Bicho-papão

Data de publicação: 16/05/2013

Por Fernando Geronazzo
Imagens: Sonia Mele / Rubens Chave


Silenciosa e velada, a violência sexual infantil é um problema que atinge o âmbito familiar. Esse drama pode traz marcas dolorosas e sequelas profundas para o desenvolvimento da criança



“Nana, neném, que a Cuca vai pegar...”. “O feio bicho-papão está em cima do telhado...” Cantigas de ninar como essas já embalaram o tranquilo sono de muitas crianças. Porém, entidades assustadoras como o bicho-papão e a Cuca, frequentemente usados para causar medo aos pequenos que não querem dormir, podem realmente estar dentro de casa e ameaçando a inocência deles. De maneira velada, camuflada, muitas vezes difícil de aceitar, a inocência pode ser roubada por aqueles que deveriam protegê-la. Trata-se da violência sexual infantil.

No Brasil, o Disque 100, serviço telefônico mantido pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH), da Presidência da República, registrou, entre 2003 e 2011, mais de 50 mil denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes. Mas como prevenir, identificar e enfrentar essa realidade?

A violência sexual infantil é definida como a exposição de uma criança a estímulos sexuais ou qualquer conduta levada a cabo por um adulto ou por outra criança mais velha. A vítima é forçada fisicamente ou coagida verbalmente a participar da relação sem ter a capacidade emocional ou mental para consentir ou julgar o que está acontecendo. Isto pode significar, além do ato sexual em si, tocar os genitais ou fazer com que a criança toque os genitais do adulto.

A psicóloga Maria Inês Rondello, coordenadora do Programa Cuidar, que atende crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, do Projeto Quixote, em São Paulo (SP), e membro da Comissão Municipal de Enfrentamento à Violência, Abuso e  Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (CMESCA), atua há dez anos no acompanhamento de casos de crianças e adolescentes que sofreram violência sexual.

Segundo a psicóloga, esse tipo de violência   “rouba a inocência da criança”, fazendo-a sentir coisas que não são próprias de sua idade, como apresentar conteúdo pornográfico ou até mesmo, quando adultos mantêm relações sexuais diante desses menores.

Quando acontece

A maior parte dos casos acontece com crianças entre 8 e 13 anos, principalmente na fase em que começam as transformações do corpo em decorrência da puberdade. Porém, cada vez mais têm aparecido situações envolvendo crianças de 3 a 5 anos. A maioria dos casos envolve as meninas. Mas isso não significa que a agressão  não ocorra com meninos, expondo uma questão cultural relacionada à homossexualidade.

A violência sexual infantil, em boa parte, envolve algum parente ou pessoa de convívio muito próximo. “Quando a violência é contra uma criança, sempre falamos de um agressor conhecido. Em primeiro lugar o pai, em segundo o padrasto, irmão mais velho, tio, avô e daí por diante”, relatou Daniela Pedroso, psicóloga do Núcleo de Violência Sexual do Hospital Pérola Byington, na capital paulista, onde, nos últimos dez anos,o número de vítimas atendidas aumentou 37%.

Acreditar na criança

É muito importante dar credibilidade à palavra da criança. “Quando ouvimos o relato de uma criança que sofreu violência sexual, ele é permeado de tantos detalhes que sabemos que a criança não teria como ter inventado tudo aquilo”, disse Daniela.

À medida que a criança vai crescendo, fica mais fácil para ela relatar a violência. Muitas vezes, tem dificuldade de discernir se o que está acontecendo é certo ou errado, até porque há ocasiões em que a pessoa dá algum doce ou outro presente para a criança, deixando-a confusa.

Porém, quando surgem os sinais de que uma criança pode estar sofrendo violência sexual, é sempre importante que se procure uma orientação profissional. Um especialista ajudará a identificar a veracidade do relato, por meios de recursos próprios.

Tratamento

A criança jamais esquecerá a violência que sofreu. Mas o tratamento psicológico ajuda a compreender o fato de outra maneira, evitando o sentimento de culpa e, principalmente, restaurando a auto-estima da criança.

Ela passa por um processo de acolhimento nas sessões de terapia, relatando os fatos de acordo com suas condições e possibilidades psíquicas. Raramente a vítima irá verbalizar o que aconteceu. Mas dará dicas. “Por isso conversamos com ela por meio de brinquedos, desenhos.

A criança conversa consigo mesma, dialoga com os adultos através de brincadeiras”, destaca a psicóloga. Junto com o atendimento à vítima, é necessário o atendimento à família. É o caso de Roberta (nome fictício), de 9 anos, que chegou ao Projeto Quixote encaminhada pelo conselho Tutelar.

