curas, os rituais, aí a gente é fortalecido. Se a gente precisa acalmar também, a gente pega o Petyngua. E geralmente nas palavras, numa cerimônia, num evento, então o Petyngua é usado pra gente transmitir a palavra da sabedoria. Não é a palavra da mente, a gente não pode ensaiar um monte de coisa. Mas a partir do momento que a gente usa o Petyngua, a gente vai falar aquilo que vem daqui”, relata a cacique, colocando a mão no coração.

Cada um pode usar o Petyngua para si próprio, mas existem os líderes espirituais, Karai, que falam diretamente com Nhanderú, para curar outras pessoas. Para tal, além do sacrifício do Petyngua são necessários outros cuidados, como alimentação e preparo físico, além de estar sempre em meditação e concentração, em silêncio.

O povo guarani tem várias lideranças, como o Karai Opygua, líder da Casa de Reza. Tem o Opita’i va’e, que é o líder da cura, esse não tem na Aldeia Itaty Morro dos Cavalos. Outro líder importantíssimo é o Yvyra’ija, um dos mais poderosos, que comanda o bastão, fazendo a conexão, como se fosse uma antena, ligando diretamente com os céus no momento de fazer um ritual. “Aqui a gente não tem agora. Talvez tenha por aqui e a gente não saiba também, porque nesse momento, nesse barulho, a gente não tem como. Mas aí depois que a gente mudar pra outro lado, a gente vai ver”, diz a cacique.

Até pouco tempo era proibido casar com pessoas de outras culturas. Agora já é permitido, porém é muito difícil a adaptação de culturas tão diferentes. “Eu penso comigo assim, se a pessoa está apaixonada ou ama aquela pessoa, quem sou eu pra chegar e dizer tu não pode. Mas só que a pessoa tem é que estar ciente que são culturas diferentes, que não vai dar certo ou alguém vai ter que se adaptar à cultura do outro. No nosso caso é muito difícil um guarani se adaptar à cultura de um branco. Ele vai, enquanto tiver descobrindo aquela vida ele tem aquela curiosidade, mas vai chegar num ponto que ele vai dizer não”, explica Eunice.

A juventude guarani quase não sai da aldeia, o que deixa os pais mais tranquilos, livrando os jovens do contato com as drogas, principalmente. Eles costumam visitar outras aldeias guaranis.

As mulheres da aldeia podem escolher como querem dar à luz os filhos. Algumas fazem o pré-natal e preferem ir ao hospital. Outras já não fazem os exames e têm a ajuda de parteiras para ganhar o bebê. Na Aldeia Itaty Morro dos Cavalos não tem parteira. Então, quando chega o prazo do nascimento, as mulheres vão até a aldeia mais próxima, onde tem parteira, para dar à luz.

O povo guarani tem o Ritual do Nascimento, onde todos da família da criança têm que seguir várias regras até a criança receber o nome, que não será dado pelos pais. Quem dá o nome à criança é o líder espiritual, também chamado de Karai, mediante contatos com Nhanderú.

Então, acontece o Ritual do Batismo. “Tem toda uma preparação pra receber esse nome. Aí é passado para criança que esse é o nome verdadeiro. Com o nome, vem toda a característica de quem ele é, a função. Então pelo nome já se caracteriza a pessoa”, ressalta Eunice.

Antigamente os cartórios não aceitavam o nome indígena por ser muito difícil de escrever. Então, logo que a criança nascia já era dado um nome na Língua Portuguesa para que fosse feito o registro. Hoje já é aceito o nome indígena, porém, ainda é necessário o nome na Língua Portuguesa. “Só que tem esse outro problema, porque a criança nasceu já tem que registrar. E pra nós é assim, a criança nasceu e tem que esperar até o nome dele vir. Então, como a gente está vivendo em sociedade, já tem que se programar em Português, para colocar o nome pra registrar”, diz a cacique.

