O preço da felicidade

Data de publicação: 08/05/2013


Consumir sem consumismo. Está aí uma grande lição para ensinarmos às crianças

Por Antônio Edson

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os televisores e rádios estão ligados, respectivamente, em 95% e 88% dos lares do País. Os celulares, entre os 190 milhões de brasileiros, já chegam a 247 milhões de aparelhos. Há ainda a internet, iPods, tablets, terminais móveis de banda larga, videogames, MP3 (e outros tocadores de música), além de jornais e revistas, claro. Com tanta oferta midiática nunca estivemos tão expostos à publicidade. O Brasil detém o sexto mercado publicitário do mundo e será o quinto em 2014, empurrado por US$ 22,2 bilhões em investimentos. Bem-vindos até certo ponto, diga-se. Afinal, o capitalismo não sobreviveria sem publicidade. Sem ela não teríamos muitas empresas, seus produtos, o comércio, prestadores de serviços e, principalmente, empregos. Tudo é mantido pela economia em movimento, que, na ausência do consumo incentivado pela publicidade, ruiria. Graças a tal estímulo, consumimos o que precisamos e, por vezes, o desnecessário…

Se no capitalismo, como se sabe, nem todos conseguem viver com o que ganham – quando ganham – há, também, os que consomem além do que podem. É o que, na prática, diferencia consumo e consumismo. No primeiro caso, a pessoa compra o necessário; no segundo, gasta o que tem – e o que não tem – em troca de produtos supérfluos. Embora o que seja supérfluo para você possa ser necessário para seu próximo (e vice-versa), manter o equilíbrio entre o que se pode gastar e o que, efetivamente, se gasta é a melhor medida para não passar apertos ou sobrar mês no final do salário. Tal receita, óbvia como dois e dois são quatro, deveria ser transmitida a todas as crianças, a fim de que elas se tornem adultos conscientes de que, afinal, até os recursos naturais do planeta acabarão se não forem utilizados com critérios.

Doença – Por isso, toda orientação a respeito do consumo consciente para os filhos, e seus pais, é fundamental. “As crianças brasileiras passam cerca de cinco horas por dia diante da TV e essa é uma das maiores médias do mundo. Seria preciso diminuí-la. Frente a esse enorme bombardeio publicitário, o recomendável é que as famílias promovam mais atividades que não levam ao consumo. A rotina de ir ao shopping, por exemplo, onde muitas vezes consumimos desnecessariamente, pode ser substituída por um passeio ao ar livre, em um parque público”, recomenda a advogada Isabella Henriques, diretora do Instituto Alana, entidade que atua na defesa dos direitos de crianças e adolescentes e que tem no combate ao consumismo infantil uma de suas principais frentes de trabalho.

A preocupação com o excesso de consumo por parte das crianças não é, de fato, gratuita. Segundo psicólogos, economistas e educadores, algumas de suas consequências são o estresse familiar – o desgaste da relação entre seus membros –, a obesidade infantil, a erotização precoce, a abreviação da infância e, no limite, o aumento da violência. “São problemas que se multiplicam. Como a obesidade infantil, que já acomete 15% de nossas crianças. Gerada pelo consumo excessivo de bebidas de baixo valor nutricional, como os refrigerantes, e de alimentos carregados em sal, açúcar e gordura, ela provoca doenças cardíacas, problemas de pressão e, especificamente, a diabetes do tipo dois. Antes típicos de adultos, já vemos males como esses em crianças. E isso poderia ser evitado”, avalia Isabella.

Um remédio, ou vacina, contra o problema está em uma menor exposição de crianças à publicidade ou no controle dessas. Organizada, a sociedade civil já tem obtido vitórias contra certos abusos da propaganda em instâncias como a Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon), o Ministério Público e o Ministério da Justiça. “Mas a luta é dura, pois do outro lado está o poder econômico”, avisa a diretora do Instituto Alana. Outra frente de batalha é junto aos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo, para a aprovação de uma lei que restrinja a publicidade dirigida a crianças menores de 12 anos. “Não temos a ilusão de querer pôr as crianças em redomas, mas elas estariam mais protegidas se produtos e serviços dirigidos ao público infantil fossem, na verdade, anunciados para seus pais ou responsáveis”, aponta a advogada.

Foco – Independentemente de medidas como essas serem implantadas no futuro, toda criança, desde sempre, deve ter direito a uma educação que contemple o saber lidar com o dinheiro para, assim, evitar o consumismo. “E quanto mais cedo melhor”, diz o educador e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos, autor da primeira coleção de livros didáticos de educação financeira voltada para o Ensino Básico do País, já adotada por diversas escolas, e da metodologia de educação financeira Dsop – acróstico extraído dos quatro pilares que a compõe: diagnosticar, sonhar, orçar e poupar. “Através de hábitos e costumes, é preciso familiarizar a criança com hábitos corretos a respeito do dinheiro desde os seus quatro ou cinco anos de idade, já no Ensino Infantil. E uma maneira de fazer isso de forma lúdica é através dos passos de nossa metodologia. Com eles aprendemos não só a poupar, mas a alimentar nossos sonhos”, explica Reinaldo.

Sonhar, segundo ele, significa trocar o desperdício por uma meta maior. Como? Durante 30 dias, após fazer uma avaliação rigorosa de tudo o que se gasta, normalmente se constata um excesso de 20% a 30% das despesas. Esses podem ser poupados para a realização de projetos maiores, a serem concretizados em curto, médio e longo prazos. “Proponho aos pais que ensinem seus filhos a fazer essa poupança em três cofrinhos separados”, orienta o educador. Claro que essa capacidade de poupar varia de família para família, mas os resultados serão estimulantes para as crianças e surpreendentes para os pais. Aquele brinquedo, aquele laptop e, mais em longo prazo, aquela sonhada viagem à Disney podem virar realidade antes do que se imagina. E sem sufoco. Muitos pais, certamente, aderirão ao método.





Fonte: Família Cristã 920 - Ago/2012
Postado por: Família Cristã




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