A denúncia foi feita após a menina relatar para a mãe que acordou com o vizinho acariciando-a. A mãe levou a menina ao pediatra, que a encaminhou para o conselho tutelar. Atualmente, ambas continuam sendo atendidas pelo programa. Esse é um dos raros casos em que a criança relatou espontaneamente o ocorrido e que, segundo a psicóloga, é sinal da construção de uma boa relação de confiança entre mãe e filha.

Agressores

A psicóloga Maria Inês Rondello também atende agressores, na maioria encaminhados pelo juiz, porém o número de agressores é muito menor que o de vítimas. Categórica ao dizer que todos os agressores atendidos por ela, sem nenhuma exceção, foram um dia agredidos, Maria Inês salienta a importância de tratar as vítimas de violência: “Na medida em que você atende a criança que foi agredida, você já está prevenindo que isso se repita no futuro”.

É preciso, também, fazer uma distinção entre a patologia ou o transtorno – que leva uma pessoa a sentir atração sexual por uma criança e que, por isso, necessita de tratamento – e a prática da violência – que é um crime, passível de punição.


Quando se fala de agressor, também é preciso ter claro que se trata de homens e mulheres. Há muitos casos envolvendo mães, avós ou pessoas próximas. A pedofilia feminina é pouco conhecida porque culturalmente a mulher tem muito mais autoridade para “mexer” no corpo da criança, pois geralmente é ela quem dá banho nos filhos, por exemplo.

A questão do caráter e ética também é levada em consideração na prática da pedofilia. A disposição do agressor para uma mudança de conduta se dá a partir do momento em que ele apresenta o conflito, uma culpa ou vergonha. “Dependendo do caso ou da idade, é possível trabalhar o caráter e a ética de maneira que essa pessoa continuará a sentir tal desejo, porém não irá realizar a pedofilia”, garante Maria Inês, ao falar sobre terapias bem-sucedidas com pedófilos.

Denúncia

Existem vários caminhos para denunciar a violência sexual infantil. Além do Disque 100, cuja ligação pode ser feita anonimamente, é importante procurar qualquer delegacia, Conselho Tutelar ou até mesmo algum hospital ou projeto social. Desses, os conselhos tutelares são os mecanismos mais indicados, por estarem mais próximos das vizinhanças. O promotor de justiça Thales Cezar de Oliveira explica que o caso de violência sexual infantil é direcionado para o promotor criminal comum, por se tratar de um ato cometido por uma pessoa maior de idade. A pena de um crime como esse gira em torno de dez anos de reclusão.

O primeiro procedimento é afastar o agressor da vítima e proporcionar um ambiente mais saudável possível para essa criança.Todas as pessoas precisam estar atentas aos sinais de violência. “Hoje vivemos em um mundo no qual, às vezes, nos preocupamos somente com nossos próprios problemas e nos esquecemos de olhar ao nosso redor. Trata-se apenas de pegar um telefone e fazer uma denúncia anonimamente. Isso pode fazer diferença para toda uma família”, apela o promotor.



Como identificar a violência sexual

Os profissionais alertam os pais e pessoas mais próximas a ficarem muito atentas a qualquer mudança brusca de comportamento e a alguns sinais apresentados abaixo. Porém é preciso ter claro que isso não quer dizer que esses sinais isolados necessariamente significam que a criança está sofrendo violência sexual. Os sinais físicos são mais difíceis de serem identificados, uma vez que o agressor costuma tomar o máximo de cuidado possível para não deixar marcas nas crianças.

Sinais na criança
- Interesse excessivo ou  à natureza sexual
- Problemas com o sono ou pesadelos
- Depressão ou isolamento de seus amigos e da família
- Achar que têm o corpo sujo ou contaminado
- Ter medo de que haja algo de mal com seus genitais
- Negar-se a ir à escola
- Rebeldia e delinquência
- Agressividade excessiva
- Comportamento suicida
- Terror e medo de algumas pessoas ou alguns lugares
- Retirar-se ou não querer participar de esportes
- Respostas ilógicas quando perguntamos sobre alguma ferida em seus genitais
- Temor irracional diante do exame físico
- Mudanças súbitas de conduta
 - Expressar-se, às vezes, por desenhos, mostrando, por exemplo, partes sensuais adultas

Quando esses sinais são percebidos, é muito importante que os familiares comecem a conversar com a criança. Mas nunca se deve entrar em pânico. Procure algum profissional da área da saúde, educação ou social para pedir orientações






Fonte: Família Cristã 917 - Mai/2012
Postado por: Família Cristã




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