Os guaranis costumam realizar os rituais indicando que é a passagem. Quando alguém da aldeia fica doente, acontece o Ritual da Cura; quando um guarani morre ele é enterrado na própria aldeia, seguindo o Ritual da Morte; tem os rituais relativos à puberdade, passagem de vida dos adolescentes para a fase adulta, e, ainda, os rituais da colheita, da chuva, entre outros.

Sonhos e lutas – A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) oferece o curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica. O curso tem o objetivo de formar professores e lideranças das três etnias existentes em Santa Catarina, guarani, xokleng e kaingang, para trabalhar com as próprias comunidades, nas suas aldeias. Possibilitando, assim, um diálogo intercultural, pesquisando suas culturas e defendendo seus direitos.

É urgente a defesa desses povos, pois o Sul é a região do Brasil onde os indígenas possuem as menores porções de terras. “O povo kaingang, com mais de 40 mil pessoas, é um dos maiores povos do Brasil e possui uma quantidade de terras insuficiente. Algumas áreas encontram-se arrendadas para produtores de soja porque as comunidades não recebem orientações e subsídos para produção do próprio alimento. A situação do povo guarani – também um dos maiores povos do Brasil – ainda é mais precária. Das 73 terras guarani, apenas 9% encontram-se regularizadas e 63% estão no estágio inicial de identificação ou sem providências. É no sul do Brasil também que existem os maiores conflitos por terra, tendo em vista que todas as terras estão tituladas. Todo processo de luta por terra enfrenta problemas graves com pessoas que se identificam como proprietárias. Os xokleng contam com duas terras em Santa Catarina e são os únicos falantes desta língua no mundo. A língua está em quase extinção”, diz o professor Clovis Antonio Brighenti, formado em História, mestre em Integração da América Latina, pós-graduado em Comunicação Social e em Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, doutor em História, que trabalha com comunidades indígenas pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) desde 1988 e neste ano assumiu por um período de 20h a coordenação pedagógica do curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica.

Nas últimas décadas, os povos indígenas conquistaram mais espaços. O grande problema está na garantia dos territórios que vão de encontro aos interesses do agronegócio. O capitalismo exige obras, afetando as comunidades indígenas e colocando-as como principais responsáveis pelo atraso no andamento para a conclusão dessas obras.

A cacique Eunice encerra a conversa dizendo: “O homem branco luta de outra forma, ele não luta com sentimento igual o guarani luta. O guarani luta com o sentimento na família, no povo, na alimentação, nas plantas, nos animais. O homem branco é pra ele só e que se dane as árvores, os rios, os animais, que se dane, talvez, até a própria família. A gente segue uma divindade que é o ser supremo, o ser maior que é Deus, que é o pai de todas as criações. E a gente está lutando para todo o bem desse universo que a gente vive, porque a gente foi colocado com todas as outras coisas. A gente pensa em preservar”.

“Uma coisa que eu aprendi com um ancião, nosso líder espiritual, falou que o Nhanderú, o nosso Deus, fez todas as pessoas que existem aqui. Nós somos todos iguais, apenas a cor que diferencia. Perante Deus nós somos todos irmãos”, finaliza Marcos, esposo da cacique.

Igreja e indígenas – Cimi é um organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que entende que não deve converter os indígenas ao catolicismo, mas perceber Deus nesses povos e respeitá-los. Os valores cristãos podem ser percebidos claramente na vivência em comunidade do povo guarani, na partilha dos bens e no amor vivido em família e entre todos.
Segundo o professor Clóvis, da sociedade brasileira se espera mais compreensão e solidariedade. “Percebe-se que as pessoas pouco conhecem os povos indígenas e quando os conhecem os veem como exóticos ou com discriminação. A Igreja tem mais a contribuir, é muito tímida a ação da igreja. É necessário despir-se mais dos preconceitos e fazer-se mais presente no meio indígena, sendo solidária, apoiando e contribuindo com suas lutas”.


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Fonte: Família Cristã 928 - Abr/2013
Postado por: Família Cristã




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