Papa Francisco

Data de publicação: 25/04/2013

Por Filipe Domingues

Com a eleição do Papa Francisco, a Igreja e o mundo foram surpreendidos pela normalidade. Assim, em poucas palavras, definiu o padre jesuíta Sandro Barlone, diretor do Centro de Fé e Cultura “Alberto Hurtado” e professor de Espiritualidade da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, em conferência realizada em 19 de abril. Pouco mais de um mês após o início do 266º pontificado da História, a universidade católica organizou um encontro para refletir sobre o perfil de Jorge Mario Bergoglio, antes arcebispo de Buenos Aires (Argentina), e fazer um breve balanço sobre as primeiras semanas de seu pontificado.

“O estilo normal do Papa Francisco representa a quebra de uma série de paradigmas”, declarou o padre Barlone, fazendo alusão a São Francisco de Assis, que com sua simplicidade e pobreza contribuiu para uma grande reforma histórica da Igreja, “então em decadência”. Para ilustrar essa “normalidade” do Papa Francisco, diversos fatos recentes foram citados na conferência. Entre eles, o de que o Papa Bergoglio celebra Missa todos os dias com diferentes grupos de funcionários do Vaticano e não quis se mudar para o palácio apostólico; continuou morando na residência de hóspedes Casa Santa Marta e voltou para pagar a conta do hotel onde havia ficado antes do conclave; fotos e relatos mostraram que o Papa toma café-da-manhã no refeitório comum e se senta a qualquer mesa, onde houver lugar; ele se recusou a usar vestes tidas como mais solenes e o famoso sapato vermelho (múleo); também a cruz peitoral é prateada, a mesma que usava quando era arcebispo, e o báculo passou a ser aquele de João Paulo II, menos rebuscado que o de Bento XVI; andou de ônibus fretado com os outros cardeais após o conclave que o elegeu; telefonou para diversas pessoas diretamente, sem auxílio de secretários pessoais e, mais de uma vez, falando primeiro com telefonistas; celebrou a Missa da Quinta-Feira Santa numa casa de detenção de menores, lavando os pés de homens e mulheres, uma delas muçulmana.

O franciscano capuchinho Frei William Henn afirmou na conferência que não foi só o estilo do Papa o que surpreendeu a todos, mas também a forma como ele se apresentou ao mundo. “Ele fala de si mesmo como ‘bispo de Roma’, ou seja, entende que é um bispo como os outros”, pontuou. “Trata-se de um exercício do papado, que é tido pelo novo Papa como um ministério de unidade.” De fato, até o momento o Papa Francisco só tem falado italiano e evita colocar-se como um monarca ou um líder de toda a Igreja. O frade Henn fez uma alusão à frase do Papa Gregório I (Gregório Magno), que após ter sido chamado de “bispos dos bispos” teria respondido: “Qualquer título que não honre a meus irmãos bispos, não honra a mim.”
O padre Barlone avalia que o estilo do novo Papa também é inseparável ao fato de Francisco vir do clero religioso – isto é, ser membro de uma ordem ou congregação religiosa, no caso a Companhia de Jesus. Segundo o padre, isso faz com que o Papa tenha um comportamento diferente dos antecessores mais recentes. Os religiosos muitas vezes se diferenciam, por exemplo, no aspecto missionário ou contemplativo da fé. De modo geral, devem estar mais abertos a mudanças de cargo ou transferências para qualquer lugar do mundo aonde forem enviados e, dependendo da ordem religiosa, devem ser assíduos na oração comunitária. Já os sacerdotes diocesanos atuam de forma mais fixa em um determinado território e em maneira mais pastoral e celebrando os sacramentos, muitas vezes sem a ajuda de outros padres. Ambos são essenciais para a Igreja, mas o estilo de cada um depende também da formação. “O último Papa religioso foi Gregório XVI (1831-1846), que era monge beneditino camaldolense e cujo papado foi anterior a Pio IX (1846-1878)”, recordou o padre e professor, observando que algumas características de Francisco estão necessariamente fruto de sua formação e experiência como jesuíta.

De acordo com o argentino padre Miguel Yañez, outro jesuíta, essa simplicidade de Jorge Mario Bergoglio é fruto de seu contato com os mais pobres na Igreja particular da Argentina. “Ele conviveu com muitos imigrantes, teve contato com a realidade religiosa local. Embora a maioria da população seja católica, somente 20% frequenta a missa e talvez ainda menos se identifique com as regras morais da Igreja”, descreveu o sacerdote, que conheceu Bergoglio antes do papado, ainda como superior provincial dos jesuítas na Argentina. “Ele formou um time de missionários que iam até os mais pobres, mas eram ricos de cultura e religiosidade. Também promoveu o diálogo com líderes de outras religiões.”

O também jesuíta padre Gianfranco Ghirlanda, que falou sobre o fato de Francisco ser o primeiro Papa da congregação, reiterou que “o modo de fazer as coisas” do novo Papa é em grande parte o estilo da Companhia de Jesus. “A pertença a um instituto está no carisma, e não nas regras do instituto”, disse o padre, recordando que os jesuítas fazem um voto de obediência ao Papa o que, novamente, demonstra como é excepcional ter-se um Papa jesuíta. “Segundo o Direito Canônico, ele não é vinculado às coisas de sua congregação que considere incompatíveis com a nova missão”, explicou. “Mas suas pregações mostram um entendimento que vem dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (fundador da Companhia de Jesus), promovendo uma profunda assimilação a Cristo, que veio para servir, e não para ser servido.” Porém, o professor de Direito Canônico ponderou que não se deve esperar privilégios para os jesuítas. “A única coisa diferente agora é que o Papa Francisco conhece a Companhia por dentro e os outros só conheciam por fora. O que muda? Não sabemos. Resta-nos a obediência”, disse, com bom humor.




Fonte: Família Cristã
Postado por: Família Cristã




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